
Bebé mostra que a experiência muda a forma de aprender, criar e descobrir uma voz própria.
Existe uma geração de artistas que cresceu cercada por um repertório praticamente infinito. Discos, vídeos, referências e técnicas passaram a estar disponíveis desde o começo da formação. A consequência foi inesperada. Quanto mais modelos existem, mais difícil se torna descobrir o próprio caminho.
Bebé conhece essa experiência por dentro. Cresceu entre músicos, ensaios e conversas sobre criação, mas percebeu cedo que identidade artística não nasce da tentativa de corresponder a um padrão de excelência. Ela aparece quando a experiência começa a responder perguntas que a técnica nunca conseguiu resolver sozinha.
Suas respostas desmontam uma lógica repetida durante décadas na formação de artistas. Em vez de dominar para depois experimentar, ela defende o percurso inverso. A prática revela o que realmente importa aprender, a dúvida acompanha todo o processo e a voz própria deixa de ser um destino para se tornar uma construção permanente.
A playlist “As Músicas que Ficaram” acompanha esse percurso com canções que sobreviveram a diferentes fases da vida, atravessaram mudanças e continuaram revelando novos significados conforme ela também mudou.
Marcelo Nassif, sócio editor
Bebé, você cresceu cercada por músicos, discos, ensaios e referências muito fortes. Qual foi a primeira coisa que você precisou desaprender para conseguir criar do seu próprio jeito?
A ideia de que criar bem é criar certo. Quando você cresce em um ambiente onde existe muita competência técnica, a excelência vira um padrão silencioso. É muito fácil confundir excelência com verdade. Precisei entender que a minha voz não apareceria quando eu chegasse a um determinado nível de domínio. Ela apareceria quando eu parasse de me perguntar se estava fazendo direito. Tem uma coisa estranha em crescer perto de gente que você admira: você aprende os movimentos antes de entender os motivos. Eu sabia como soar de um jeito, mas não sabia por que queria soar assim. Desaprender foi descobrir os meus próprios motivos para fazer música.
Existe alguma música que você amava na adolescência e que hoje escuta de forma completamente diferente? O que mudou: a música ou você?
Minha adolescência foi há pouco tempo, então ainda não existe esse grande distanciamento. Mas as músicas de amor que carregam a ideia de que a vida só faz sentido ao lado de outra pessoa hoje me atravessam de outro jeito. Continuo achando bonitas. Gosto da composição, da entrega. Só que a gente está reaprendendo que a vida não depende de ninguém para ser vivida. Quando uma música reforça essa dependência como se fosse amor, eu escuto de outro lugar. Sem julgamento. Com distância. Quem mudou fui eu. E a música teve um papel importante nessa mudança.
Muita gente fala sobre encontrar uma voz própria. O que quase ninguém conta sobre esse processo?
Quase ninguém conta que a dúvida continua. A voz muda conforme a gente muda. Isso vale para a vida e para o canto. A voz é um instrumento vivo. Existem dias em que ela simplesmente não responde como você gostaria. Faz parte. Você vai retirando camadas, entendendo quais influências realmente são suas e quais vieram de outras pessoas. O reconhecimento da própria voz acontece olhando para trás. Não existe linha de chegada. Existe caminho.
Qual tipo de conselho artístico costuma parecer sábio no começo, mas fica limitador depois de algum tempo?
“Domine o básico antes de experimentar.” Para mim, isso é uma armadilha. Nunca dominei o básico antes de fazer alguma coisa. Sempre experimentei primeiro. Luiz Gonzaga usava muito mais a intuição do que a teoria. O básico é o ouvido. É a percepção. A técnica e a teoria fazem sentido quando encontram a prática. Tem coisas sobre música, carreira e mercado que só podem ser entendidas vivendo. A teoria explica depois. A experiência abre a porta.
Você convive desde cedo com pessoas que dedicaram a vida à música. O que a rotina da criação tem de menos romântico do que as pessoas imaginam?
A inspiração não aparece todos os dias. Na maior parte do tempo existem bloqueios, rotina e trabalho. Criar música também significa aprender sobre direito autoral, contratos, estratégia, política e negócios. A ideia de que o artista vive apenas de inspiração nunca correspondeu à realidade. Quem escolhe viver de música precisa sustentar a criação e a carreira ao mesmo tempo. O mercado não espera você estar pronto. Você continua criando mesmo quando a vontade desaparece. Quem permanece aprende a atravessar essa pressão sem deixar que ela determine a própria criação.
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Fotos por Mariana Maria
Agradecimentos à Yasmin Bianco da Assessoria Bianco
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