
Com Gabriela Grigolom, o cinema encontra uma nova maneira de construir histórias.
Gabriela Grigolom passou anos criando antes de se chamar de artista. A poesia em Libras veio de experiências que voltavam, mesmo quando ainda não pareciam prontas para virar obra. Ela passou pelo teatro, pela poesia sinalizada e pela direção. Agora chega ao cinema como protagonista de “Nem Toda História de Amor Acaba em Morte”, de Bruno Costa, em cartaz nos cinemas brasileiros.
No filme, interpreta Lola, uma jovem atriz surda, mãe e responsável por manter uma companhia de teatro formada por artistas surdos. A surdez atravessa a rotina da personagem, mas não define o conflito central. O longa chega aos cinemas com legendas e Libras incorporadas à projeção, além de recursos extras de acessibilidade pelo aplicativo PingPlay.
Filha de uma professora de artes visuais e de um músico, Gabriela cresceu acompanhando os pais em atividades artísticas. Na infância, percebeu que não acessava o teatro como as outras crianças. Anos depois, começou a criar seus próprios espaços na arte surda. Chegou à poesia, ao slam e à direção. Hoje é uma referência para quem ainda procura onde colocar sua produção artística.
No teatro, Gabriela estava acostumada a construir a cena inteira. No cinema, precisou lidar com uma câmera que escolhe o que será visto e transforma pequenos movimentos em parte da atuação. A estreia também coloca sua experiência diante de uma linguagem diferente, agora no centro de uma história que chega a salas de todo o país.
Na conversa com o deepbeep, Gabriela volta a experiências que demoraram para virar arte, fala do que muda quando uma pessoa surda ocupa o centro de uma produção e do que Lola revelou depois que o filme ficou pronto. A videolist comentada “O Que Ela Vê” continua essa conversa a partir de referências que acompanham sua formação. Pina Bausch, Negabi, Leonardo Castilho e Edinho Santos estão entre as escolhas, ao lado de imagens que passam por dança, poesia, performance e arte surda.
Por Claudio Thorne, social media
Com supervisão de Lísias Paiva, criador e editor.
Videolist comentada
por gabriela grigolom
▶︎ Na dança, Pina Bausch é uma artista que me inspira muito, além de outras experiências e linguagens.
▶︎ Negabi, como artista surda brasileira, venho construindo minha trajetória por meio da poesia, do Slam, do vídeo e da performance em Libras. Tenho interesse em conhecer e pesquisar diferentes artistas surdos brasileiros, especialmente nas áreas da dança, do teatro, da performance e da poesia sinalizada. Assim, minha trajetória como artista surda é construída por encontros, amizades, referências, resistência e criação. A poesia e o Slam se tornaram caminhos para expressar minha identidade, minha experiência como mulher surda e negra e minha relação com a comunidade surda. Quero continuar criando e fortalecendo uma arte surda brasileira que valorize a *poesia visual*, o corpo, a Libras, a memória, a resistência e o protagonismo dos artistas surdos.
▶︎ Edinho Santos foi uma pessoa que me apoiou e me incentivou. A partir dessa relação, comecei a pensar com mais força sobre como poderia desenvolver a poesia e o Slam em Curitiba. Essa experiência também me motivou a tentar construir aqui um espaço de resistência e criação, aproximando artistas surdos e fortalecendo a presença da poesia em Libras.
▶︎ Leonardo Castilho, também artista surdo e meu grande amigo, foi uma referência importante de motivação e resistência. Sua trajetória artística me ajudou a compreender ainda mais a potência da arte surda e a importância de nós, artistas surdos, construirmos nossos próprios caminhos.
Gabriela, tem alguma coisa que aconteceu com você e demorou para virar arte, mas continuou voltando?
Sim. Muitas coisas que aconteceram na minha vida demoraram para se transformar em arte. Minha vida pessoal, minhas experiências como mulher surda e negra e minha trajetória como artista se misturam. Passei por situações emocionalmente difíceis e também por momentos bons, e tudo isso foi voltando para mim através da poesia, do teatro e da música.
Com o tempo, percebi que essas experiências podiam se transformar em força e em criação artística. Também foi um processo de autoconhecimento. Demorou para eu descobrir e reconhecer: eu sou uma artista surda. Hoje, quero transformar minhas experiências em arte e também valorizar e fortalecer outras pessoas surdas, mostrando que nós existimos como artistas e podemos ser referência.
O que você costuma perceber primeiro numa pessoa?
Eu percebo primeiro se existe abertura para se comunicar e para conhecer o outro de verdade.
Durante muito tempo, eu via poucas pessoas surdas ocupando espaços como atrizes e protagonistas no cinema. Por isso, quando uma pessoa surda aparece em uma produção brasileira em um papel de destaque, isso tem um significado muito importante para mim. É uma forma de mostrar que existem artistas surdos brasileiros e que precisamos ampliar cada vez mais esse espaço.
No teatro, você constrói o espaço inteiro da cena. No cinema, a câmera escolhe uma parte dele para mostrar. O que a câmera te fez descobrir sobre a sua própria atuação?
Foi um grande desafio e, ao mesmo tempo, uma oportunidade de aprender coisas novas. No teatro, eu estou acostumada a construir a cena de uma maneira mais ampla. No cinema, precisei entender que a câmera escolhe o que o público vai enxergar e que pequenos movimentos, olhares e expressões podem ter muita força.
Também aprendi muito sobre comunicação visual e sobre o processo de produção cinematográfica. A direção me ajudou a compreender outras formas de construir uma cena e de me comunicar dentro do cinema.
Interpretar Lola também me trouxe experiências novas, inclusive em situações do cotidiano da personagem, como momentos em casa, na cozinha e em diferentes relações. Tudo isso ampliou minha percepção sobre minha própria atuação.
Escolha uma foto que você tirou e que acha que merece ser olhada duas vezes. O que você viu nela?
Eu vou escolher uma foto que, para mim, tem alguma coisa além da primeira imagem. Uma fotografia pode guardar uma memória, uma sensação ou uma história que nem sempre aparece imediatamente.
Quando olho novamente para uma imagem, procuro perceber os detalhes, o corpo, o olhar, o espaço e aquilo que eu estava sentindo naquele momento. Para mim, olhar duas vezes é descobrir uma nova camada da história.
Lola entra nessa história de amor achando que encontrou uma coisa e acaba entrando em uma situação muito mais complicada. Sem entregar o que acontece, em que momento você acha que o público começa a perceber que aquela história não vai ser exatamente o que parecia?
Acho que o público vai perceber aos poucos, porque existem situações da história que podem lembrar experiências da vida real. Para mim, Lola mistura ficção e realidade de uma maneira muito forte. Ela é uma mulher surda, negra, mãe solo, artista e LGBTQIAP+. Então, existem muitas camadas na personagem e muitas experiências que dialogam com a realidade de mulheres que precisam lutar para ocupar seus espaços. Lola também carrega luta, resistência e desejo de viver. A surdez não é o limite da personagem. Ela é uma mulher que ama, deseja, trabalha, cria, enfrenta conflitos e busca seu próprio caminho.
Depois de ver o filme pronto, teve alguma coisa em Lola que você passou a enxergar de outro jeito?
Sim. Depois de ver o filme pronto, passei a enxergar Lola de outra maneira. Eu gostei muito de perceber alguns momentos engraçados e também essa personalidade forte dela. Lola é uma mulher sapatão, artista e cheia de contradições, mas, acima de tudo, é uma personagem muito importante para mim. Ela representa a existência de uma atriz surda, de uma artista surda e de uma diretora de teatro surda ocupando um espaço no cinema. Isso é muito significativo.
Eu também fico pensando no futuro dessa história. Tenho esperança de que essa relação entre Maya e Lola possa continuar e que possamos conhecer ainda mais essas personagens em uma possível segunda parte.
Para mim, imaginar esse futuro também é imaginar novas possibilidades: uma mulher surda, mãe, artista, vivendo suas relações, sua maternidade e sua vida com liberdade. É uma imagem de futuro e esperança para outras pessoas surdas.
Acompanhe o trabalho de Gabriela Grigolom
Gabriela Grigolom no Instagram
“Nem Toda História de Amor Acaba em Morte” no Instagram
Agradecimentos à Alice Ferreirinho da FT Estratégias pela conexão
.
.
A música organiza mais coisas do que parece. Toda semana, novas entrevistas, playlists e conversas sobre cultura, comportamento e o mundo que existe ao redor do som. Assine a newsletter do deepbeep no Substack.
Para projetos, parcerias e curadoria cultural: falecom@deepbeep.com.br