Muse Maya não cabe na própria persona

Muse Maya em entrevista ao deepbeep sobre Persona, carreira, atuação e as músicas que fazem parte de sua vida

Entre desejo, dinheiro, ambição e autoestima, Muse Maya fala sobre o que precisou descobrir para finalmente se levar inteira ao palco.

Existe uma diferença entre construir uma imagem e descobrir quem você é. Muse Maya passou pelos dois processos. Ela começou escrevendo poemas que já nasciam cantados, atravessou a atuação e chegou à música transformando sentimentos que nem sempre sabia nomear em canção. A trajetória também passou por uma realidade bem menos glamourosa do que a imagem pública poderia sugerir. Interior, morro, aluguel difícil, miojo por uma semana e uma vida social mantida acima das próprias condições para criar oportunidades. Hoje, essa distância interessa menos. Muse chega ao quarto álbum, Persona, com uma carreira que, segundo ela, foi construída totalmente por si mesma. O disco fala abertamente de desejo, dinheiro, ambição, insegurança e autoestima. Entre esses assuntos, existe um que ainda a deixa mais exposta. Falar sobre dinheiro e ambição.

A atuação acrescentou outra camada. Interpretar alguém exige abandonar o próprio ponto de vista e experimentar outra lógica. Para Muse, esse deslocamento permite enxergar uma nova versão de si mesma a cada personagem. A vida fica maior quando não precisa ser vista apenas pelo próprio olhar.

Em 2022, quando esteve no Rock in Rio pela primeira vez, ela ainda não tinha um álbum e atravessava um processo profissional que a fazia duvidar de quem era. Agora volta ao festival com quatro discos e outra relação com a própria identidade. Está levando a si mesma inteira para o palco.

Na conversa com o deepbeep, Muse Maya fala sobre a mulher por trás da imagem, o preço de construir uma carreira na música, o que a atuação revela e a liberdade que encontrou ao parar de esconder ambição, desejo e dinheiro. A playlist O Que Não Entrou na Cena, escolhida por ela, abre uma janela para outro repertório. Tanerélle, Marina Lima, Frank Ocean, Beyoncé, Kali Uchis e outras faixas que contam coisas sobre Muse que não necessariamente aparecem nas próprias músicas.

Lísias Paiva, criador e editor

Você começou a escrever muito cedo. O que você escrevia quando ninguém pensava em transformar aquilo em música?
Se não fosse música, eu escreveria poesias, mas, desde muito nova, as letras já saíam com melodia, então acho que sempre foi música. Mesmo sem um instrumental ou sem saber tocar nada, as letras já saíam cantadas. Sempre escrevendo sobre coisas ao meu redor ou inspirada em poemas que eu amava ler. Meu poeta favorito é Olavo Bilac, então imaginem o quão dramática eu era escrevendo minhas primeiras músicas. Sempre escrevi sobre sentimentos e coisas que me tocavam de alguma forma, mesmo sem saber direito que sentimentos eram aqueles.

Você também é atriz. O que interpretar uma personagem permite descobrir sobre você que a vida real não entrega?
Acredito que me ensina a ver o mundo e a vida fora da minha própria realidade, quase como em terceira pessoa, porque eu preciso traduzir a vida pelo olhar do personagem, não do meu, e, com isso, consigo ver uma nova versão de mim mesma toda vez que necessário. A vida se torna muito mais rica através do olhar do ator. Por isso, não estamos mentindo ao fazer um papel, estamos nos permitindo ser outra pessoa, com outra vida e em outro raciocínio.

Tem alguma coisa que as pessoas costumam imaginar sobre você e que não tem nada a ver com quem você é?
Acho que as pessoas às vezes acham que eu sou metida ou venho de uma realidade com mais dinheiro, mas realmente não tem nada a ver comigo. Sou o tipo de pessoa que se dá e conversa com qualquer tipo de pessoa. Vim do interior, lá do meio do mato mesmo, e tive uma infância e adolescência muito simples e divertida. Apesar da realidade humilde, minha mãe me proporcionou muito acesso à cultura e à arte, o que é um privilégio.
Durante um bom tempo da minha vida adulta, por escolher fazer música, tive muito pouco acesso a certas coisas. Nunca passei fome nem nada, mas já cheguei a comer só miojo por mais de uma semana. Morei três anos no morro, num barraquinho que nem forro tinha no teto, e ainda assim era muito difícil pagar o aluguel vivendo de arte. Mas sempre mantive meu Instagram e vida social bem acima da realidade para atrair mais trabalhos e manter aquele lugar como meu portfólio. Querendo ou não, saí dessa realidade mais difícil assim. Se hoje eu, de fato, vivo um melhor, é porque manifestei essa realidade antes dela existir.

PERSONA fala de desejo, dinheiro, ambição, insegurança e autoestima. Qual desses assuntos fez você se sentir mais exposta quando virou música?
Por mais incrível que pareça, falar sobre ambição e dinheiro é o mais difícil para mim. Sempre me vi como uma pessoa que tinha esses sentimentos, mas nunca falava sobre eles de maneira tão impactante quanto em Persona. Acho que isso também faz parte do processo de me sentir livre para falar e fazer o que eu quiser, me libertando até das prisões que eu mesma me coloquei.

PERSONA vai estrear ao vivo no Rock in Rio, um palco onde você já esteve antes. O que você está levando para esse show que a Muse de 2022 ainda não tinha?
Acho que eu estou me levando inteira dessa vez. Em 2022, eu não tinha álbum e estava vivendo um processo de trabalho muito difícil, com pessoas que me faziam duvidar muito de quem eu era. Hoje sou uma mulher com uma carreira construída totalmente por mim mesma, quatro álbuns e um trabalho sólido. Hoje eu sei quem eu sou e quem a Muse Maya é para o mundo. Esse álbum me curou em vários lugares e segue me ensinando coisas que nem sabia que precisava aprender. Subo no palco com mais certeza e muito mais feliz.

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Agradecimentos à Sophia Pietá Milhorim da Melina Tavares Comunicação pela conexão

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