RDD, o difícil não é fazer um hit

RDD, o Rafa Dias, fala sobre identidade, hits e por que o desafio começa depois que a música estoura. Entrevista e playlist no deepbeep.

Entre Bahia, pista e pop global, RDD fala sobre identidade, repetição e o desafio de não transformar sucesso em fórmula.

RDD já fez música que poderia ser repetida infinitamente. E decidiu não repetir. Mais de 500 milhões de streams, charts globais e grandes colaborações colocaram seu trabalho num lugar em que transformar fórmula em método seria o caminho mais fácil. O mercado, inclusive, costuma premiar exatamente isso. Mas o som do RDD parece operar em outra lógica. Vai do samba de roda ao trap, do erudito ao funk, da Bahia à pista sem tratar referência como colagem aleatória. Existe uma tentativa constante de manter identidade mesmo quando tudo ao redor empurra para simplificação, repetição e velocidade. No centro disso está uma questão menos romântica do que parece. Fazer um hit não é necessariamente o mais difícil. O problema começa depois, quando o sucesso cria expectativa de continuidade automática e o artista precisa decidir se sustenta linguagem ou apenas repete resultado. Na conversa com o deepbeep, RDD fala sobre mercado, tempo, investimento e sobre por que identidade talvez seja o maior desafio da música hoje. A playlist “Volta Pro Set”, curada por ele, acompanha esse processo entre recalibragem criativa, pista e direção artística. Johann Sebastian Bach, Sepultura, samba de roda, trap e música eletrônica convivendo como parte do mesmo universo sonoro.

Lísias Paiva, sócio-editor

Rafa, você já esteve em músicas que explodiram muito. O que você aprendeu a não repetir, mesmo sabendo que funcionaria de novo?
Eu acho sempre massa me envolver nesses grandes projetos, discos e músicas. Não estar dentro de um padrão especificado é um grande desafio hoje em dia, porque dizem que nada se cria, tudo se copia. Acredito que ter um grande leque de referências ajuda a não se repetir. Escutar todo tipo de som — da música erudita e tradicional, como o nosso samba de roda, até o trap ou o funk de hoje — dá esse aval para não cair na repetição e, ao mesmo tempo, manter uma identidade. No mundo atual, ter identidade talvez seja o mais complicado. No fundo, essa busca por uma música marcante é um papo sobre ter o seu próprio universo e não se parecer com mais ninguém.

Existe um ponto em que o som começa a agradar a todo mundo e, ao mesmo tempo, perde alguma coisa. Você já sentiu isso acontecendo no estúdio?
Já senti, sim. Não posso negar. Mas não no sentido ruim, porque, quando você está fazendo arte, não há espaço para sentimentos ruins. Mesmo que você esteja triste ou lidando com uma dor, a arte liberta. No início, quando era mais jovem, via músicas de outros artistas acontecendo enquanto eu ainda buscava o meu espaço, e acabava mirando demais nos outros. Mas consegui fazer a leitura do meu próprio universo muito rápido. Ter estudado música me deu um arcabouço teórico e harmônico que me blindou nesse caminho. O que torna minha arte impactante é esse tempero que coloco no meu som: a Bahia. É a forma como consigo pegar essa raiz e aplicar no mundo de um jeito palpável, fazendo as pessoas dançarem, se divertirem, chorarem e sorrirem.

Seu trabalho circula entre Bahia, pista e pop global. Em que momento você percebe que está traduzindo demais e quando decide parar?
Fazer a música ter a minha identidade, soando pop e de raiz ao mesmo tempo — criar esse “caldeirão” do RDD — é um desafio real. Não é uma questão de querer parar, mas de respeitar o tempo da música. No meu disco atual, por exemplo, tenho faixas de 2017. Precisei respeitar o tempo delas para entender qual era o papel de cada uma e o que eu queria comunicar. Eu nunca parei. Às vezes, as músicas não saem por vários fatores. Tenho parcerias com grandes artistas que nunca foram lançadas, e acredito que isso tem mais a ver com o tempo da obra do que com qualquer outra coisa. É sobre a música acontecer na hora certa e com a pessoa certa.

Quando uma ideia soa certa rápido demais, isso te anima ou te dá desconfiança?
O tempo te dá a régua do saber e da experiência. Quando faço música, estou sempre em um estado elevado de consciência, dedicação e amor. Quando uma música soa certa para mim, ela nunca vai ser errada, porque reflete o meu estado naquele momento. Se eu estiver confuso, a música vai sair confusa, mas ainda assim será verdadeira. Fazer desde um hit até a música mais underground não envolve erro. A questão é se aquilo vai funcionar no mercado. As músicas comerciais entram em outra variável, que é o investimento. Hoje, não tenho mais aquela ansiedade do começo de querer fazer um hit a qualquer custo. O difícil não é fazer a música, é ter a pessoa certa e o investimento certo para ela acontecer.

Se você tivesse que apontar, o que no seu som ainda não está resolvido?
Hoje, sou uma pessoa muito bem resolvida, com o máximo de humildade possível. Trilhei muitos anos produzindo, me entendendo e estudando tudo o que faço. Tenho confiança no meu trabalho porque me dediquei muito. Passei por uma pesquisa que vai da música erudita e clássica, como Bach e Beethoven, até o death metal de bandas como o Sepultura. Estou sempre querendo evoluir, não paro nunca. Isso me dá a certeza de estar no lugar certo, fazendo a música que amo e sendo feliz com isso. Sou muito grato por tudo o que construí e pelas oportunidades que tive de estar aqui, neste momento.

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Agradecimentos à Larissa Martin da Omim Comunicação pela colaboração

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