
Caetana fala sobre o que acontece quando a experiência vem antes do rótulo.
Caetana responde como quem não tem muita paciência para respostas prontas. Fala de luta, preguiça, amor próprio, desejo, fé, preconceito e da liberdade de não transformar sua experiência em um modelo para outras pessoas.
A relação com o corpo e com a pista vem da rua. Do fluxo, do movimento, da ocupação. A música e a dança vieram junto e fizeram Caetana atravessar diferentes culturas até chegar à cultura clubber, que ela própria diz conhecer pouco, mas reconhecer como um espaço importante.
Recife está no centro dessa história. Caetana fala da cidade como uma espécie de livro aberto, marcado por frevos, maracatus, ruas e uma história que atravessa séculos. É dali que ela diz retirar energia para criar e continuar viva. O candomblé também faz parte dessa formação. Os terreiros, os saberes dos mais velhos, os Orixás e o cuidado com o próprio Ori aparecem quando ela fala sobre arte e sobre aprender a ser uma pessoa melhor.
“Bicha Treme Terra” nasce nesse território. A playlist que acompanha a entrevista traz músicas da própria Caetana ao lado de Deize Tigrona, DJ Dolores, Nação Zumbi, Otto, Isaar, Devotos e Di Melo. São escolhas que ajudam a ouvir de onde ela fala, sem transformar sua música em uma legenda da própria biografia.
Na conversa com o deepbeep, ela fala sobre ocupar a pista sem transformar resistência em obrigação, sobre a industrialização da imagem trans e travesti, sobre criação e sobre o que aprendeu com Exu. Uma frase resume parte desse aprendizado. A paciência é maior do que a força.
Marcelo Nassif, sócio editor
Caetana, em que momento você percebeu que ocupar o corpo e a pista também podia ser uma forma de resistência?
Muito interessante essa pergunta. Eu me pego num momento de esfriamento da minha inesgotável energia de luta. Porque são tantas camadas para perfurar. Mas me sinto dando um respiro agora que tenho sido finalmente reconhecida. Não é como se eu estivesse fazendo corpo mole. É mais um, deixa eu aproveitar esses acessos aqui também. Se estou entregando, que mal tem uma preguiça ali e outra aqui. Brinco que, já que não nasci com ganhos vitalícios para um ano sabático, é o que me resta.
Mas, indo a fundo nesta pergunta, eu construí muitos momentos que fazem ir à pista algo necessário. Toda minha formação vem de uma luta diretamente ligada à rua, no sentido de fluxo, movimento, de ocupá-la. Atrelado a isso, vem a minha paixão pela música e pela dança, que me fizeram navegar por diferentes culturas, manifestações e a cultura clubber, de quem sei pouca coisa, mas o suficiente para entender a importância e o significado da pista de dança.
Seu trabalho mistura ritmos populares brasileiros com sons urbanos sem parecer exercício de referência. O que faz uma mistura realmente ganhar vida para você?
Fiquei lisonjeada com esta pergunta. Se for realmente o que entendi. Já que tenho entendimentos meio dúbios das coisas. Mas vou responder considerando a minha primeira interpretação: para mim, para uma música soar como se tivesse nascido sem referências, é primeiro nascer no Recife. Risos.
Brincadeiras à parte, ter nascido pernambucana essencialmente me trouxe uma outra realidade enérgica. Primeiro que é uma das primeiras cidades do Brasil. Por essa energia velha, paisagem de tantas épocas, com 489 anos, que já posso considerar que tiro daí energia para tudo acontecer. Não é à toa que só o frevo tenha 114 anos. Maracatus com 300 anos.
Então, como tudo que, para ser, precisa de história para contar, eu tenho uma cidade que é um livro aberto, como instrumento de vida. Mas também delegou ao amor que sinto por estar viva. E ao amor que me faz lutar para continuar viva.
Eu sou um espírito velho, já faz tempo que me dei conta disso. Não sei explicar, mas sinto que já estive aqui antes. No mundo, sei lá, eu sinto. Parece um pensamento sobre magia, mas talvez seja. Sou candomblecista, então, para mim, não é estranho falar disso. É supernormal. Eu sou candomblecista porque nasci candomblecista dentro da barriga da minha mãe. O que me faz uma abiaxé. Seria do candomblé mesmo se não tivesse herdado esse elo. Meu amor e devoção que levam a produzir arte com deidade, tem por sabedoria o aprendizado que retiro dos terreiros e saberes dos mais velhos. Como disse, sou um espírito velho: olho, absorvo, aceito e aprendo. Agradeço à natureza e a todas as forças que me acompanham com essa questão, todo santo dia.
“Bicha Treme Terra” carrega força, deboche e movimento ao mesmo tempo. O que essa música precisava dizer sem perder prazer e leveza?
Preciso dizer que eu amo entrevistas com perguntas inteligentes e afeto. Estou me sentindo privilegiada. Pois bem. Que nenhuma métrica no mundo vencerá o amor-próprio.
Podem imaginar o que quiserem sobre uma pessoa amada, que absolutamente tudo que gira ao seu redor, ao invés de atrapalhar, potencializa ainda mais o que a protege. É meio que um processo de combustão em que lixo é transformado em energia limpa. Risos. Particularmente, como uma boa leonina do mês dos Exus e Pombagiras, dia 13 de agosto, sempre desperto um certo susto nas pessoas preconceituosas, tudo sem dar um pio, ou seja, uma única palavra sonora. Tem palavra que é só a sua imagem, sua presença no local. Percebo que assusto esse tipo de pessoas. Pessoas leves, divas, amorosas, decididas e livres, ao contrário, sorriem para mim.
Hoje muita coisa ligada à liberdade e identidade vira estética muito rápido na internet. O que você percebe que ainda não pode ser reduzido à tendência?
Você tem muita profundidade em suas perguntas. Confesso que essa me assustou, pela complexidade. Afinal, este é um assunto que me choca muitas vezes. Porque, tratando-se de temas como imagem, para mim, que sou uma travesti (leia-se trans), isso é muito relativo. Eu, por exemplo, não me vejo criando um gueto de pessoas que pensem igual a mim. Que, no mínimo, tenham decência de absorver minhas falas e sistemas educativos como forma de tornar leve e livre o processo individual.
É o que espero conseguir comunicar. Mas falar de tendência sem falar de tendencioso nos leva para um limbo de preconceitos ainda mais pasteurizados. Ainda mais quando discursos como proibição da imagem para quem se diz travesti ou trans, sobre possibilidade, por exemplo, ou desmobilização da imagem de uma pessoa trans feminina. Como se todas as violências já sofridas por outras fossem métrica de validação para o uso desta identidade.
Eu penso que a violência gerada pela cisgeneridade já reduz demais a liberdade da experimentação da própria sexualidade ou individualidade de gênero. Nós não temos que ser policial do cristianismo ou do machismo. Não acredito na violência como sonho da solução. A violência é necessária apenas nos últimos segundos de uma situação, quando tudo já foi experiência. Contudo, não discordo que deva haver contribuições aos movimentos a que se queira experimentar, participar, assumir. Não dá para se dizer travesti (leia-se trans) e simplesmente não se doar para fortalecer o movimento. Não tem tutorial de como ser uma, o que tem são inúmeras experiências. Mas, sobretudo, o legado de comunidade e comunhão para enaltecimento da classe. Então, é assegurar que quem está se aproximando pode contribuir positivamente. Não é como se fosse um sindicato. Mas nós, as que estão buscando tomar voz disso, façamos o papel da fala pública. Só não concordo com a industrialização da imagem trans e travesti como se fosse única. Para mim é isso.
Quando você está criando, o que normalmente vem primeiro: uma imagem, um ritmo ou uma sensação física?
Já aceitei que vou, a cada resposta, ter que lhe elogiar de volta. Inteligente e provocante em sentido amistoso, essa pergunta.
Veja, não conseguiria decidir qual dessas manifestações me soa mais interessante. Porque naturalmente me proporcionou experiências que perpassam por muitos lugares. Seja a leitura, a dança, a gastronomia, os prazeres sexuais, a fé. Então posso dizer que não me atribuiria uma delas, já que, para mim, viver é um exercício. Criar é apenas o resultado. Confesso que sou muito bonita por dentro e por fora. Minha cabeça é muito poderosa. O tanto de bondade e malícia que tem aqui dentro não se confundem com maldade. Acredito até que haja mais bondade que malícia. Esse pensamento se parece muito com o dizer: aprenda a domar seus monstros. Para mim é isso, aprender com os Orixás como ser uma pessoa melhor a cada dia. Para mim foi fácil porque sempre enxerguei o mundo por um prisma de bondade. Meu Ori é bom. E eu só aprendo a mantê-lo assim.
E isso não quer dizer que eu não tenha maldade, eu tenho. Só não a carrego como prioridade. Então, enquanto não precisar parar de domar, sigo rude com parcimônia, autoritária apenas como autoridade quando necessário, jamais abusiva. Sobre isso, tenho notado bons resultados dos mantras que aprendi com Exu, que diz: “A paciência é maior do que a força”. Isso me mudou bastante. Violenta, no sentido de agressiva, é talvez a parte que eu tenha menos usado ultimamente. Mas já fui muito, como defesa também, afinal, já sofri muito. Mas a terapia me ajudou a me enxergar. Tomar ayahuasca com pessoas altamente qualificadas também ajudou bastante. Foi só uma sessão. Como uma boa leonina madura que sou, foi o suficiente para aceitar e melhorar. E o restante desse processo todinho é andar ligada a Exu. Não sou santa, afinal, não lido com o cristianismo, mas também não sou nenhum demônio. Deu para entender, né?
Muito obrigada pelas perguntas. Me diverti respondendo.
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Uma seleção de Caetana para ouvir o que movimenta Bicha Treme Terra. Tem música própria, gente próxima, referências pernambucanas e sons que fazem parte da escuta que ela construiu entre rua, pista, corpo e fé.
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