
Quando a pergunta é sobre sua carreira, Gaby Amarantos responde falando de quem tornou essa carreira possível.
Nunca foi tão fácil transformar uma trajetória em uma história individual. Aprendemos a contar carreiras como uma sequência de decisões, talentos e conquistas pessoais. Entrevistas, podcasts, autobiografias e redes sociais seguem o mesmo roteiro. O “eu” ocupa o centro da narrativa.
Gaby Amarantos faz o contrário. Quando perguntamos sobre sua carreira, ela fala do pai. Da mãe. Das mulheres da família. De Belém. Das festas de aparelhagem. Do público. Cada resposta amplia o enquadramento em vez de fechá-lo. Em vez de construir uma personagem, ela constrói uma comunidade. Isso não acontece por modéstia. Nem porque Gaby evita falar de si. A carreira aparece o tempo todo. Mas nunca aparece sozinha.
Ao longo de quase três décadas, Gaby Amarantos levou o tecnobrega a novos públicos sem romper com o lugar de onde ele nasceu. Sua música continua voltando à Amazônia, às aparelhagens, às mulheres que sustentaram sua caminhada e às pessoas que fizeram parte dela. Não como homenagem. Como origem. Depois de ler esta conversa com o deepbeep, fica difícil separar a artista das pessoas e dos lugares que ela faz questão de manter por perto. Gaby Amarantos pensa no plural.
A playlist com as músicas escolhidas por Gaby Amarantos também recusa uma escuta solitária. Belém, Amazônia, festas, encontros e memória aparecem menos como referências do que como formas de pertencimento.
Lísias Paiva, criador e editor
★ A CONVERSA CONTINUA: Gaby Amarantos se apresenta neste final de semana no Favela Sounds, em Brasília. Depois da entrevista, convidamos Amanda Bittar, diretora-geral, e Guilherme Tavares, diretor artístico, para montar uma playlist que ajuda a entender como o Favela Sounds chegou aos dez anos.
Gaby, você lembra da primeira vez que viu uma música mudar o jeito como alguém se enxergava? O que aconteceu?
Nossa, a música sempre esteve muito presente na minha vida, e eu lembro que a primeira vez que vi uma música mudar o jeito como alguém se enxergava foi nas rodas de brega da minha família. Eu venho de uma família periférica e, nessa época do ano, que é o nosso verão amazônico, inclusive estou aqui em Belém, as férias escolares sempre coincidiam com esse período.
A gente fazia aquelas farofadas de família, enchia um ônibus e ia para as praias de água doce que temos aqui no Pará. E, quando começavam as rodas de brega, eu via a transformação acontecer.
Eu olhava para o meu pai, que era trabalhador assalariado; para os meus tios, que eram pedreiros, mestres de obras e pintores; para as mulheres da família, donas de casa e trabalhadoras domésticas; pessoas muito simples, e via como, naquele momento, elas se enxergavam de outro jeito. Era como se ocupassem um lugar de poder, de alegria e de pertencimento. A música dava esse presente para a gente: um momento de inclusão, de lazer e de celebração da vida em família. O brega tem essa força. Faz a gente olhar para o mundo com mais esperança, mais leveza e mais beleza. Acho que foi ali que eu entendi o poder transformador da música, e é por isso que eu amo tanto ser uma cantora de tecnobrega de Belém do Pará.
O que uma música precisa despertar numa pessoa para você sentir vontade de cantar junto?
Eu acredito que tem música para tudo. É muito amplo pensar na música por um único viés.
Eu faço Rock Doido, então, quando penso no que uma música precisa despertar nas pessoas, a primeira palavra que me vem é euforia. É alegria, é deixar a frequência lá em cima.
É isso que eu quero que as pessoas sintam quando escutam o Rock Doido, quando assistem ao nosso filme em plano-sequência no YouTube, quando entram nesse movimento que nasceu nas aparelhagens. É uma energia que vem desse lugar de muita pirotecnia, alegria, delírio e celebração. Eu quero que as pessoas se sintam importantes, que sintam que têm um lugar no mundo e que as coisas vão dar certo. Esse é o sentimento que eu e toda a minha equipe buscamos colocar na nossa música.
Tem alguma coisa que disseram que era “demais” e hoje virou exatamente a sua marca?
Nossa, essa pergunta é maravilhosa, porque eu sempre ouvi muito isso. Diziam que eu era demais, que a minha música era diferente demais, que as minhas roupas eram extravagantes demais, que a minha arte era única demais, mas sempre com aquele olhar de quem queria dizer que eu era exótica.
E foi justamente esse “demais” que virou a minha marca. Virou o meu diferencial como artista, um lugar de inovação, autenticidade e coragem para fazer as coisas do meu jeito.
Acho que o Rock Doido também representa muito isso. É um movimento lindo, que nasceu no Pará e que muitos brasileiros ainda estão descobrindo, porque a gente vive num país grande demais, com uma cultura rica demais, e leva tempo para que essas potências circulem e sejam reconhecidas. Então eu sou muito grata por todas as vezes que disseram que eu era demais, porque, no fim das contas, esse “demais” sempre foi ouro na minha carreira.
Qual foi a última vez que você teve certeza de que bastava mostrar, sem explicar?
Para mim, foi muito agora, com o lançamento do Rock Doido. Eu sei que ele ainda é muito novo. É um primo novinho da música brasileira, um movimento que está se consolidando, crescendo e que muita gente ainda está descobrindo. Mas basta eu olhar o quanto esse projeto cresceu em tão pouco tempo.
Hoje eu estou no line-up dos principais festivais do Brasil neste segundo semestre, a minha carreira deu um salto quântico maravilhoso, gigantesco, e ver aumentar o número de fãs, de ouvintes e de pessoas querendo conhecer mais dessa cultura é emocionante.
Eu sou uma artista independente. Sou eu quem investe no meu trabalho junto com a minha equipe. Não teve uma grande marca, um grande investidor ou uma política pública bancando esse sonho. É tudo feito com muito amor, dedicação e coragem.
E eu espero que essa história também mude, que, no próximo álbum, eu possa ver mais marcas e mais investimentos chegando, porque eu quero viver essa experiência também. Mas tenho muito orgulho de ser a investidora da minha própria carreira. E, quando a gente terminou o Rock Doido, eu pensei: “Cara, isso aqui está tão incrível que eu não vou precisar explicar. As pessoas vão ver e vão entender.” E é exatamente isso que está acontecendo. Ver esse movimento crescer desse jeito me deixa muito otimista e muito feliz.
Qual foi a última coisa que você fez questão de celebrar, mesmo quando quase ninguém estava prestando atenção?
Uma coisa que eu aprendi com a vida e com a música foi celebrar sempre as vitórias, grandes ou pequenas.
Isso é um ritual muito importante para mim. E ele passa pelo champanhe, porque, desde que atingi a maioridade, essa bebida simboliza celebração na minha vida. Desde a época daquelas “champanhotas” que a gente comprava na periferia por um precinho até hoje, quando posso escolher um champanhe mais especial. Para mim, toda conquista merece uma taça. Ninguém precisa estar olhando.
Eu tenho caixas e caixas aqui em casa e, sempre que acontece alguma coisa boa — fechamos mais um contrato, mais um festival, uma marca, um prêmio para o Rock Doido, um número importante —, eu faço questão de abrir uma garrafa e agradecer. E não celebro só as minhas vitórias. Celebro as dos meus amigos, da minha família e de todo mundo que faz parte desse projeto. É um momento em que eu agradeço muito a Deus, aos meus santos, aos meus orixás, aos meus guias. Eu sou uma mulher de muita fé. A espiritualidade sempre me acompanha, me protege e me fortalece.
Então eu faço questão de agradecer por tudo, desde as menores conquistas até as maiores.
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Conversamos também com Amanda Bittar, diretora-geral, e Guilherme Tavares, diretor artístico, sobre os artistas que ainda esperam ser descobertos, os bastidores que nunca aparecem nas fotos e o que mantém um festival vivo durante dez anos. Eles montaram uma playlist exclusiva para o deepbeep. Uma seleção que ajuda a contar a história do Favela Sounds pelas músicas que marcaram sua trajetória.
▶︎ Amanda, existe um momento do festival que nunca aparece nas fotos, mas explica por que ele existe?
Acho que o momento que não aparece nas fotos é o longo processo para tirar esse grande filho do chão todos os anos. São nossas duas cabeças, a minha e a de Guilherme, matutando um ano inteirinho sobre cada edição. As trocas criativas, o apoio emocional que damos um ao outro, o simples compartilhar dos perrengues e das frustrações, mas também dos momentos de graça e encanto a cada passo dado. Nossa balancinha de cabeça que voa longe e os pezinhos bem fincados no chão, se equilibrando ano após ano.
▶︎ Guilherme, em que momento você percebe que um artista ainda não encontrou todo o público que merece?
O artista de favela quase nunca encontra o público que merece. Na verdade, essa é uma realidade muito ingrata, porque existe talento demais para investimento de menos.
O que a gente faz é selecionar pouquíssimos artistas diante de uma infinidade de narrativas. Acompanhando a rotina e a evolução dos estilos da música de periferia, a gente percebe que eles estão profundamente ligados às vivências de cada povo.
É isso que faz dessas cenas algo tão potente e tão bonito de ver no palco: a força de quem vem junto, na energia emanada por uma comunidade inteira reverberando no sucesso daquilo. Cada show é único porque cada quebrada é única.
Mas os nossos esforços ainda estão longe de dar conta da dimensão desses universos. O que conseguimos apresentar é uma amostra quase ínfima da força que as periferias brasileiras têm na criação, na reinvenção e no desenvolvimento dos nossos patrimônios criativos. Ainda há muito mais para ser visto, ouvido e reconhecido. A gente tem o costume de programar artistas quando eles ainda estão dando seus primeiros passos. Para muitos, o Favela Sounds é o primeiro grande festival da carreira. Para outros, é um espaço de amadurecimento, de experimentar um palco maior, enfrentar grandes plateias e consolidar a trajetória. Se a gente quisesse representar, de fato, a riqueza das cenas musicais das periferias brasileiras, seriam necessários uns mil Favela Sounds acontecendo ao longo do ano, apostando em quem ainda está começando e iluminando talentos que, muitas vezes, seguem invisíveis para o restante do mercado. O que chega ao nosso palco é apenas uma fração de um universo criativo muito maior. E o desafio é criar cada vez mais espaços para que essa música possa ser ouvida.
★ Favela Sounds 10 anos – O Baile
De 31 de julho e 1º de agosto de 2026
Das 18h às 03h30
Praça do Museu Nacional da República (Esplanada dos Ministérios), Brasília, DF
Entrada franca
Ingressos gratuitos: AQUI
Classificação indicativa: 18 anos
Transmissão ao vivo através do YouTube do Favela Sounds
Acompanhe o Favela Sounds
Site Favela Sounds
Favela Sounds no Instagram
Favela Sounds YouTube
Agradecimentos à Carolina Martins da Karô Comunicação
Ouça a playlist de Gaby Amarantos no seu player preferido
As músicas escolhidas por Gaby Amarantos ampliam a conversa publicada no deepbeep. Belém, Amazônia, encontros, memória e celebração aparecem menos como referências do que como lugares de pertencimento. Uma seleção que ajuda a entender por que, para Gaby, nenhuma trajetória existe sozinha.
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