Zaina Woz cria a si mesma enquanto cria música

Zaina Woz cria playlist para o deepbeep

Entre alter ego, produção e imagem, Zaina Woz constrói identidade enquanto cria e lida com o risco de se perder no processo.

Zaina Woz nasce de um gesto consciente. A escolha de um nome que não carrega herança, mas possibilidade. Uma forma de acessar uma versão que antes não tinha espaço para existir. O alter ego entra como ferramenta de construção. Permite explorar desejo, sustentar uma imagem e trabalhar a ficção que o pop exige, sem precisar responder diretamente à história que veio antes. Não apaga o passado, mas desloca o ponto de partida. Esse movimento atravessa tudo. A música não vem sozinha. Produção, imagem e figurino aparecem ao mesmo tempo, contaminando o processo. Isso amplia o repertório, traz mais identidade, mas também torna o caminho menos previsível. Quanto mais elementos entram, mais difícil fica manter direção. Existe sempre o risco de se perder dentro da própria criação. A pista aparece como critério. Não no sentido de validação, mas de experiência. O momento em que a faixa deixa de ser um exercício técnico e passa a funcionar de outro jeito. Quando ela mesma consegue escutar sem pensar no que precisa ajustar. Na conversa com o deepbeep, Zaina fala sobre esse processo sem tentar organizar demais. O que a produção resolve antes da palavra, como sustentar uma estética sem virar repetição e o que precisou abandonar para conseguir afirmar liberdade na prática. A playlist “O Som da Autocriação” acompanha esse percurso. Um recorte das músicas que ajudam a estruturar pensamento, ritmo e identidade ao mesmo tempo. O som que ela escuta quando precisa construir outra versão de si.

Lísias Paiva, sócio-fundador

Zaina nasce como um alter ego. O que essa versão sua pode dizer ou fazer que a Natalia não podia?
Meu alter ego me ajudou a construir a mulher que eu tinha desejo de ser e expressar através da música. Meu nome de nascença me remetia à história que eu tinha com minha família, pois herdei o nome da minha avó paterna. Escolher um nome para esse projeto me deu a possibilidade mental de mergulhar não só no meu desejo de mulher, mas também na ficção que o pop precisa para existir.

Você constrói som, imagem e produção ao mesmo tempo. Em que momento isso vira liberdade e em que momento começa a te engolir?
O lado mais difícil de lidar com várias linguagens ao mesmo tempo é que o processo criativo se torna mais bagunçado e menos previsível do que se eu só escrevesse canções com violão. Mas isso também me traz mais ingredientes e cores e faz com que meu trabalho tenha mais identidade, porque a mistura é mais autoral. A multiplicidade abre muitas possibilidades, mas se você não sabe para onde vai, pode te engolir. Você se perde de si mesma.

Sua música tem desejo de pista, de corpo em movimento. O que você precisa sentir para saber que uma faixa funciona fora da tela?
Preciso ouvir a faixa no volume máximo, seja no home studio, no fone ou no carro. Ela precisa me capturar a ponto de eu entrar completamente dentro dela e esquecer que fui eu quem fiz. É diferente ouvir buscando melhorias e ouvir curtindo. Quando estou curtindo, sei que está no caminho certo.

Você trata a produção como linguagem. O que você resolve no beat que não conseguiria resolver na letra?
Muitas coisas. O sentimento que uma linha de baixo bem feita dá, por exemplo, nenhuma letra consegue entregar. A produção me dá pistas do motivo da música. Se escrevo sem nada em mente, me perco. Preciso de melodia, harmonia ou ritmo para entender o caminho. Para mim, tudo funciona como uma receita em que os elementos se ajudam.

Existe uma estética muito consciente no seu trabalho. O que você faz para isso não virar repetição?
Tenho um estilo consistente e sei do que gosto, mas sou apaixonada por moda. Tenho formação na área e venho de uma família de costureiras. Estou sempre acompanhando moda, cinema, artes e música. Naturalmente vou me reinventando. Se paro de me atualizar e fico centrada só em mim, viro um clone. E isso seria péssimo.

Você fala de liberdade e prazer, mas isso exige confronto. O que precisou abandonar para sustentar isso na prática?
Precisei abandonar o medo e a vergonha de questionar e construir minha própria opinião. E também de falar ou cantar o que penso. Foi um processo difícil e ainda é. É preciso estar atenta às histórias que você carrega, porque muitas vezes são elas que limitam.

Acompanhe o trabalho de Zaina Woz
Zaina Woz no Instagram
Zaina Woz no Spotify
Ouça o álbum Zaina Woz {vol.1}
Zaina Woz no YouTube
Zaina Woz no TikTok

Fotos por Helena Ramos e Kim Costa

.


.

No deepbeep, a conversa começa com música.
Toda semana, novas histórias em forma de som. Assine a newsletter no rodapé.

Quer levar essa curadoria para a sua marca?
Fale com a gente: falecom@deepbeep.com.br

Ouça também