Juyè e as versões que já não cabem mais

Juyè em entrevista e playlist para o deepbeep sobre amadurecimento, mudança, identidade, vulnerabilidade e as versões de si que ficam pelo caminho.

Juyè acredita que crescer tem menos relação com encontrar uma versão definitiva de si e mais com aprender a se despedir de algumas delas.

Existe uma expectativa pouco discutida sobre amadurecimento. A de que, em algum momento, finalmente vamos descobrir quem somos. Como se a vida fosse uma longa investigação destinada a revelar uma versão definitiva de nós mesmos. Uma identidade estável. Uma resposta final. Juyè parece desconfiar dessa promessa.

Ao longo dos últimos anos, a artista atravessou mudanças que alteraram sua relação com a música, com a exposição, com a maternidade e com a própria ideia de permanência. Algumas dessas transformações foram escolhas. Outras chegaram sem pedir autorização. Todas deixaram marcas.

O curioso é que a conversa nunca assume o tom de quem está tentando organizar essas experiências dentro de uma narrativa de superação. Pelo contrário. Em diferentes momentos, Juyè retorna a uma percepção que atravessa toda a entrevista. Crescer não significa encontrar uma versão definitiva de si. Significa aprender a conviver com o fato de que várias versões suas vão desaparecer no caminho. Algumas porque já cumpriram o que precisavam cumprir. Outras porque simplesmente não cabem mais.

Talvez por isso a palavra mudança apareça aqui de um jeito diferente. Não como ruptura, reinvenção ou recomeço. Mas como uma forma de honestidade. A possibilidade de abandonar expectativas antigas, recalcular rotas e admitir que certas respostas já não servem para as perguntas de agora.

Essa mesma sensibilidade aparece quando ela fala sobre música. Canções funcionam como registros de pessoas que já fomos. Pequenos arquivos emocionais capazes de guardar medos, desejos, escolhas e versões inteiras de nós mesmos que continuam existindo em algum lugar, mesmo depois de terem mudado.

A playlist “As Versões que Ficaram pelo Caminho” amplia essa conversa. Entre músicas próprias, BK, Luedji Luna, Milton Nascimento e Gal Costa, Juyè reúne faixas que ajudam a revisitar mudanças, reencontrar partes antigas de si e compreender transformações que só fizeram sentido muito tempo depois de acontecerem.

Na conversa com o deepbeep, Juyè fala sobre amadurecimento, vulnerabilidade e sobre o direito de mudar sem transformar cada nova fase da vida em uma justificativa.

Lísias Paiva, criador e editor

Juyè, você já transitou por rap, R&B, música melódica, composição, internet e uma geração que precisou construir identidade enquanto era observada o tempo inteiro. O que ficou mais difícil de proteger no meio de tanta exposição?
Acho que eu que optei por parar de me expor, parar de expor as minhas filhas. Acho que, por tudo o que eu passei — a perda de um filho, pausa na carreira, maternidade me cobrando mais atenção — e aí, durante todo esse turbilhão de emoções ao mesmo tempo, parecia que eu não estava sendo relevante, sabe? Aquele sentimento de se autossabotar. E haja terapia pra lidar! E, gente… eu amo ser low profile (risos). Mas juro que tenho deixado de ser. Afinal, se você não é visto, não é lembrado, né?

Tem músicas que parecem registrar versões nossas que já nem existem mais. Como é reencontrar uma pessoa antiga através de uma canção?
Gosto de olhar com carinho para tudo o que faço e amo ver o amadurecimento que construí com o passar dos anos. Hoje muita gente sente pressão para transformar cada fase da vida numa marca pessoal muito bem definida.

O que a mudança ainda permite descobrir que a coerência excessiva impede?
Acho que, quando você se força a ser uma “linha reta” para caber na expectativa do outro, você perde o direito de errar, de mudar de ideia, de recalcular a rota, sabe? E, se eu fosse presa ao que as pessoas esperavam de mim, eu não teria descoberto nem a metade do que artisticamente eu sou hoje em dia. E muito menos as histórias que eu gostaria de contar agora. E, quando a gente abre mão de ser perfeitamente coerente o tempo todo, a gente ganha gosto de ser real e fé pra tudo (risos).
No meu caso, eu sinto que é na vulnerabilidade da transição que nascem as minhas composições mais sinceras.

Você escreve, canta e também observa muito o cotidiano nas suas músicas. Qual comportamento costuma denunciar que alguém está tentando parecer mais resolvido do que realmente está?
Acho que é aquela postura do “tá tudo bem, desapeguei, dispiei, fui”… Quando a pessoa faz questão de verbalizar e enfatizar isso o tempo inteiro, sabe? Quem está realmente em paz com as suas decisões não manda indireta e geralmente não fica falando disso. E, nas relações, isso aparece muito naquela pressa de mostrar que a vida seguiu, no orgulho de nunca demonstrar vulnerabilidade ou na necessidade de manter uma postura impecável, de quem tem o controle de tudo… O maior blefe, para mim, é o excesso de racionalização.

Existe alguma verdade sobre amadurecer que quase ninguém gosta de ouvir no momento certo?
Amadurecimento é um processo profundamente solitário. Assim, eu acho que todo mundo gosta da ideia de se ver mais forte, mais segura, mais dona de si. Só que é nesse processo que você percebe que vai ter que abrir mão de versões suas que você ama, de pessoas que você achava que iriam até o fim com você e das certezas que desmoronam na primeira tempestade interna que você passa, sabe? Amadurecer é aprender a lidar com a frustração de que as coisas não vão ser do seu jeito e que ninguém vai vir te salvar. Você se torna a sua própria rede de apoio.
E a parte mais chata é entender que a maior parte das suas dores de cabeça não foi culpa do mundo, da ex ou do destino, mas das escolhas que você mesma fez. Olhar no espelho e assumir o B.O. da própria vida, sem terceirizar a culpa, é a coisa mais dolorosa e necessária que existe. É um gosto amargo no começo, mas é a única coisa que te liberta de verdade, e isso é babadoooooo hahaha.

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Fotos por Mariana Mendes

Agradecimentos à Larissa Martin da Omim Comunicação

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