Gui Boratto e o ouvido que não para de estranhar

Retrato de Gui Boratto, arquiteto, músico, produtor e fundador do selo D.O.C.

Arquiteto, produtor e fundador da D.O.C., Gui Boratto fala sobre espaço, identidade artística e a curiosidade que mantém sua escuta em movimento depois de décadas de trabalho com som.

Antes de assinar a própria música, Gui Boratto passou anos em estúdio gravando bandas e instrumentos, de baterias e baixos a orquestras. O trabalho como técnico e engenheiro de som lhe deu intimidade com a construção de uma gravação, da escolha dos microfones às relações entre os elementos de uma faixa. Arquiteto de formação, ele desenvolveu uma maneira particular de pensar o som, aproximando duas disciplinas que exigem atenção à estrutura, à proporção e ao espaço. Sua experiência está nos detalhes que percebe e nas relações que consegue estabelecer entre eles.

A comparação parte de um exemplo simples. Se um restaurante tem dez mesas, colocar vinte compromete o espaço. Na mixagem, o excesso de elementos e o conflito entre frequências podem produzir o mesmo problema. Gui reconhece essa proximidade entre arquitetura e música na própria formação e nas obras de Niemeyer, onde percebe ritmos e marcas de uma sensibilidade musical. Sua escuta atravessa a técnica e alcança a maneira como as coisas se organizam, ocupam espaço e se relacionam.

À frente da D.O.C., selo que reúne artistas de linguagens diferentes, Gui também defende a integridade de quem produz música. Estudar referências e copiar podem fazer parte do aprendizado, mas seguir os timbres da moda para caber num padrão de mercado é outra escolha. Com a experiência de quem conhece os bastidores da produção, ele chama a atenção para uma questão que continua atual. Encontrar uma assinatura própria exige mais do que dominar ferramentas ou acompanhar tendências.

A curiosidade permanece em movimento. Depois de décadas dedicado ao rock, à música eletrônica e aos sintetizadores, Gui comprou um vinil de Maria Callas e passou a ouvir ópera em casa. As composições de Puccini estão entre suas descobertas recentes. Ele conta que o disco toca tanto que está quase gasto. A cena tem algo de revelador sobre um músico que continua abrindo espaço para outras formas de escuta.

Lísias Paiva, criador e editor

Gui, você começou trabalhando nos bastidores, produzindo e construindo o som de outras pessoas, antes de colocar seu próprio nome no centro. O que os bastidores ensinaram que o palco nunca ensinaria?
Bom, você sabe, muita gente sabe que eu trabalhei muitos anos em estúdio, principalmente atuando como técnico e engenheiro de som, e isso me permitiu gravar muitas bandas e instrumentos, todos os que você possa imaginar. Tipo bateria, baixo, orquestra. Você aprende a microfonar uma bateria, como gravar bumbo, tons e caixa, quais microfones usar, como microfonar de uma forma geral e até coisas de arranjo. Quando você lida com músicos, aprende um monte de coisas que não aprende no palco.

Você é arquiteto e músico. Quando uma faixa começa a parecer cheia demais, o que faz você decidir que é hora de tirar alguma coisa?
Você sabe que eu fiz uma palestra junto com o Dave Smith, o falecido Dave Smith, inventor do MIDI, em Amsterdã. Ele falava de síntese, e eu dava exemplos, trazendo a questão da arquitetura, do espaço. Eu brinco e falo assim: você tem um restaurante com dez mesas. Vai querer colocar vinte? Não vai dar. Vai ficar tudo encavalado, uma cadeira em cima da outra, uma mesa em cima da outra. E isso acontece quando você está mixando, quando está produzindo, seja pela quantidade de elementos, seja pelas frequências que se chocam, que conflitam. Mas eu não vejo distinção. Arquitetura e música são meio que a mesma coisa. Eu sempre falo que, na minha faculdade, sei lá, 80%, 90% dos meus amigos, dos alunos, todo mundo era muito, muito envolvido com música. É engraçado, é curioso. Você tem outros exemplos, não só os da minha turma. O Chico é arquiteto, fez FAU, não sei se chegou a se formar. Tom Jobim também. O Tom, eu sei que não se formou. E até você percebe o contrário nas obras do Niemeyer, vê rastros de música, ritmos nas fachadas, nos projetos dele. Você vê que ele também era ligado à música. Então, essas duas disciplinas são muito próximas.

Depois de tantos anos ouvindo música profissionalmente, ainda existe algum som capaz de fazer você parar para descobrir como aquilo foi feito?
Som é um negócio muito misterioso. Por maior que seja a experiência que você tenha, sempre tem algum som, algum barulho que te surpreende, seja produzido por um instrumento musical, por um objeto ou por uma força da natureza. Então, eu acho que o som não precisa ser reconhecido. Ele te dá alguma sensação, e isso é o que importa, não você imaginar ou saber qual ferramenta foi usada pra produzi-lo. E eu me surpreendo muito. Tem muita coisa que eu escuto e fico chocado quando descubro o que é. Às vezes, é um instrumento simples, comum, e você não reconhece na hora. É muito engraçado isso.

A D.O.C. reúne artistas de momentos e linguagens diferentes. O que faz você perceber que um artista ainda tem espaço para abrir uma direção nova, em vez de apenas ocupar uma direção que já existe?
A D.O.C. reúne artistas com abordagens completamente diferentes. Mas, mesmo assim, o selo tem uma unidade. Acho que, nesses caminhos de linguagens diferentes, o que importa é a integridade com o som, com a música que o cara faz. Porque existe um mercado e as pessoas, claro, não querem ficar fazendo música pra ouvir entre quatro paredes. A música é um produto e tem que ser compartilhada, inclusive pelo músico, pelo produtor, pelo DJ. Mas, como existe um mercado, tem pessoas que se equivocam, se moldam e copiam. Não tem problema copiar. Acho que, quando você copia, copia, copia, você treina, estuda e isso te ajuda a encontrar a tua assinatura. Mas existe uma integridade. De repente, ficar usando os timbres do momento ou se enlatando pra seguir o padrão de uma determinada gravadora é um caminho muito perigoso e sem volta. Porque a moda muda. E aí, como é que você fica? Então, a música é mais importante do que a produção, do que a roupa que você está vestindo. Eu vejo muito mais a música em si do que essa coisa de ela estar superpadronizada. A gente não quer coisa padronizada por aí.

Depois de mais de três décadas trabalhando com som, o que ainda consegue surpreender o seu ouvido?
A gente vai se acostumando com tudo nessa vida. Então, acho que, quando você redescobre coisas, na verdade… Eu sempre fui muito do rock, depois, fiquei muito na música eletrônica, nos sintetizadores, desde a infância. Acabei virando colecionador de sintetizadores. Agora, de repente, depois de 20 anos, você volta pra outras coisas. Outro dia, comecei a escutar ópera, as composições do Puccini. Comprei um vinil da Maria Callas. Gente do céu, fica tocando aqui, tá quase gasto o vinil! Então, sei lá, eu nunca me imaginaria escutando ópera nas alturas em casa. É isso. Acho que tudo aquilo que a gente visita pouco, quando revisita, acaba surpreendendo positivamente.

Acompanhe o trabalho de Gui Boratto
Gui Boratto no Instagram
Gui Boratto na Kompakt
Gui Boratto no Spotify
Gui Boratto no Bandcamp
Gui Boratto no Souncloud
Gui Boratto na Apple Music
Gui Boratto no Facebook
Gui Boratto no Beatport
Gui Boratto no YouTube
Metropole Agency por Gui Boratto
D O C Records por Gui Boratto

.


.

A música organiza mais coisas do que parece. Toda semana, novas entrevistas, playlists e conversas sobre cultura, comportamento e o mundo que existe ao redor do som. Assine a newsletter do deepbeep no Substack.

Para projetos, parcerias e curadoria cultural: falecom@deepbeep.com.br

Ouça também