Potyra Lavor e por que cultura nunca acontece sozinha

Potyra Lavor em retrato para o deepbeep durante entrevista e playlist sobre cultura, música, festivais e curadoria.

À frente da IDW Company, responsável pelo AFROPUNK Brasil e por alguns dos principais encontros musicais do país, Potyra Lavor defende que cultura nunca acontece sozinha.

Antes de um artista subir ao palco, existe um trabalho que quase nunca aparece. É nele que Potyra Lavor construiu a própria trajetória. À frente da IDW Company, empresa responsável pelo AFROPUNK Brasil e por projetos como o Boladonas e o Arraiá do Brasil, ela participou da realização de encontros que trouxeram ao país artistas como Lauryn Hill, Erykah Badu, Tems e Victoria Monét. A trajetória ganha um novo desdobramento com o show solo de Jorja Smith, em São Paulo, no dia 30 de outubro, no Espaço Unimed. Ao longo desse percurso, desenvolveu uma convicção que orienta seu trabalho: cultura não se impõe, não se replica e nunca se constrói sozinha.

Na conversa com o deepbeep, Potyra fala sobre pertencimento, curadoria, celebração e sobre a responsabilidade de chegar a um território disposto a aprender com quem já faz parte dele. Para ela, grandes experiências culturais não nascem apenas da programação. Elas dependem de escuta, de confiança e da capacidade de criar espaços onde diferentes pessoas possam construir juntas.

A seleção de faixas que acompanha esta entrevista amplia essa conversa por outro caminho. Cada música vem acompanhada por uma lembrança, uma negociação, um sonho de programação, um artista que ela tentou trazer ao Brasil durante anos ou um encontro que mudou sua forma de pensar cultura. Mais do que revelar o que Potyra escuta, os comentários mostram como uma curadora constrói repertório, imagina festivais e transforma referências em experiências. Na entrevista ao deepbeep, Potyra Lavor compartilha o que aprendeu criando alguns dos encontros musicais mais importantes do país.

Lísias Paiva, criador e editor

Potyra, o que faz com que uma pessoa se sinta que realmente pertence a um lugar?
Acho que, em primeiro lugar, é se sentir segura. Depois, olhar para os lados e também se reconhecer nas pessoas que estão ali. Não precisam ser iguais a você, mas precisam compartilhar alguma coisa em comum. Estou falando de uma maneira geral, não apenas de experiências musicais ao vivo. Também é importante estar em um ambiente cujos símbolos e valores façam sentido para você e, ao mesmo tempo, ampliem sua visão de mundo sem abrir mão dessa base.

Tem músicas que transformam uma multidão em comunidade por alguns minutos. O que elas despertam?
Acredito que a música é uma linguagem universal. Muitas vezes você nem entende a letra, ou a música sequer tem letra, como acontece nas composições instrumentais, e ainda assim ela te atravessa. Ela desperta emoções muito diferentes. Faz chorar, celebrar, lembrar da família, de um amor, de amizades ou simplesmente provoca reflexão. Quando isso acontece ao vivo, ganha outra dimensão. É um momento único, irrepetível. Todo mundo está vivendo a mesma experiência ao mesmo tempo. Para mim, essa é uma das maiores experiências do que significa ser humano: perceber que fazemos parte de algo maior naquele instante. Às vezes digo que existem artistas capazes de criar uma sensação parecida com a de uma igreja ou um templo, independentemente da religião. Todo mundo canta junto. Todo mundo vive a mesma experiência. Existe algo muito poderoso nisso.

Existe alguma diferença entre ocupar um espaço e construir um espaço?
Existe uma diferença enorme. Ocupar um espaço pode significar reivindicar um direito que sempre foi seu. Também pode significar chegar a um lugar sem compreender quem construiu aquela história. Construir um espaço é diferente. Quando chegamos a uma cidade, fazemos questão de trabalhar com pessoas daquele território. Quem faz a cultura é o povo de cada lugar. Nosso papel é facilitar conexões, colaborar e ajudar as coisas a acontecerem. Costumamos dizer que somos operárias do entretenimento. Nossa maior felicidade é ver cada pessoa sair de um projeto levando uma memória que vai acompanhar a vida inteira. E isso nunca acontece sozinho. Curadoria, para mim, é coletiva por natureza.

O que as pessoas costumam subestimar sobre celebração?
Acho que as pessoas costumam subestimar aquilo que não faz parte da própria história. Quando alguém não vive determinada experiência, muitas vezes tem dificuldade para compreender a dimensão que ela tem para outras pessoas. Às vezes isso acontece sem intenção. Outras vezes também existe uma disputa pela manutenção de privilégios. Num país como o Brasil, tão rico culturalmente, incentivar, proteger e garantir a continuidade das manifestações culturais deveria ser uma premissa.

Qual tipo de encontro você acha que está fazendo falta hoje?
Encontros em que as pessoas estejam realmente presentes. Sinto muita falta disso. Não importa de onde alguém veio ou com o que trabalha. Às vezes basta viver aquele momento. Tenho muita curiosidade pelos festivais sem celular. O universo digital é extraordinário, mas também trouxe desafios importantes para a saúde mental. Presença não significa apenas estar fisicamente em um lugar. Significa estar disponível para conhecer alguém, ouvir outra história e ampliar a própria visão de mundo. É isso que mais me interessa nas viagens que fazemos. Cada cidade, cada equipe e cada encontro diminuem um pouco as distâncias. Tenho certeza de que aprendemos mais do que ensinamos.

PLAYLIST | QUANDO A CIDADE SE ENCONTRA (comentada por Potyra Lavor)
21 músicas comentadas por Potyra Lavor que ajudam a entender como ela pensa sobre artistas, festivais e experiências culturais.

  1. Árvore – Fran, Chico Chico “Adoro essa versão do Edson Gomes feita pelo Chico Chico e o Fran Gil”
  2. Ain’t No Mountain High Enough – Marvin Gaye, Tammi Terrell
  3. Os Alquimistas Estão Chegando… – Jorge Ben Jor Jorge Ben é um sonho que tentamos realizar pro AFROPUNK todos os anos. Um dia vai acontecer! “
  4. Samurai (feat. Stevie Wonder) – Djavan
  5. Turma da Duq – Duquesa, Go DassistiAdmiro tudo! Construção musical, posicionamento e entrega ao vivo. Uma das artistas mais completas da sua geração.”
  6. Me & U – Tems “Meu trabalho me proporciona realizar sonhos. Ter a TEMS pela primeira vez no Brasil com show exclusivo na Bahia me fez feliz demais! Muitos significados.”
  7. Little Things x Gypsy Woman… – Jorja Smith “Amo. Tento trazer desde 2023. Esse ano ela vem! Ansiosa pelo álbum novo que tá chegando.”
  8. Man I Need – Olivia Dean “Amo! Tentei muito trazer este ano mas (ainda rs) não temos o budget pra ela.”
  9. Redemption Song – Bob Marley & The Wailers “Ele não pode faltar rs. Tenho um trecho tatuado. Meu maior ídolo de adolescência.”
  10. Deusa do amor – Olodum
  11. POTE DE OURO – Liniker, Priscila Senna
  12. Foguinho – Gaby Amarantos “Pra mim, álbum e projeto visual do ano de 2025.”
  13. Verdade Chinesa – Emílio Santiago “Seguindo a onda nostálgica, fui criada ouvindo Emílio. Um dos meus artistas da vida.”
  14. A Vida do Viajante – Luiz Gonzaga, Gonzaguinha “Eu amo seu Luiz, amo São João e tô feliz demais que ano que vem teremos o Arraiá do Brasil… o meu pai só ouvia música de UM único artista: Luiz Gonzaga…”
  15. A Menina Dança – Novos Baianos
  16. Ela É Tarja Preta – Felipe Cordeiro
  17. AmarElo – Emicida, Pabllo Vittar “Além de amar Emicida, Belchior, Majur e a Pabllo, esta música jamais sairá da memória de quem a viveu, ao vivo, na edição 2022…”
  18. I’M THAT GIRL – Beyoncé “Queen B marcou nossas vidas. Artista referência para todas nós. Esta música virou a referência da experiência que tivemos com ela e as mulheres incríveis…”
  19. Palco – Gilberto Gil “Seu Gilberto, mestre brasileiro. Essa música ao vivo é de ver todo mundo com sorriso no rosto.”
  20. Te llevo tatuada – Jorge Drexler, Young Miko “Tenho ouvido muito ele por influência de uma grande amiga que é apaixonada. Acho que estamos vivendo um momento tão especial da cultura latina…”
  21. Alegria da Cidade – Lazzo Matumbi
  22. Dangerous Lover – Sekou “Tô meio obcecada por ele rs Novo nome que espero trazer muito em breve pro Brasil.”

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