Adrian Younge, não é nostalgia, é método

Adrian Younge em entrevista e playlist para o deepbeep

Fundador do Jazz Is Dead, Adrian Younge lança “Younge” e transforma memória musical em linguagem viva.

Adrian Younge não revisita o passado. Trabalha com ele. Fundador do Jazz Is Dead, projeto que recoloca nomes históricos em circulação sem transformar a música em peça de museu, ele construiu uma forma própria de lidar com tempo, som e referência. “Younge”, lançado em abril, parte desse mesmo princípio. Um álbum que escuta os anos 70 com ouvidos de agora. Arranjos construídos por espaço, contenção e textura. Composições que não se fecham seguem em movimento. Gravar em fita e escrever arranjos detalhados aqui não é gesto nostálgico. É método. Em um momento em que o passado virou superfície, ele trata como estrutura. O som não vem do excesso, mas do que fica. Do que respira. Isso muda a escuta. Na conversa com o deepbeep, Adrian Younge fala sobre composição, emoção e sobre por que repetir forma é simples, mas sustentar linguagem exige decisão. A playlist “Som como Arquitetura” curada por ele acompanha esse raciocínio.

Lísias Paiva, sócio-editor

Adrian, “Younge” parte de uma escuta muito consciente da história, mas não soa preso a ela. Em que momento olhar para trás começa a limitar o que você quer fazer agora?
Olhar para trás nunca limita o que fazemos, porque ajuda a entender o que é atemporal — já que você está olhando com um olhar moderno. Então, eu sempre olho para trás para seguir em frente.

Você grava em fita, trabalha com arranjos detalhados e, ainda assim, fala de música como algo vivo. O que você precisa preservar para que tudo isso não vire apenas reconstrução do passado?
Eu gravo em fita por causa do som e tenho esses arranjos detalhados porque, para mim, isso é algo clássico. A maioria das pessoas não faz mais isso, mas é o que eu amo na música. Então, eu sempre farei assim. Eu amo discos antigos, e as pessoas não prestam mais tanta atenção aos detalhes na música hoje em dia. Então, se isso é ser antigo, tudo bem, eu sigo assim.

Esse é um disco instrumental, mas ele não soa vazio nem técnico. O que te interessa em retirar a palavra e ainda assim manter narrativa?
Sim, este é um álbum instrumental e eu sei que não soa vazio porque escrevi as linhas principais com instrumentos. A questão é que você não precisa de palavras para transmitir emoção. É muito fácil fazer alguém sentir algo com acordes e melodias. E é isso que eu tento fazer.

Grande parte da sua música parece construída mais pelo espaço e pelo silêncio do que pelo excesso. Em que momento você percebe que uma composição já tem ar suficiente?
Eu amo o espaço na minha música. Sei que está pronto quando simplesmente parece completo. É difícil de explicar, mas, quando você faz isso há tanto tempo, você simplesmente sabe.

Hoje, muita música usa o passado como estética. O que separa, para você, uma referência viva de uma repetição confortável?
Eu não fico repetindo nada. A única coisa que pode se repetir na minha música é um sentimento. E só existem alguns: escuridão, leveza, romance, luta, tensão. Então, eu busco formas diferentes de chegar a esses sentimentos.

Quando você não está compondo, o que ainda te faz parar e escutar com atenção total?
Música boa, no fim é isso. Eu não ouço muita música moderna. Discos antigos que eu ainda não ouvi são música nova para mim. Eu gosto muito de ouvir coisas do final dos anos 60 e início dos anos 70, e é isso que me inspira.

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Jazz is Dead por Adrian Younge

Agradecimentos ao Valtinho Fragoso da ForMusic

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