Melly e o tempo das canções

Retrato da cantora Melly para entrevista do deepbeep sobre música, atmosfera e a playlist Músicas Que Não Têm Pressa.

Cantora, compositora e uma das vozes mais inventivas da nova música brasileira, Melly fala sobre atmosfera, permanência e o tempo que uma canção precisa para continuar crescendo.

Em poucos anos, Melly deixou de ser uma promessa para ocupar um lugar central na nova música brasileira. Depois de um álbum indicado ao Grammy Latino e de colaborações com artistas como Liniker, Anitta, Luedji Luna e Léo Santana, a cantora baiana vive uma nova etapa da carreira. O lançamento do álbum “Mais Forte Que a Dúvida” chega acompanhado da confirmação em dois dos principais festivais do circuito internacional, o Rock in Rio Brasil, onde sobe ao Palco Supernova em 7 de setembro, e o Primavera Sound São Paulo, em dezembro.

Mas a entrevista ao deepbeep passa longe de uma conversa sobre carreira. Melly fala sobre o tempo. O tempo que uma música precisa para revelar novas camadas. O instante em que uma canção transforma uma lembrança comum em memória. A experiência de atravessar a cidade com a música certa e a sensação de que algumas obras continuam dizendo coisas diferentes cada vez que voltamos a elas.

A playlist “Músicas Que Não Têm Pressa” acompanha essa ideia. Uma seleção de canções que continuam crescendo depois de muitas escutas, permanece no corpo e lembra que algumas experiências ficam mais interessantes quando não acontecem imediatamente.

Lísias Paiva, criador e editor

Melly, existe alguma emoção que você acha que a música entende melhor do que as palavras?
A música, para mim, é o meio mais fidedigno de traduzir qualquer emoção. Às vezes, o canto de um pássaro ou o som das ondas quebrando no mar já são suficientes para provocar em nós um novo estado de espírito, sem que nenhuma palavra seja necessária. Acho que a música consegue acessar lugares que a linguagem nem sempre alcança. Talvez seja a única coisa verdadeiramente perfeita que nós conseguimos reproduzir.

Qual situação da vida parece ganhar outra dimensão quando acontece com a música certa tocando ao fundo?
O tempo ganha outra dimensão quando existe a música que acompanha o momento. Ela amplia a experiência e faz com que a gente se sinta mais presente, um pouco mais atento ao que já estava diante de nós. Transforma a maneira como percebemos a realidade, os nossos sentimentos e, às vezes, o simples ato de atravessar a cidade dirigindo e ouvindo música é capaz de apaziguar todos os pensamentos. Isso já é suficiente para fazer um instante comum permanecer na memória.

Você constrói músicas muito ligadas à atmosfera. O que faz você permanecer numa canção mesmo depois que a surpresa inicial passa?
O que me faz permanecer numa canção é a sensação de que ela ainda tem alguma coisa para revelar. Para mim, uma canção permanece quando continua transformando a maneira como percebemos o que sentimos, mesmo depois de anos, como se encontrasse novas formas de conversar com cada versão de nós mesmos.

Hoje muita música parece feita para funcionar rápido e desaparecer rápido. O que você sente que ainda merece tempo para crescer nas pessoas?
Acho que o que ainda merece espaço para crescer nas pessoas é a verdade de quem cria. Uma música não precisa necessariamente de muito tempo para tocar alguém, mas precisa ter sentimento, personalidade e uma sensibilidade que sejam realmente próprias, capazes de acertar alguém diretamente no âmago. É isso que faz uma canção encantar, provocar ou criar raízes internas, quando ela não parece apenas feita para funcionar, mas para dizer alguma coisa carregada de sinceridade.

Qual sensação você acha que as pessoas estão procurando quando colocam um fone de ouvido?
Acho que as pessoas procuram um espaço íntimo, onde possam se afastar por alguns instantes do ruído de fora e se aproximar do que estão sentindo. Colocar um fone de ouvido pode ser uma forma de encontrar acolhimento, presença ou até uma nova maneira de perceber a realidade — ou de fugir dela. Por vezes, a gente só quer que uma música organize aquilo que ainda não conseguimos nomear.

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Agradecimentos à Jaqueline Esteves da Lupa Comunicação

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