MC Taya não pede licença para misturar

MC Taya em entrevista ao deepbeep sobre a mistura entre funk, rock, metal e rap, a cena musical da Baixada Fluminense e as fronteiras entre gêneros.

MC Taya fala sobre quem decidiu que funk e rock deveriam ficar separados e sobre o que acontece quando a pista resolve ignorar a regra.

Quem decidiu que um baile e um show de metal precisavam ser coisas diferentes? MC Taya não encontra muita utilidade nessa separação. Ela cresceu entre o rock, o hardcore e o funk e transformou esse trânsito no FOCK, mistura que reúne funk, rock e rap. No Rock in Rio, onde se apresenta em setembro, a experiência ganha um palco grande. A conversa com o deepbeep mostra o que existe por trás dessa mistura.

Para Taya, a ideia de que certos sons deveriam permanecer puros tem uma origem bem menos inocente do que parece. Na pista, ela encontra mais semelhanças do que diferenças entre um mosh pit e um baile. E lembra que Sepultura e Carlinhos Brown já fizeram essa conversa há 30 anos.

O funk e o rock ainda incomodam quem precisa manter cada gênero no seu lugar. Para quem está ouvindo, a conta parece bem mais simples. Quando olha para a Baixada, Taya vê outra movimentação. Bandas e produtoras independentes lideradas por mulheres estão ocupando o rock e o punk e enfrentando o machismo que ainda atravessa essas cenas. Na playlist “A Pista Não Liga”, ela reúne 27 faixas que passam por funk, metal, punk, rap e rock sem se preocupar muito com a etiqueta.

Lísias Paiva, criador e editor

Quem inventou que algumas músicas não podiam conversar?
Que pergunta incrível, porque eu realmente não sei responder e sequer me perguntei alguma vez na vida quem foi o maldito que inventou isso, rs. Porém, acho que vem da ideia eugenista de pureza. Sinto que parte daí.

O que um baile e um show de metal entendem um sobre o outro que o mercado ainda não percebeu?
Acho que ambos são vistos com certa marginalização social, né? Com certo desdém social. Eu vejo que muita coisa converge, do mosh pit ao baile de corredor, dos synths pesados de bruxaria aos synths de industrial.

Você circula por cenas muito diferentes. Em que momento pessoas completamente distintas começam a se reconhecer na mesma música?
Eu acho que isso não é tão novo assim. Já tivemos Sepultura e Carlinhos Brown na mesma faixa há 30 anos. Vejo que só estou atualizando algo que a música brasileira sempre fez muito bem: misturas sonoras.

Qual combinação continua assustando mais quem trabalha com música do que quem escuta música?
Falando do que eu faço, existe um tabu sobre o eterno duelo entre o funk x rock, e, a partir do momento que eu sugiro uma junção dessas duas coisas, eu boto o dedo na ferida de alguns puristas da indústria. Mas vejo que, ao mesmo tempo, venho impactando muita gente que trabalha com música e na indústria musical.

A Baixada costuma antecipar movimentos culturais antes de eles ganharem nome. O que ela está dizendo agora que pouca gente ainda percebe?
Eu acho que a Baixada sempre foi essa efervescência cultural muito forte, com artistas incríveis saindo de todos os lugares, eventos e movimentos acontecendo. Acho que, ultimamente, tem surgido uma cena de bandas e produtoras de eventos independentes feitas ou com o front de mulheres dentro da cena de rock e punk que é coisa linda! As meninas estão desafiando toda misoginia e ignorância sobre o tema do território, levando o cenário de rock no peito!

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MC Taya reuniu faixas para uma pista que não quer saber onde termina o funk e começa o rock. Tem metal, punk, rap, trap, funk e outras coisas que resolveram não escolher um único lugar. Da própria Taya a Iggor Cavalera, Jup do Bairro, Black Pantera, FBC, Chainsaw Kid e uma porção de nomes que vivem justamente nesse cruzamento. A pista não liga para a etiqueta. Ainda bem.


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