
Morena Cardoso, criadora da DanzaMedicina, investiga como o movimento pode interromper gestos automatizados, abrir caminhos de percepção e mudar nossa relação com o próprio corpo.
A gente aprende a sentar, andar, ocupar espaço, cumprimentar, conter gestos e ajustar a postura. Boa parte desses movimentos se torna tão habitual que deixa de ser percebida. O corpo segue repetindo códigos que ajudam a organizar a vida em sociedade, mas que também delimitam as maneiras de agir, sentir e se relacionar. Para Morena Cardoso, a dança pode abrir uma brecha nesse repertório aprendido.
Psicoterapeuta corporal, mestre em Psicologia Clínica, escritora e criadora da DanzaMedicina, Morena pesquisa as relações entre corpo, arte, clínica e feminismos. Seu trabalho já passou por mais de 15 países. No Lost & Found, ela leva essa pesquisa para o contexto de um festival que aproxima música, natureza, movimento e outras formas de experiência. A proposta parte de uma pergunta que vai além da dança como expressão artística ou atividade física. O que acontece quando deixamos de executar movimentos conhecidos e começamos a perceber o corpo enquanto ele se move?
Morena chama essa possibilidade de desobediência coreográfica. A ideia não depende de dominar uma técnica ou aprender uma sequência de passos. Passa por experimentar gestos menos habituais, reconhecer padrões que se instalaram ao longo da vida e descobrir outras formas de ocupar o espaço. Na conversa com o deepbeep, ela aproxima essa experiência da neuroplasticidade, da comunicação não verbal e do encontro entre pessoas. Também fala sobre o que pode acontecer quando uma prática geralmente realizada em ambiente terapêutico encontra participantes que chegam por curiosidade, em um espaço aberto.
A música acompanha esse trabalho por uma via pessoal em “O Corpo Escuta”, playlist que Morena preparou para o deepbeep. A seleção reúne diferentes momentos e modos de ouvir, de músicas para dançar, estudar ou dirigir, a faixas que convidam a prestar atenção na complexidade do som e da estrutura musical. Entre as escolhas que ela destaca estão “Manos Blancas”, de Ximena Castro, que tem ouvido com frequência e descreve como uma música-manifesto que lhe dá força e inspiração, e “Your Ancestor”, de Nynke Laverman, que imagina como um diálogo entre gerações futuras e nós.
Lísias Paiva, criador e editor
Claudio Thorne, redes e comunidade
Mateus Nicastro, arte
Morena, você trabalha há anos com movimento, mas existe uma diferença enorme entre mandar alguém se mexer e fazer uma pessoa realmente perceber o próprio corpo. Em que momento você percebe que essa mudança aconteceu?
Acho interessante quando as pessoas sugerem que exista uma dança livre. Na minha perspectiva, uma dança inteiramente livre nunca é possível, partindo do pressuposto de que o corpo possui um repertório gestual constituído ao longo de sua história, a partir de processos de domesticação, controle e disciplinarização. E não existe necessariamente nada de errado nisso. Afinal, é também por meio desses processos que aprendemos a existir enquanto seres sociais e a nos tornar funcionais dentro de determinadas estruturas e convenções.
O problema começa quando esses movimentos se tornam automatizados, quando nossos repertórios se cristalizam e passamos a reproduzir, quase sempre inconscientemente, os mesmos gestos, as mesmas posturas, os mesmos modos de ocupar o espaço e de nos relacionar com o mundo. É aí que me interessa pensar a dança não exatamente como um exercício de liberdade, mas como uma possibilidade de desobediência coreográfica, de anarquia gestual. Porque, quando deixamos de simplesmente mover o corpo e começamos a percebê-lo em movimento, abrimos a possibilidade de experimentar outros caminhos. Não apenas para o gesto, para a expressão, para a espontaneidade e para a autenticidade, mas também para a própria organização do sistema nervoso. Sabemos que a dança pode favorecer a neuroplasticidade e contribuir para a saúde neurológica, inclusive como prática complementar no cuidado de algumas doenças neurodegenerativas.
Isso significa que, quando experimentamos movimentos menos habituais, novas coordenações e outras possibilidades de relação com o próprio corpo, também mobilizamos processos de aprendizagem e reorganização neural. E isso me parece extraordinário. Porque não estamos falando apenas de ampliar um repertório de movimentos. Estamos falando de ampliar nossas possibilidades de percepção, de criação e de resposta diante da vida. De interromper, ainda que momentaneamente, aquilo que se tornou automático. De experimentar outras maneiras de sentir, de agir, de nos relacionar conosco e com aquilo que nos cerca. E, quem sabe, ao descobrir que podemos nos mover de outras maneiras, também possamos descobrir que existem outras maneiras de viver. Outras maneiras de nos perceber. Outras maneiras de nos relacionar. E, sobretudo, outras possibilidades de mundo.
A DanzaMedicina passou por diferentes países e contextos. O que você aprendeu sobre as pessoas observando como diferentes lugares dançam?
Ao longo da minha trajetória, já trabalhei em mais de 15 países. E uma das coisas que mais me impressionam nessas experiências é perceber como a dança, apesar das inúmeras diferenças culturais e sociais, aparece em contextos tão diversos como uma possibilidade de expressão, encontro e construção de sentido. Existe algo extraordinário nessa experiência compartilhada.
A dança pode favorecer processos de sincronização interpessoal, de comunicação não verbal e de sintonia afetiva. Nossos sistemas nervosos não existem isoladamente. Eles também são influenciados pelas relações, pelas trocas, pela percepção e pela resposta aos movimentos e às expressões dos outros.
É nesse encontro que podemos experimentar formas profundas de empatia e reconhecimento mútuo. Então, imaginem o que significa colocar o corpo em movimento de uma maneira não padronizada, experimentar gestos que escapam aos nossos repertórios habituais, permitir-se uma expressão mais espontânea e, portanto, potencialmente mais vulnerável, dentro de um espaço em que outras pessoas também estão se expondo, percebendo e sendo percebidas.
É como se, no nível da experiência corpórea, pudéssemos afirmar: eu posso ser quem sou, posso me mostrar na minha singularidade, na minha vulnerabilidade, e ainda assim encontrar um lugar de reconhecimento e pertencimento. E não apenas ser vista, mas também encontrar o outro a partir desse mesmo lugar. E isso, para mim, é muito bonito e profundamente humano.
Seu trabalho parte do corpo, mas você também escreve, pesquisa e trabalha com psicologia clínica. Em qual desses lugares você costuma descobrir algo que os outros ainda não tinham percebido?
Eu acho que a grande descoberta vem acontecendo justamente na intersecção desses dois campos: pensar a clínica como um processo de elaboração de si e o corpo como um território de investigação e acesso àquilo que ainda não encontrou linguagem. Àquilo que ainda escapa à possibilidade de nomeação, que permanece inscrito em nossos modos de existir, nos gestos, nas posturas, nas tensões, nos padrões de movimento e, sobretudo, naquilo que emerge espontaneamente quando colocamos o corpo em jogo.
Então, claro, não se trata de substituir a linguagem verbal pela corporal, nem de supor que o corpo contenha verdades ocultas a serem decifradas. Trata-se de reconhecer que a experiência humana excede aquilo que a gente é capaz de contar sobre nós mesmos. Ou seja, trazer o corpo para o processo de elaboração de si permite ampliar nossas possibilidades de percepção, elaboração, autoinvestigação e transformação.
Tem algum gesto, hábito ou movimento que você incorporou à sua vida e que mudou a maneira como você atravessa um dia comum?
Inspirar profundamente pelas narinas e soltar o ar lentamente pela boca, emitindo um som suave e longo, enquanto distensiono o corpo junto à expiração. Ensino isso a todas as minhas alunas, o tempo todo! 🙂
Você vai levar a DanzaMedicina para o Lost & Found. O que te interessa em colocar esse trabalho dentro de um festival que reúne música, corpo, natureza e outras formas de experiência?
Eu gosto de desafios. Geralmente, meu trabalho acontece dentro de um setting terapêutico, com contornos muito bem definidos. E a possibilidade de levar essa experiência para um espaço aberto, com pessoas que chegam de maneira espontânea, me instiga particularmente.
Todas as experiências que tive em festivais, como o Boom Festival, em Portugal, o Spirit Weavers Gathering, na Califórnia, e o Happiness Fest, no México, foram muito positivas, sobretudo por me permitirem perceber o quanto o corpo é poroso e desejoso de experiências que extrapolam a cotidianidade, que interrompem, ainda que momentaneamente, os automatismos da vida em rotina.
É muito bonito perceber como pessoas que, muitas vezes, nunca tiveram a oportunidade de experimentar o próprio corpo a partir de uma dimensão mais sensível, sutil e subjetiva podem ser profundamente tocadas por práticas aparentemente tão simples, mas capazes de mobilizar dimensões tão primordiais da experiência humana.
Há algo de muito potente nessa possibilidade de criar, mesmo fora de um contexto terapêutico convencional, um espaço de encontro, percepção e experimentação de si. De descobrir que, às vezes, basta um pequeno deslocamento da maneira habitual de habitar o próprio corpo para que outras sensibilidades e possibilidades de existência comecem a emergir.
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O Lost & Found reúne música, esporte e bem-estar numa experiência que não gira em torno de uma única atividade. A proposta é ocupar o dia de diferentes maneiras, alternando movimento, música, descanso e convivência.
A música atravessa três palcos com Rael, André Frateschi, Rachel Reis, Luísa Viscardi, Sarah Stenzel, DanzaMedicina, Coy Freitas b2b DCozta e Gop Tun DJs, com Caio Taborda e Nascii. A programação também inclui breathwork, sound healing e danzamedicina.
Fora dos palcos, há trail runs de 5 km e 10 km, yoga, spinning, treinamento funcional, aqua float e uma área de recovery. Talks sobre saúde, comportamento, qualidade de vida e longevidade ampliam a conversa para além da música e do exercício. O festival também conta com gastronomia, recreação infantil e acesso pet friendly.
A ideia é ter diferentes experiências acontecendo no mesmo lugar, sem precisar escolher uma única maneira de viver o festival. Correr, dançar, experimentar uma prática nova, encontrar amigos ou fazer uma pausa. O dia comporta tudo isso.
★ Lost & Found Festival ★
Sábado, 14 de novembro de 2026
Das 8h às 18h
Local Arena IMTB, Mairiporã, SP
Corrida percursos de 5 km e 10 km
Ingressos Ticket Sports
O deepbeep é parceiro do festival. Use o código DEEPBEEP10 para garantir 10% de desconto no ingresso.
Ingressos e informações em lostandfound.com.br
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Fotos por Helena Cooper, Karolina Fafińska, Luiza Ananias, Manuella Secco, Renata Chebel, Renata Peixer
Agradecimentos à Gabriela Schwartz e Lara Moraes da Combo Comunicação
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A música tira o corpo do automático. Morena Cardoso pesquisa esse caminho com a DanzaMedicina e reúne na playlist “O Corpo Escuta” faixas que despertam outras formas de perceber e dançar. A conversa continua no Lost & Found.
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