Marcello Dantas e a arte de prestar atenção

Marcello Dantas em entrevista e playlist para o deepbeep sobre atenção, silêncio, experiência sensorial, música e presença.

Marcello Dantas passou décadas criando experiências capazes de prender a atenção de milhares de pessoas. Hoje ele acredita que esse se tornou um dos recursos mais escassos do presente.

Existe gente que cria obras. Marcello Dantas costuma criar condições para que elas sejam percebidas. Ao longo das últimas décadas, o curador e diretor artístico ajudou a transformar exposições em experiências corporais capazes de envolver visão, audição, espaço, memória e emoção ao mesmo tempo. Grande parte do seu trabalho nasce de uma pergunta simples. O que realmente acontece quando alguém presta atenção? Essa pergunta atravessa toda a conversa.

Para Marcello, a principal ameaça cultural do presente não é o excesso de informação. É a dificuldade crescente de permanecer disponível para alguma coisa por tempo suficiente para que ela nos transforme. A atenção aparece aqui como uma forma de presença. O silêncio aparece como experiência coletiva. A música aparece como linguagem capaz de atravessar fronteiras que outras formas de comunicação dificilmente alcançam.

Em diferentes momentos da entrevista, ele fala sobre a força de uma câmara anecoica, sobre a experiência de ouvir música em um museu dedicado ao som analógico em Seul e sobre a importância de construir experiências sentidas pelo corpo inteiro.

A playlist “Estado de Presença” amplia essa investigação. Entre Philip Glass, Ryuichi Sakamoto, Meredith Monk, Luiz Melodia, Michael Nyman, Tom Zé e outros artistas fundamentais na sua escuta, Marcello reúne músicas que acompanham processos criativos, deslocamentos e momentos em que a atenção finalmente encontra um lugar para repousar. Na conversa com o deepbeep, Marcello Dantas fala sobre música, percepção e sobre por que prestar atenção continua sendo uma das experiências mais radicais do presente.

Marcelo Nassif, sócio editor

Existe alguma experiência estética, fora do circuito da arte, que recentemente te fez sentir presente de verdade?
O Audeum Museum, em Seul, foi a coisa mais profunda que vivi nos últimos tempos: um museu dedicado à experiência analógica do som. Um arrepio.
O outro foi Borda, espetáculo da Lia Rodrigues. Um soco no estômago, mas com afeto.

Tem alguma música que muda imediatamente a forma como você percebe espaço, luz ou movimento?
Nesse museu coreano, qualquer música se transfigura de um jeito incrível. Até “Yesterday” e “Lucy in the Sky with Diamonds”, dos Beatles, soam outra coisa.
Mas é “Spring”, do Recomposed, de Max Richter, que me põe em movimento onde quer que eu esteja. Mexe comigo.

Seu trabalho muitas vezes transforma informação em sensação. O que você acha que a nossa geração desaprendeu a sentir?
Tempo, harmonia, a elaboração criteriosa da alternância das notas e dos ritmos mais profundos e intuitivos da música. Amo o canto sem palavras de Bobby McFerrin, Wim Mertens e Meredith Monk. A música é uma linguagem espantosamente eficaz, capaz de conversar até entre espécies. Amo ver como gatos e cães se entregam a ela.

Entre excesso de imagem e velocidade constante, o que ainda consegue prender sua atenção por tempo suficiente?
Detalhe, minimalismo, precisão. Artistas como Ryuichi Sakamoto, Sean Angus Watson, Philip Glass e Michael Nyman. A velocidade não é necessariamente algo ruim. A sincronicidade é a mágica mais incrível que existe, e ela acontece em movimento.

Você já criou espaços para milhares de pessoas atravessarem emocionalmente juntas uma experiência. Como você percebe o silêncio dentro de um ambiente coletivo?
A música é o silêncio que reside entre as notas. Quando fiz a Bossa na Oca, construímos uma câmara anecoica para que as pessoas sentissem o que é o silêncio. Não há nada mais poderoso do que estar em silêncio juntos. Absolutamente revelador e disruptivo.
Quem já teve uma experiência psicodélica conhece a força gravitacional do silêncio e a força transformadora da música. Isso pertence ao âmbito espiritual mais profundo.
Eu crio com todos os sentidos. Na minha opinião, uma exposição tem que ser um acontecimento corporal. Quero que se sinta pelos poros, pelo intestino, pela pele, pela medula. O corpo nunca deve ser negligenciado.

Quando você imagina o futuro da cultura, o que te parece mais perigoso hoje: excesso de estímulo ou falta de profundidade?
Acho que a verdadeira ameaça é a falta de atenção, ou a falta de capacidade de ser permeável. Profundidade cada um tem a sua, e ela muda no curso da vida. Uma mesma obra é percebida de forma diferente em idades diferentes.
O excesso de estímulo não é um problema da cultura, mas da sociedade como um todo. Precisamos entender que o território onde estamos semeando é saturado. E isso não deve ser visto como um problema, e sim como uma condição. Uma oportunidade de falar mais baixo, de forma mais sintética e sublime, e ainda assim ser percebido. O desafio de hoje é conseguir tocar as pessoas nesse contexto.
E ainda é possível.

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