
King Saints acumulou três indicações ao Grammy Latino escrevendo para alguns dos maiores nomes da música brasileira. O que ela questiona hoje é outra coisa: quem está influenciando quem.
Antes de muita gente conhecer seu nome, King Saints já estava ajudando a escrever parte da trilha sonora da música brasileira. A artista de Duque de Caxias assinou músicas para nomes como IZA, Elza Soares, Luísa Sonza e Karol Conká, acumulou três indicações ao Grammy Latino e participou de sete faixas de Equilibrivm, álbum de Anitta.
Seria fácil transformar essa trajetória numa conversa sobre sucesso internacional. Ela prefere inverter a pergunta.
Ao longo desta entrevista, King questiona uma ideia que durante décadas organizou parte do imaginário cultural brasileiro. A noção de que o reconhecimento viria quando conseguíssemos nos aproximar de uma linguagem global. Para ela, a conta nunca funcionou exatamente assim.
O Brasil produz para si mesmo, influencia o mundo há décadas e continua criando novas linguagens sem depender de autorização externa. O desafio não está em ocupar espaço. Está em garantir que os criadores permaneçam visíveis quando suas ideias começam a circular.
A playlist “Calor Global” ajuda a entender esse raciocínio. Entre Jamé, Tuyo, Luedji Luna, Melly, Rachel Reis, Kaê Guajajara, Bixarte e músicas da própria King, a seleção reúne artistas que atravessam fronteiras sem abandonar o lugar de onde vieram.
Na conversa com o deepbeep, King Saints fala sobre autoria, identidade e sobre quem continua sendo reconhecido quando a cultura ganha escala.
Lísias Paiva, criador e editor
Você cresceu ouvindo sons periféricos brasileiros que, durante muito tempo, foram tratados como “locais demais” para circular globalmente. Em que momento você percebeu que o Brasil não precisava mais pedir autorização estética para ocupar espaço no mundo?
Eu acho que o Brasil nunca pediu licença para o sucesso global, porque sempre foi autossuficiente. Basta olhar para o consumo do brasileiro, que é sempre voltado para a própria produção. Os gringos é que se esforçam para caber aqui dentro.
Somos um país continental e plural, e isso se reflete musicalmente. No cenário digital, talvez a linguagem esteja mais global, mas, ainda assim, do mainstream ao underground, os artistas produzem para o mercado brasileiro.
Seu trabalho mistura afrobeats, funk, amapiano e música eletrônica sem soar como playlist de tendência internacional. O que faz um som ganhar identidade própria?
A verdade vem em primeiro lugar. Quando a gente faz um trabalho no qual acredita, ele fica autêntico. Não temos a audácia de acreditar que estamos criando algo novo. Estamos pesquisando. Como misturar as coisas, manter aquilo em que você acredita e se comunicar com pessoas alinhadas à sua verdade? A curiosidade é a chave. Hoje isso é ainda mais fácil com as plataformas digitais, que são verdadeiras bibliotecas. Sair um pouco do Top 200 global, sair um pouco da tela e ir para a rua ver o mundo ajuda muito.
Seu som funciona em festival gigante, pista pequena e paredão ao mesmo tempo sem perder identidade. O que uma música precisa ter para continuar quente em qualquer lugar?
Não sei exatamente o que ela precisa ter (risos), mas eu gosto do meio do caminho. Aquele som que dá para curtir de boa, mas que, se você prestar atenção, tem uma ideia interessante sendo passada. Encontrar produtores e músicos que estão na mesma vibração, o famoso timing, é muito importante na criação.
Além disso, nada substitui a experiência real. A rua, a vida, os problemas fora do digital.
Fazer um som num bar, vendo as pessoas passarem, observando a vida acontecer e imaginando a trilha sonora daquela situação é fundamental para o meu processo criativo.
Hoje parece existir uma pressão para artistas do mundo inteiro soarem internacionalmente parecidos. O que você percebe primeiro quando uma música brasileira começa a apagar a própria origem tentando exportação?
Acho que a globalização é inevitável. Podemos olhar para isso de forma negativa e dizer que perdemos nossa essência, ou entender que a música está se expandindo e se transformando sem perder sua matéria-prima. O que me incomoda é quando os criadores e seus descendentes são preteridos. Na hora do dinheiro cair, normalmente ele vai para os mais privilegiados.
Você escreveu para artistas enormes, circulou por mercados gigantes e chegou a espaços onde quase ninguém imaginava ver uma mulher preta da Baixada ocupando protagonismo global. O que ficou mais cansativo no caminho até aqui?
Cansativo é ter que se reafirmar o tempo todo. Mesmo com um trabalho vasto, as pessoas ainda duvidam da minha capacidade. Querem me colocar numa caixa e ignorar minha pluralidade musical. A remuneração também é um ponto de incômodo.
Para eu chegar ao ponto de ser verdadeiramente bem paga demorou muito. Muitos colegas já estavam comprando seus carros e montando seus estúdios enquanto eu ainda pedia dinheiro emprestado para conseguir chegar às sessões. E eu precisava entregar no mesmo nível, porque não posso mostrar vulnerabilidade. Sem contar que, em inúmeras sessões, eu era a única pessoa negra no local. Essa sensação de “preto único” não me agrada. Mas eu passo por tudo isso e deixo para chorar em casa com a minha mãe (risos).
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