Isabela Reis e o que fica fora de uma notícia

Isabela Reis, jornalista, roteirista e apresentadora do Angu de Grilo, em entrevista ao deepbeep

No Angu de Grilo, Isabela Reis junta o que as notícias costumam separar

Uma notícia pode chegar com manchete, comentário e veredito. Ainda assim, terminar o dia sem deixar claro o que muda na vida de quem a leu. Isabela Reis trabalha com essa falta. Jornalista, podcaster e criadora de conteúdo, encontrou no podcast um jeito de puxar a notícia para perto, recuperar contexto, fazer perguntas e descobrir onde aquela história encosta na vida real.

No Angu de Grilo, divide o microfone com a mãe, Flávia Oliveira. A intimidade entre as duas permite que uma notícia dura conviva com memória de família, discordância, humor e afeto. Isabela organiza o rumo da conversa. Flávia chega com três décadas de jornalismo, repertório e uma outra geração de referências. O programa não tenta esconder essa diferença. Faz dela uma forma de conversar.

Essa disposição também aparece na maneira como Isabela usa a internet. Em vez de seguir apenas quem já conhece ou pensa como ela, procura pessoas, experiências e assuntos que escapam da própria rotina. Foi assim que encontrou outros caminhos para entender maternidade, comunidade LGBTQIAPN+ e pessoas com deficiência. O que aprende fora da própria experiência volta para o programa como pergunta, referência e contexto.

Há uma frase da entrevista que concentra essa preocupação. Uma população que não compreende o que acontece no próprio país não tem capacidade de indignação e mobilização. Para Isabela, tornar as notícias compreensíveis também é uma disputa. O jornalismo pode aproximar as pessoas do que está acontecendo ou deixá-las olhando de fora.

Na conversa com o deepbeep, ela fala sobre jornalismo, gerações, redes sociais, repertório e a dificuldade de entender um noticiário que muitas vezes chega sem contexto. A “Playlist do Angu de Grilo“, construída por Isabela a partir da pesquisa sobre a trajetória do programa, reúne músicas ligadas a convidados, episódios, momentos e memórias acumuladas em mais de 300 programas. Um pouco de mistura, como o próprio nome do podcast sugere.

Por Claudio Thorne, social media
Com supervisão de Lísias Paiva, criador e editor

Isabela, seu trabalho no Angu de Grilo se tornou uma espécie de crônica semanal do nosso tempo. Como é o seu processo para garimpar os temas e as angústias da semana e transformá-los em uma conversa que seja, ao mesmo tempo, divertida e profunda?
O Angu é muito reflexo do noticiário do momento, mas nosso viés é sempre tentar entender onde é que aquela notícia esbarra na nossa vida real e traduzir isso para nossos ouvintes. Percebo que muitas das notícias que ganham importância na mídia tradicional não mudam nada na nossa vida e acabam tendo mais protagonismo do que o noticiário local, tão relevante pro nosso dia a dia. E o que dá o tom do Angu de Grilo é o fato de sermos mãe e filha e a nossa relação de intimidade, podendo zoar, trazer uma história pessoal, um desabafo, chorar, rir, fazer piada. É isso que traz a leveza e o aconchego num podcast em que, geralmente, as notícias são tão duras e difíceis.

A química entre você e sua mãe, Flávia Oliveira, é o coração do podcast. O que essa troca de gerações e de perspectivas te ensina sobre o Brasil e sobre a forma como a gente se comunica (ou deixa de se comunicar)?
Olha, essa troca me ensina tudo. A minha mãe sempre foi a minha referência profissional, desde que eu decidi ser jornalista como ela, e também sempre foi minha referência de ser humano, de mulher. A nossa troca mais profissional, de ouvi-la também de um lugar de jornalista e não somente como filha, fez com que eu aprendesse muito e com que eu respeitasse ainda mais a sabedoria das pessoas mais velhas, sabe? 
Nós duas somos do Candomblé e, na nossa religiosidade, os mais velhos têm um lugar de protagonismo, assim como as crianças, que são importantíssimas para fazer a fé e a ancestralidade se perpetuarem. A minha mãe sempre me ouviu muito, mesmo eu sendo uma jornalista jovem, e respeitou muito o meu trabalho. Eu tive espaço para apresentá-la às novas linguagens do feminismo, das redes sociais, por exemplo, e sempre conseguimos dialogar profissionalmente sobre jornalismo, comunicação e movimentos sociais. Essa troca e mistura geracional deram muito certo no Angu de Grilo. 
Nossas ouvintes apresentam o Angu para a mãe, para o pai e acabam ouvindo juntos, vira um programa da família e mais um assunto, um elo no diálogo intergeracional nas famílias que nos ouvem. Nós estamos sempre muito interessadas em ouvir os mais velhos. Temos episódios entrevistando Conceição Evaristo, Sueli Carneiro, Martinho da Vila, todas pessoas com mais de 70 anos. A gente valoriza muito essa intergeracionalidade.

O deepbeep se inquieta com as bolhas dos algoritmos. Como uma jornalista que precisa entender a cultura de forma ampla, como você faz para furar a sua própria bolha e encontrar pautas e referências que realmente te surpreendam, para além do que as redes estão empurrando?
Eu costumo brincar que eu não sigo nas redes gente que eu conheço. Tem muita gente que eu conheço pessoalmente, que frequenta nossa casa e eu não acompanho nas redes, simplesmente porque muitas vezes, o que essa pessoa posta não me interessa, o que me interessa é o offline. Eu faço muitas conexões nas redes com pessoas que estão fora da minha bolha. A internet me trouxe pontos de conexão muito importantes com três assuntos: 
A maternidade. Foi onde eu aprendi e conheci outras mães que tiveram filhos na mesma época que eu, já que fui a primeira – e até agora, a única – das minhas amigas a ser mãe. Meus grandes aprendizados sobre maternidade foram construídos por essa rede virtual de mulheres e de saberes.
Também foi na internet que eu aprendi muito sobre a comunidade LGBTQIAPN+, especialmente com criadores de conteúdo da sigla. Eu sempre cresci rodeada de pessoas LGBTs, até porque, a comunicação é uma área progressista, diversa, acolhedora – mesmo assim, infelizmente, longe de ser livre de LBGTfobia. Mas foi através das redes sociais que aprendi mais profundamente sobre a história do movimento LGBT+ no Brasil e mundo, as discussões atuais, as angústias pessoais, os conflitos, a cultura, as gírias e as particularidades de cada letra da sigla com suas diferenças geracionais e regionais. A internet é um terreno muito rico para conhecer vivências diferentes das nossas. 
Também foi com o boom das redes sociais que me conectei e aprendi muito sobre a causa das Pessoas com Deficiência e suas infinitas particularidades. A internet é um território que promove a proximidade com uma diversidade de pessoas que, dificilmente, nós conviveríamos todas ao mesmo tempo na vida real. Ali, a gente vai conhecendo, se sensibilizando, e tudo isso vai compondo o meu olhar sobre outras realidades. Esse aprendizado se transforma em comentários, referências, indicações que eu trago quando comentamos pesquisas, dados, notícias no Angu de Grilo. Tudo compõe a miscelânea dos meus interesses que são muito plurais, assim como nossa sociedade. Por mais que eu não faça parte de muitos desses grupos, eu me interesso por, rigorosamente, todo mundo.

Como a sua experiência como roteirista, que entende de estrutura, personagem e narrativa, te ajuda a construir as conversas do podcast de uma forma mais interessante ou a enxergar as notícias com um outro olhar?
O que me ajuda é ter repertório, é estar atenta aos movimentos do mundo, às tendências, às conversas. Isso faz com que eu tenha um olhar aguçado sobre o que pode ser interessante também para nossos ouvintes. Não que eu seja uma especialista nisso, mas eu sou uma interessada.
Tentar enxergar a notícia com outro olhar tem a ver com o espírito de uma jovem jornalista que sempre teve muita dificuldade em entender o noticiário tradicional. Não é normal que a gente não consiga entender o que tá acontecendo no mundo, que as reportagens não tragam o contexto, uma linha do tempo. Isso sempre me incomodou muito, então, eu tento estruturar a conversa do jeito mais didático e palatável possível. 
No Angu de Grilo, nós também temos papéis bem claros e isso ajuda. Eu faço a contextualização, a linha do tempo e as perguntas e a minha mãe entra no lugar de comentarista, traz a bagagem dela de 30 anos de jornalismo, os conceitos e conecta todos esses pontos. A gente se complementa muito bem. 

No fim das contas, qual é a principal conversa que você, como jornalista e podcaster, quer que o seu trabalho ajude a provocar nos seus ouvintes?
O meu trabalho é muito orientado pela Declaração Universal dos Direitos Humanos. Eu acho que tem espaço pra gente olhar tudo com a lente da empatia e sensibilidade para todas as causas. Então, no Angu de Grilo, a gente traz pautas de gênero, de raça, sociais, indígenas, negras, das pessoas com deficiência, questões LGBTQIAPN+, crianças, idosos.  Estamos sempre atentas para abarcar, mencionar, trazer o máximo possível de diversidade junto. 
Todo o assunto que eu tente conversar com mais profundidade, eu busco ter a sensibilidade de entender de que lugar que eu estou falando e para quem, o que que eu posso trazer de outras vivências, que não as minhas, e apresentar para as pessoas com empatia e respeito.
O nosso objetivo é fazer com que todo mundo entenda o que estamos falando. Uma população que não compreende o que acontece no próprio país, não tem capacidade de indignação e de mobilização. Faz parte do projeto de dominação tornar tudo incompreensível. Meu propósito é subverter isso, é fazer com que todo mundo entenda, e a partir disso, consiga se posicionar.

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Fotos por Afroafeto Fotografia

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