Anttónia e o direito de não ser totalmente legível

Anttónia em entrevista e playlist para o deepbeep

Entre música, direção criativa e imagem pública, Anttónia transforma imperfeição, imprevisibilidade e silêncio em parte da própria linguagem.

Anttónia nunca foi anônima. Filha de artistas conhecidos, cresceu sendo observada antes mesmo de conseguir decidir como queria aparecer. Aos 19 anos, interrompeu esse fluxo. Saiu da casa dos pais, improvisou um estúdio no quarto e passou mais de um ano gravando, descartando e reconstruindo músicas até encontrar uma sonoridade que não dependesse da imagem projetada sobre ela. Desse processo nasceu “Milagros”, EP lançado em 2015. Depois vieram “Luzia 20.20” e “Ímpar 60”, disco em que revisita composições de Orlando Morais ao lado do produtor Artur Kunz. A mudança apareceu também no nome. O sobrenome “Morais” saiu, o segundo “T” entrou e Anttónia virou o alter ego que sustenta a artista em público enquanto Antonia, pessoa física, permanece mais silenciosa, introspectiva e menos legível. Hoje ela circula entre música, atuação, direção, moda e campanhas sem parecer muito interessada em coerência absoluta. Existe algo de calculadamente imprevisível na forma como constrói imagem, som e presença. Na conversa com o deepbeep, Anttónia fala sobre perfeccionismo, controle, identidade e sobre o momento em que uma estética excessivamente polida começa a perder tensão. A playlist “Música Para Sustentar a Presença” acompanha esse processo entre melancolia, eletrônica, introspecção e impacto emocional. Radiohead, Crystal Castles, Air, Sigur Rós e faixas da própria Anttónia aparecendo como parte dessa construção entre ruído público e silêncio privado.

Por Claudio Thorne
Supervisão de Lísias Paiva, sócio-editor

Anttónia, você cresceu sendo observada antes mesmo de construir uma linguagem própria. Em que momento a imagem deixou de ser algo herdado e passou a ser algo que você decide?
Quando produzi Milagros, meu primeiro EP, foi um mergulho muito profundo em mim mesma para que eu encontrasse minha própria sonoridade. Acho que é um exercício inevitavelmente solitário para um artista tentar se desvencilhar das referências que nos moldaram durante a vida e traduzir a própria identidade.
Na época, saí da casa dos meus pais e improvisei um home studio no meu quarto, onde eu não fazia outra coisa além de produzir, compor e experimentar sonoridades que traduzissem o que eu queria expor naquele momento. Foi um processo bem catártico.
Lembro que, embora eu tivesse entre 19 e 20 anos, não conseguia ter uma vida social durante aquele ano de isolamento criativo. Acredito que esse momento foi fundamental para que eu entendesse como queria me posicionar como artista dali para a frente.

Você atua, canta, produz e dirige seus próprios projetos. Em algum ponto isso deixa de ser liberdade e começa a virar pressão de controle total? O que você precisa abrir mão para continuar criando?
Eu sou bem controladora, e é claro que existe uma sobrecarga nessa posição, que às vezes empaca a criatividade.
Com a maturidade, fui aprendendo a delegar e a exercer a paciência de explicar minha visão. Isso sempre me pareceu mais difícil do que eu mesma ir lá e fazer, mas acredito que, quando você encontra um time alinhado com você, existe tanta sintonia que é como se vocês estivessem conectados por bluetooth.
É muito importante para um artista autoral encontrar profissionais que compartilhem dos mesmos gostos, referências e tenham um senso estético alinhado com o seu, para que a magia da cocriação aconteça quase por telepatia.

Existe uma expectativa de coerência quando alguém ocupa tantos lugares ao mesmo tempo. Você sente que precisa organizar essa identidade ou prefere deixar as contradições aparecerem no trabalho?
Eu gosto de contradições, não me considero uma pessoa muito convencional nesse sentido. Acho que meu trabalho como artista multidisciplinar reside nesse lugar de não ser 100% legível e de criar mistério em torno da minha própria imagem.
Acho transgressor ser imprevisível e fazer suas criações de forma instintiva e intuitiva, sem necessariamente se adequar às expectativas dos outros.

Sua música e sua imagem têm um cuidado estético evidente, mas nunca parecem “polidas demais”. O que você evita quando percebe que algo está ficando bonito demais e perdendo tensão?
Na verdade, é uma escolha estética. Sou muito preciosista quando se trata de execução técnica, mas, para chegar a esse resultado menos polido, é preciso um olhar quase melancólico que vai contra o perfeccionismo, justamente porque, para mim, a beleza e a poesia moram na imperfeição das coisas.

Entre set, estúdio, câmera e palco, você está sempre performando de algum jeito. Quando não precisa sustentar nada, o que sobra de você?
Eu, Antonia, pessoa física, sou bem diferente de como performo minha imagem. Acho que é trabalho do artista ser também um ilusionista e, de certa forma, utilizar esse alter ego para sustentar tudo aquilo que nós, seres humanos, não conseguimos.
Eu, na minha solitude, sou bem introspectiva, observadora e silenciosa, e deixo para que a Anttónia, pessoa pública, faça todo o barulho e crie o impacto necessário.

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Fotos por Fhilipe Ribeiro e Higor Blanco

Agradecimentos ao Caíque Jarro e Isabel Almeida da Pop Communication

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