
Para Marcos Guzman, escolher o que chega ao público exige rua, repertório, responsabilidade e disposição para errar.
São Paulo tem uma habilidade particular para transformar descoberta em fórmula. Um lugar aparece, uma linguagem chama a atenção, uma cena começa a circular. Pouco depois, todo mundo está olhando para o mesmo lado. Marcos Guzman trabalha para chegar antes desse momento. Não no sentido de prever a próxima tendência, mas de entender de onde ela vem. Sua pesquisa passa por comunidades, artistas, pistas, territórios e conversas que dificilmente aparecem numa busca rápida na internet. Passa também pela disposição para errar, voltar, ouvir de novo e reconhecer quando uma escolha precisa mudar.
Na Discopedia, na comunidade ballroom, em projetos com artistas indígenas e nas trocas com nomes como Larry Heard, Greg Wilson e Daniel Wang, Guzman construiu uma maneira de fazer curadoria que depende menos de seguir referências e mais de criar relação com elas. O resultado aparece em festivais, espaços culturais e projetos que aproximam música, arte, tecnologia e cidade.
Agora, essa visão encontra o PRISMA, ocupação semanal do Jardim Suspenso do CCSP que reúne música, performance e cinema. Guzman está à frente da concepção e curadoria do projeto, que aposta no encontro entre linguagens, gerações e cenas que nem sempre dividem o mesmo espaço. O deepbeep abre cada edição com uma playlist temática e recebe um convidado que apresenta sua seleção musical, sua escuta e aquilo que ela pode revelar (mais informações ao final da entrevista).
Na conversa, Guzman fala sobre o vício em novidade, a facilidade com que uma cidade inteira pode correr para a mesma tendência e o trabalho invisível necessário para descobrir algo antes que vire repertório de todo mundo. A playlist “O Que Faz Você Parar”, curada para o deepbeep, leva essa investigação para outro lugar. São músicas que ainda conseguem interromper o automático.
Lísias Paiva, criador e editor
Guzman, quando curadoria virou uma palavra tão usada, o que você acha que passou a ser confundido com curadoria?
Assim como aconteceu com a fotografia e o DJ, a posição de curador foi sequestrada pelo hype da internet. Todo mundo é curador, quer ser curador. Mas curadoria envolve responsabilidade, imparcialidade e impessoalidade. Aprendi isso trabalhando durante décadas em projetos com o setor público. Toda manifestação artística está ligada a algum tipo de comunidade, e é preciso ter muito cuidado com isso. Curadoria não é fazer uma pesquisa na internet, copiar trechos ou line-ups de outras pessoas e seguir o que outros curadores estão fazendo. Existe um trabalho e um fio condutor por trás de uma escolha. Hoje tenho profundo respeito por ter sido recebido em diferentes comunidades. Esse convívio também é um aprendizado diário, feito de erros, acertos e correções de rota.
Você fala bastante em estar dentro das comunidades. O que muda quando a pesquisa deixa a tela e vira convivência?
Atualmente trabalho há quatro anos com a Discopedia, um dos principais coletivos de black music e cultura preta do Brasil. É um ponto de encontro semanal do mainstream da black music brasileira, com manifestações de música, dança e cultura.
Aprendi muito sobre as questões raciais, culturais e sociais que envolvem o cotidiano de uma pessoa racializada e das pessoas afro-diaspóricas. Eu me coloco a serviço deles, não como protagonista ou representante. Costumo dizer aos meus colegas que uma semana trabalhando na Discopedia, convivendo com agenciamento, produção, backstage, camarim e negociação, equivale a seis meses de ciências sociais na faculdade.
Também trabalho com a comunidade ballroom, com a House of Blyndex, uma comunidade preta, trans e LGBTQIA+. Tenho me relacionado ainda com uma geração de indígenas aldeados ou em retomada de identidade. Em todos esses espaços, procuro me colocar em posição de aprendizado, chegar junto e trabalhar.
Mantenho também uma rede de comunicação com precursores e vanguardas de diferentes linhas artísticas no exterior. Tenho trocas frequentes com pessoas como Larry Heard, Greg Wilson e Daniel Wang, que têm um pensamento crítico muito desenvolvido sobre questões sociais. Também trouxe pela primeira vez músicos e DJs da Turquia e mantenho uma conversa frequente com o DJ Barış K, formado em História em Istambul. Falamos sobre sufismo, história e outras manifestações culturais. Para mim, curadoria exige esse contato. É preciso ter cuidado com aquilo que se chama de curadoria.
Você já levou esse princípio para situações concretas em que uma escolha abriu uma porta para alguém?
Um trabalho de que tenho muito orgulho aconteceu no Lollapalooza, em 2023. Conectei os melhores estudantes dos cursos de música e discotecagem das unidades da Fábrica de Cultura da Zona Sul ao espaço da Chevrolet dentro do festival, onde eles puderam ser selecionados para tocar. Um deles foi o DJ Caio Prince. Foi o primeiro festival em que ele tocou. Com disciplina, empenho e talento, um ano depois já estava fazendo turnês na Europa. Tenho muita satisfação em ter contribuído um pouco para o desenvolvimento e o impulsionamento da carreira dele.
Também criei, antes do desenvolvimento dos softwares de full dome, uma série de atividades audiovisuais no Planetário do Ibirapuera, reunindo músicos, DJs e artistas visuais. Antes do surgimento dos softwares especializados em projeção full dome. Há quatro ou cinco anos, através também da agência de tendências Blend, da qual faço parte, faço um mapeamento das culturas periféricas. O jornalista Milton Santos já havia apontado isso há décadas ao falar que a revolução é periférica.
Por isso vejo direção artística e curadoria como um propósito social. A arte é uma ferramenta de desenvolvimento do artista, da comunidade que recebe aquela informação e do público que pode ter um insight ou uma reflexão. Isso precisa ser manejado com responsabilidade. Curadoria não é uma coisa de rede social. Não é copiar trechos do line-up de outro artista ou seguir o que outro curador está postando. É estar presente. Em tempos de guerra, existe uma expressão que resume bem isso: boots on the ground. Quer ter acesso àquilo? Saia do conforto do sofá. Deixe o iPhone de lado. Pegue o metrô, viaje duas horas e meia de trem, vá até a comunidade, aprenda a interagir, aprenda a ser respeitado e traga benefícios para também ser aceito.
Você também desconfia da velocidade com que São Paulo transforma qualquer descoberta em tendência. O que essa pressa produz na cultura?
A gente vive agora uma onda do Brasil core, em que expressões antes desvalorizadas internamente passaram a ser tratadas como nossa marca nacional. A cultura vai se moldando conforme movimentos socioeconômicos e culturais. No Brasil, especialmente em São Paulo, existe um vício na procura incessante por novidade. Essa procura chega a virar uma compulsão. Empreendedores, artistas e veiculadores acabam entrando no sistema da manada, do bloco. Todo mundo se move junto para uma tendência e, ao fazer isso, acelera o próprio tempo de vida dela. Veja os listening bars. De repente, de um ano para outro, aparecem 30. A saturação encurta uma sobrevida que poderia ser maior. Aconteceu com food trucks, com paleta mexicana. Agora acontece na Barra Funda. De repente, a Barra Funda é o lugar e estão abrindo dez bares por semana, todos iguais, uma cópia do outro. As pessoas acabam operando pela performatividade. Isso é muito triste.
Quando essa lógica chega à noite, o que você percebe nas pistas e nos eventos?
A gente vive um fenômeno das telas e das mídias sociais. Por isso, os encontros físicos entre as pessoas ganham importância. O problema é que os eventos acabam ficando iguais. Entre uma festa e um festival, se você chegar às duas da manhã, muitas vezes encontra exatamente o mesmo som: reto, plano, acelerado, com pouco espaço para melodia e harmonia.
O PRISMA nasce como uma resposta possível a esse cenário. O que você quer que aconteça quando pessoas de mundos diferentes ocuparem o mesmo sábado?
O Prisma valoriza a presença física através da live performance. Pode ser uma performance de spoken word, os meninos do Grajaú fazendo freestyle no metrô, um músico começando um projeto solo, poesia, dança, arte contemporânea ou os cantos de cura dos indígenas Huni Kuin do Alto Rio Jordão. Essa é a versatilidade do projeto. O Prisma se concentra em três temas: som, corpo e território. A proposta é reunir pessoas de diferentes origens, linguagens e repertórios para cocuradoria com Paula Garcia, Adriano Casanova e o deepbeep. O que precisa valer numa noite é o contato físico, presencial, entre as pessoas e com o diferente. É pelo contato com o diferente que aprendemos a ser mais tolerantes, abertos e plurais. Uma mensagem pode mudar a vida de uma pessoa.
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Serviço PRISMA
Jardim Suspenso do CCSP
Sábados, a partir de 5 de setembro, desde as 15h
Entrada gratuita
Centro Cultural São Paulo
R. Vergueiro 1000 (Metrô Vergueiro)
Música, performance e cinema com curadoria de Marcos Guzman e produção executiva de Tatiana Farias.
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