
Isadora Cruz fala sobre as marcas que uma personagem pode deixar muito depois que a cena termina.
Antes de uma personagem existir na tela, existe um mundo que precisa ser sentido. O chão onde ela pisa, a luz de um lugar, os sons ao redor, uma memória que aparece sem ser chamada. Para Isadora Cruz, atuar passa por esse tipo de atenção. Quando viveu Rosa em Guerreiros do Sol, Isadora encontrou no sertão nordestino uma paisagem próxima de suas próprias origens. Pisou naquele chão, sentiu o sol, mergulhou nas águas e se conectou com uma realidade que atravessou o trabalho de forma profunda. Ela diz ter saído dali mais forte, mais consciente, mais verdadeira e com ainda mais orgulho da própria história.
A experiência ajuda a entender uma questão que aparece em toda a conversa com o deepbeep. Uma personagem não fica restrita ao que acontece diante da câmera. Ela pode deixar marcas, alterar percepções e até devolver à atriz alguma coisa que já estava nela. A música entra nessa relação de outro jeito. Pode levar uma emoção para o desejo, para a imaginação, para lugares que as palavras não alcançam. Pode também fazer alguém prestar atenção em algo que passaria despercebido.
Na playlist “Músicas que Ficam no Ar”, Isadora reuniu 30 faixas que conversam com esse modo de perceber. Cátia de França, Gal Costa, Lô Borges, Tim Maia, Alice Coltrane, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Nina Simone e Pink Floyd aparecem em uma seleção que passa por paisagem, memória, deslocamento e atmosfera. Na conversa, ela fala sobre personagens que deixam marcas, a Paraíba, que continua presente mesmo longe de casa, e o tipo de silêncio que pode ser reconhecido em qualquer lugar.
Marcelo Nassif, sócio-editor
Isadora, existe alguma emoção que perde força quando tentamos explicar e ganha força quando tentamos cantar?
As emoções podem ser vividas e expressas de muitas maneiras diferentes. Quando as explicamos por meio das palavras, elas ganham contornos mais concretos, mais próximos do nosso cotidiano e da nossa experiência. Não acredito que percam força por isso. Pelo contrário, tornam-se mais palpáveis e compreensíveis.
Já quando cantamos as emoções, elas parecem ocupar outro lugar. A música tem a capacidade de levá-las para um campo mais sensível, ligado ao desejo, ao sonho e à imaginação. Muitas vezes, aquilo que é cantado ganha um caráter quase encantado, como algo que nos inspira e nos conduz para além da realidade imediata.
São linguagens diferentes, mas igualmente potentes. Cada uma à sua maneira nos conecta a sentimentos profundos e nos permite acessar partes de nós mesmos que, por vezes, seriam difíceis de alcançar. No fim, palavras e música se complementam, ampliando a forma como sentimos, compreendemos e compartilhamos as nossas emoções.
Você já viveu personagens, cidades e paisagens muito diferentes. Que lugar te ensinou alguma coisa sobre as pessoas que você não aprendeu com nenhum personagem?
A gente sempre aprende muito com os personagens. Na verdade, a interpretação é uma troca constante. Assim como entregamos muito de nós para cada personagem, eles também deixam marcas profundas em nós. Por isso, acredito que existe um pouco de todas as minhas personagens em mim, assim como existe um pouco de mim em cada uma delas.
Mas os lugares e os contextos onde essas histórias acontecem também têm um papel muito importante nesse processo. Eles despertam sensações, ativam memórias e nos levam para territórios emocionais que ampliam a nossa percepção do mundo e de nós mesmos.
Quando vivi Rosa em Guerreiros do Sol, por exemplo, tive uma experiência muito transformadora. Estar no sertão nordestino, pisar naquele chão, sentir aquele sol, mergulhar naquelas águas e me conectar com uma realidade tão próxima das minhas origens despertou algo muito profundo em mim. Eu estava completamente atravessada por aquelas sensações, vivendo tudo de maneira muito intensa. Foi uma experiência que me transformou para sempre. Saí desse trabalho mais forte, mais consciente, mais verdadeira e com ainda mais orgulho da minha história e de quem eu sou. Acho que são esses os grandes presentes que os personagens nos dão: a possibilidade de nos encontrarmos, nos reinventarmos e ampliarmos a nossa própria humanidade.
Há alguma sensação da vida real que quase nunca consegue ser reproduzida por completo numa tela?
São muitas as experiências e complexidades da vida real que ainda buscamos compreender e representar de forma cada vez mais profunda na tela. A arte está em constante evolução justamente porque a vida também está. Estamos sempre aprendendo novas formas de contar histórias e de traduzir sentimentos, conflitos e relações humanas.
Ao mesmo tempo, acredito que a tela tem uma capacidade muito especial de expandir o nosso olhar. Ela não apenas reflete a realidade, mas também pode elevar o nosso pensamento, provocar reflexões e nos levar para lugares que, muitas vezes, a experiência cotidiana não alcança. Por meio da ficção, conseguimos imaginar outros mundos, questionar certezas, desenvolver empatia e enxergar possibilidades que talvez não víssemos de outra forma. Por isso, vejo uma relação muito bonita entre arte e vida. Uma inspira a outra continuamente, e ambas têm o poder de nos transformar.
Em quais situações a música ajuda você a prestar mais atenção, e não menos?
Acho que depende muito do estado de espírito de cada momento. A música tem essa capacidade única de nos atravessar de formas diferentes, dependendo de como estamos e do que estamos vivendo. Às vezes, ela nos leva para lugares quase inconscientes, despertando memórias, emoções e sensações de uma forma muito orgânica, sem que a gente precise racionalizar. Em outros momentos, ela nos faz prestar atenção em aspectos que talvez passassem despercebidos, despertando novos olhares, escolhas, reflexões e sentimentos. É justamente essa força que torna a música tão especial. Ela não tem uma única função ou um único caminho. Ela acompanha quem somos em cada fase da vida e, muitas vezes, revela emoções que nem sabíamos que estavam ali.
Que tipo de silêncio você reconheceria em qualquer lugar?
Eu reconheceria em qualquer lugar o silêncio das noites de lua cheia da Paraíba e a luminosidade única do sol de João Pessoa, da minha terra natal. São sensações que ficaram gravadas em mim de forma muito profunda e que fazem parte da minha memória afetiva. Existe algo na luz, nos sons e na atmosfera dos lugares onde crescemos que nos acompanha para sempre. Não importa onde eu esteja, essas lembranças continuam vivas e têm o poder de me conectar às minhas origens, à minha história e a tudo aquilo que ajudou a construir quem eu sou.
Acompanhe o trabalho de Isadora Cruz
Isadora Cruz no Instagram
Isadora Cruz no TikTok
Isadora Cruz no X
Isadora Cruz no IMDb
Isadora Cruz no Facebook
Isadora Cruz na Apple TV
Fotos por Lucas Pinto Mendonça
Agradecimentos à Fabi Albuquerque, da Estar Comunicação, pela conexão
Ouça a playlist de Isadora Cruz no seu player preferido
.
.
A música organiza mais coisas do que parece. Toda semana, novas entrevistas, playlists e conversas sobre cultura, comportamento e o mundo que existe ao redor do som. Assine a newsletter do deepbeep no Substack.
Para projetos, parcerias e curadoria cultural: falecom@deepbeep.com.br