Henrique Barreira leva seus personagens para casa

Foto do ator Henrique Barreira sobre personagens, música, convivência com elencos e despedidas.

Henrique Barreira fala sobre o que aproxima um ator de um personagem e o momento estranho em que ele começa a desaparecer.

Um personagem pode acabar no set. Para Henrique Barreira, existe outro lugar onde a despedida acontece. Aos 24 anos, Henrique está no ar em Quem Ama Cuida e vem construindo uma trajetória entre televisão, cinema e teatro. O trabalho mais curioso de um ator começa antes da primeira fala. Henrique procura o que naquele personagem o aproxima, o que exige distância e quanto de empatia consegue encontrar naquela construção.

Depois vêm as pessoas. Um elenco pode começar como um grupo de colegas e terminar como uma espécie de família. E existe um detalhe que ele reconhece como sinal de que a história está chegando ao fim.

Na conversa com o deepbeep, Henrique conta o que procura antes de entrar em cena, como um elenco ganha intimidade e por que parar de sonhar com um personagem pode ser a despedida mais clara de todas. Na playlist “Ouvi Diferente”, ele escolheu músicas que escuta de outra maneira hoje. Entre elas está Espelho, de João Nogueira, que ganhou outro sentido depois da perda do pai.

Marcelo Nassif, sócio editor

Henrique, quando você recebe um personagem, qual é a primeira curiosidade que aparece antes mesmo de decorar a primeira fala?
A primeira curiosidade é descobrir em quais características aquele personagem me comove, se conecta com a minha vida pessoal e quais são mais distantes e me exigem um mergulho maior. É sempre importante entender o quanto de empatia aquele personagem me desperta no começo da construção.

Tem uma música que foi mudando de sentido com o tempo? Quem mudou mais nessa história: ela ou você?
Para mim, Espelho, gravada por João Nogueira. Já gostava muito da melodia, da letra e da interpretação do João. Me encantava com o jeito lindo de dividir as métricas, como um atleta de alta performance, com timbre boêmio.
Depois de perder meu pai, em 2020, a música hoje tem outro sentido. Me parece uma prece. Quando escuto no fone ou numa roda de samba, me arranca arrepios ou, às vezes, lágrimas. Também troquei de mal com Deus por levar meu pai, mas as referências musicais que ele me deixou me ajudaram a curar muita coisa.

Você entra em elencos novos o tempo inteiro. Em que momento um grupo deixa de parecer um grupo e começa a dar vontade de ficar?
Acho que um elenco unido é grande parte de um bom trabalho. Quando você começa a fazer amigos, em vez de tratar como apenas colegas de trabalho, é sinal de que algo de maravilhoso está acontecendo. Trabalhamos com a verdade, com a natureza humana. Nada melhor que nos juntarmos também fora do trabalho. Quando vira uma espécie de família, é muito difícil dizer adeus.

Antes de gravar, existe uma pergunta que você sempre tenta responder sobre um personagem?
A cada cena: “O que esse personagem quer nessa cena?”

Depois de meses convivendo com um personagem, como você percebe que chegou a hora de se despedir dele?
É claro que existe o prazo no cronograma de filmagens, mas, para mim, um sintoma muito forte é quando eu deixo de sonhar com o personagem. Isso acontece muito nos trabalhos. Às vezes, vivo em primeira pessoa; em outras ocasiões, acompanho ele como espectador, mas é sempre mágico. Quando paro de sonhar com meus personagens, parece uma despedida ensaiada. Sei que está acabando.

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