
Entre arquivos, personagens e histórias reais, Felipe Novaes fala sobre dúvida, contradição e sobre o que continua vivo depois que uma narrativa parece encerrada.
Felipe Novaes trabalha com um tipo específico de personagem. Pessoas que chegam carregadas de imagem pública, memória coletiva e versões aparentemente consolidadas. Figuras que já foram explicadas muitas vezes e que, justamente por isso, correm o risco de parecer conhecidas demais.
O que move seu trabalho segue na direção oposta. Em vez de confirmar narrativas, Felipe procura os espaços onde elas começam a falhar. As ausências. As contradições. Aquilo que não cabe completamente na biografia oficial. Ao falar de documentário, ele descreve o arquivo como uma espécie de arqueologia. Imagens isoladas nem sempre dizem muita coisa. O sentido surge aos poucos, quando diferentes fragmentos começam a se aproximar e revelar novas interpretações. O mesmo vale para as pessoas. Talvez por isso a dúvida ocupe um lugar tão importante na conversa. Depois de anos convivendo com histórias intensas, Felipe passou a confiar menos nas certezas rápidas e mais nas perguntas que permanecem abertas.
A playlist “O Que Sobra da História” acompanha essa investigação. Reunida pelo próprio Felipe, ela atravessa Stevie Wonder, Gilberto Gil, Liniker, Elis Regina, Rita Lee, Marília Mendonça e Luiz Melodia. Músicas que ajudam a enxergar alguém para além da versão oficial. Na conversa com o deepbeep, Felipe fala sobre memória, documentário, música e humanidade. Mas a entrevista talvez gire em torno de uma questão mais simples. O que sobra quando a explicação termina?
Lísias Paiva, criador e editor
Você trabalha muito com personagens que já chegam carregados de imagem pública, mito e ruído. O que te interessa justamente nessas figuras que parecem já ter sido explicadas demais?
Me interessa, sobretudo, investigar o que há de mais humano e verdadeiro por debaixo dos mitos. Buscar o que aproxima esses personagens de mim mesmo, o que os aproxima das angústias e alegrias que todos nós, “meros mortais”, compartilhamos.
Nos seus trabalhos, a música nunca entra só como trilha ou nostalgia. O que uma música revela sobre alguém antes mesmo da imagem conseguir explicar?
De cara, eu diria que isso acontece porque estou sempre ouvindo música enquanto crio meus projetos. São espécies de trilhas sonoras do meu próprio processo, faixas que nem sempre entram na montagem e que, às vezes, nem têm a ver diretamente com o tema que estou pesquisando. Isso já contribui naturalmente. Aí, claro, no caso dos personagens musicais que perfilei, suas obras são indissociáveis de quem eles são ou foram, o que transforma a música numa camada dos personagens e das histórias. Agora, num contexto mais amplo, as letras, os sons, a própria escolha da trilha, tudo isso, de forma sensorial e subjetiva, ajuda o público a traduzir as imagens e elaborar o que buscamos propor com elas.
Existe uma diferença entre revisitar uma memória e transformá-la em produto. Em que momento você percebe que uma história perdeu verdade no processo?
Eu trabalho com equipes muito sólidas, que sempre entenderam a dimensão e a responsabilidade que é contar a vida de outras pessoas. Para não correr o risco de perder a mão, é preciso, em primeiro lugar, saber que uma obra audiovisual nunca é um registro definitivo da vida de ninguém. É um recorte, um olhar, uma interpretação. E isso já é bastante coisa. Já discutir a “verdade” no documentário é um papo longo e sinuoso…
Grande parte do seu trabalho parece construída em cima de arquivo, ausência e reconstrução. O que você procura numa imagem para saber que ela ainda está viva?
Trabalhar com arquivo é uma espécie de arqueologia. Nem sempre as imagens, separadas, querem dizer alguma coisa. O legal é que, ao longo do processo, confiando nos apontamentos e nas pistas que vão se mostrando e sobrepondo todas essas descobertas, você vai conseguindo atribuir sentidos e interpretações para aquelas imagens. Mas você cita um ponto importante. Saber interpretar as ausências, os registros que não existem — e, portanto, tentar reconstruí-los — é o que faz uma história se aproximar mais daquilo que é vivo.
Você costuma filmar personagens muito intensos, contraditórios e difíceis de organizar. O que te faz confiar mais na contradição do que numa narrativa limpa?
Sem contradição ou conflito não existe história. Não existe mundo. Cada um de nós é um poço de contradições e intensidades difíceis de organizar. Um personagem que não tenha isso é qualquer coisa, menos um personagem. Tem uma frase do ensaísta francês Philippe Lejeune que eu amo, na qual ele diz: “Todos os homens que andam na rua são homens-narrativas. É por isso que eles conseguem parar em pé.”
Depois de conviver tão de perto com histórias intensas, excessivas e interrompidas, o que você percebe que começou a proteger mais em você mesmo?
Essas histórias fizeram com que eu me protegesse de muitas das minhas pequenas certezas. Fui me familiarizando mais com as dúvidas e com as desconfianças, que são, paradoxalmente, mais confiáveis. O que me coloca numa situação curiosa. Ao mesmo tempo que essas histórias me ensinaram, elas também me mostraram que eu sei de pouca coisa. Por isso sigo buscando-as.
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Fotos por Amanda Lavorato e Fabio Audi
Agradecimentos à Heloísa Nogueira da FT Estratégias
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