Mateus Solano e o que um vilão pode ensinar

Mateus Solano aprendeu que ninguém cabe na primeira impressão.

Mateus Solano não parece muito interessado em personagens fáceis de explicar. Ao longo da carreira, passou pelo teatro, pela televisão e pelo cinema, interpretando pessoas muito diferentes, como o publicitário Ronaldo Bôscoli, os gêmeos Jorge e Miguel e o vilão Félix. Quanto mais personagens encontra, maior fica a curiosidade por aquilo que existe antes de uma escolha, de uma reação ou de um comportamento. Um vilão, por exemplo, precisa ser entendido antes de ser julgado. Conhecer as razões de alguém não significa concordar com elas. Significa descobrir como aquela pessoa chegou até ali.

A mesma atenção aparece nas coisas que irritam. Para ele, elas podem revelar mais sobre uma pessoa do que aquilo que ela escolhe dizer. Cada personagem também deixa alguma coisa para quem o interpreta, desde que exista abertura para aprender com ele.

A música acompanha essa história desde a primeira vez em que apareceu em cena, ao som de “Palhaço”, de Egberto Gismonti. Hoje, o piano também faz parte da sua relação com a música, que aparece na vida de outras maneiras.Na playlist “Nunca Era Sobre Mim”, a conversa continua com músicas que começaram contando histórias de outras pessoas e, em algum momento, passaram a dizer algo sobre ele. Camané o leva para Portugal, Gilberto Gil o faz pensar sobre a morte, enquanto João Bosco e Aldir Blanc trazem a fome e a raiva. São músicas que, para ele, ajudam a chegar a lugares que nem sempre passam só pelas palavras.

Na conversa com o deepbeep, Mateus Solano fala sobre o trabalho de interpretar pessoas diferentes, o que os personagens podem ensinar e a dificuldade de reduzir alguém a uma única versão.

Por Claudio Thorne, social media
Com supervisão de Lísias Paiva, criador e editor

Qual pessoa você nunca teria aprendido a respeitar se não fosse ator?
Creio que ser ator é entender que o ser humano é mais complexo do que querem nos fazer acreditar. Portanto, é graças ao meu ofício que eu posso entender todos os vilões, por exemplo. Não para justificá-los, mas explicá-los.

O que uma música precisa revelar antes de merecer entrar na vida de um personagem?
Não sei o que é uma música que tem que revelar antes de merecer entrar na história de um personagem, porque eu sei que uma música precisa servir àquela história, àqueles personagens. Isso pode se dar através da letra ou pode se dar através da melodia. Normalmente, é através da melodia, porque, quando a gente assiste a uma obra audiovisual ou no teatro, a gente tem que prestar atenção no texto. Então, normalmente, é uma música que faça a gente se sentir e se conectar com aquele universo daquelas personagens.

Qual detalhe costuma contar mais sobre alguém do que tudo aquilo que essa pessoa diz?
As coisas que nos irritam costumam nos revelar mais.

Quando um personagem deixa de ser interpretação e começa a mudar quem interpreta?
O personagem nunca deixa de ser uma interpretação, mas ele sempre vai ensinar alguma coisa ao seu intérprete, contanto, é claro, que esse intérprete esteja aberto para se desenvolver. Como ator, eu estou sempre muito ligado no que os personagens podem me ensinar.

Qual personagem você demorou mais tempo para perdoar?
Nunca tive que perdoar nenhum personagem, pois eu sempre os defendi com unhas e dentes. Como eu disse na primeira pergunta, ser artista é entender que o vilão não nasce vilão, mas se torna influenciado pelo seu meio.

A Playlist “Nunca Era Sobre Mim” (comentada por Mateus Solano)

Uma seleção de Mateus Solano que começou olhando para o outro e, aos poucos, acabou revelando algo sobre ele:

Água de Meninos — Gilberto Gil (uma música que me emociona. Fala da ignorância de um ser humano, um ser humano que vê seus valores mudarem do valor natural para o valor inventado, o valor do dinheiro — essas coisas que a gente inventou para acreditar)
Quede Água? — Lenine (uma música que me emociona. Fala da ignorância de um ser humano, um ser humano que vê seus valores mudarem do valor natural para o valor inventado, o valor do dinheiro — essas coisas que a gente inventou para acreditar)
Reis do Agronegócio — Chico César (fala da ignorância de um ser humano, um ser humano que vê seus valores mudarem do valor natural para o valor inventado, o valor do dinheiro — essas coisas que a gente inventou para acreditar)
Comunidade-Lobos — Carlinhos Brown (a música instrumental funciona muito para mim. Tem temas que me emocionam muito mais do que algumas letras. É do Alfagamabetizado, enfim, aquele álbum)
Argila — Carlinhos Brown (desse mesmo álbum, é uma música que me faz viajar)
Sei de um Rio — Camané (uma música que me emociona muito também e que me leva para Portugal e para outros rios dentro de mim)
Sodade — Cesária Évora (Cesária Évora, de uma maneira geral, me embala muito)
Guitarra Baiana (tem uma guitarra baiana que é um barato instrumental)
Caravana — Geraldo Azevedo (essa me faz viajar também. São músicas, canções, às vezes temas, às vezes uma frase musical, que levam a gente para lugares que não têm palavras para explicar. Meio que alargam a gente por dentro, cavam, criam novos espaços e deixam a gente mais complexo)
Mirabel Molhado — Zé Obrito (eu gosto muito também de músicas com humor. É um tipo de música que, quando tem humor assim, fala de uma liberdade também, de como tudo é possível. Você ter um verso bonito intercalado por um verso que é uma bobagem. Ou mesmo uma música belíssima, uma melodia muito bonita, e você vai ver que a letra é absurda. Eu gosto disso também, dessa, vamos dizer, subversão)
Não Tenho Medo da Morte — Gilberto Gil (é uma música que faz a gente olhar de frente para esse momento, que é o único que a gente tem certeza que vai acontecer e do qual a gente foge. É tão bonito como ele consegue poetizar esse momento e, de alguma forma, nos acalmar para esse momento inevitável)
O Ronco da Cuíca — João Bosco e Aldir Blanc (é uma música muito poderosa. Ele fala sobre fome e sobre raiva. E a raiva da fome é muito forte)
Human Nature — Michael Jackson (sempre foi uma música que me levou longe)
Palhaço — Egberto Gismonti (a primeira aparição minha em cena, na minha vida, foi em dezembro de 1996, com essa música, que me emociona muito)
Água & Vinho — Egberto Gismonti (outra música que me emociona muito e que eu consigo tocar no piano)
Marchinha da Sereia — Hélio Ziskind (tem uma que me emociona)
High Times — Jamiroquai (dos dois discos incríveis do Jamiroquai, eu destacaria uma que eu adoro)
Didjerama — Jamiroquai (para viajar, em que ele toca aquele didgeridoo, que eu acho que é aquele instrumento australiano)
Alguém Cantando — Caetano Veloso (é uma música que eu acho que fala do poder da música em si. É música que coloca a própria humanidade em perspectiva. Eu acho que a arte faz isso)
Eu Preciso Aprender a Só Ser — Gilberto Gil (para mim, é um hino. É uma música que eu sempre cantei sozinho pelas ruas e que me faz sempre refletir, de novo e de novo, sobre a forma com que eu venho vivendo a vida, lidando com a vida, com os outros e comigo mesmo)

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Fotos por Mariana França
Agradecimentos à Natasha Stein pela conexão

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