
Entre memes que viram música e um disco que olha para o futuro, Amanda Magalhães encontra humor nas contradições do presente e desconfia dos hábitos que aprendemos a chamar de normais.
Uma fala de celebridade, um vídeo que circula pelas redes, uma situação tão absurda que parece inventada. Para Amanda Magalhães, esse material pode render mais do que alguns segundos de entretenimento. Pode virar música. Criado por ela, o memixe parte de conteúdos que já circulam pela internet e os transforma em colagens musicais. A graça está no reconhecimento, mas também no que acontece depois que a gente ri.
A artista tem um interesse particular por essas situações em que o humor encosta em algo incômodo. A exposição da vida privada, a relação com as telas, a culpa por descansar e a disponibilidade permanente aparecem numa época em que muita coisa é aceita sem discussão. Uma piada pode tornar essa contradição visível antes que a gente encontre palavras para explicá-la.
Em Era Uma Vez o Amanhã, seu terceiro álbum, Amanda desloca o olhar para o futuro e para as escolhas que estão moldando o presente. Neta de Oberdan Magalhães, fundador da Banda Black Rio, ela cresceu cercada de música, mas construiu uma linguagem própria, alimentada por referências diversas e pelo interesse em observar o mundo à sua volta.
Na conversa com o deepbeep, Amanda fala sobre o que faz uma situação cotidiana merecer uma canção, os comportamentos que podem parecer inexplicáveis daqui a vinte anos e a possibilidade de pensar questões sociais sem deixar o corpo de fora. Para ela, dançar e pensar nunca foram atividades incompatíveis.
A playlist Nunca Tinha Reparado acompanha essa conversa com músicas que fizeram Amanda prestar atenção de outro jeito. Porque ouvir de novo também pode mudar o que a gente pensava ter entendido.
Por Claudio Thorne, redes e comunidade
Com supervisão de Lísias Paiva, criador e editor
Arte por Mateus Nicastro
Em que momento uma brincadeira deixa de ser só uma brincadeira e começa a revelar alguma coisa sobre o tempo em que a gente vive?
Acho que isso acontece quando a gente ri e, logo depois, sente um pequeno desconforto. Muitas das minhas músicas e dos conteúdos que faço nascem desse lugar: uma situação parece absurda, mas é reconhecível demais para ser apenas uma piada. O humor tem essa capacidade de baixar a guarda das pessoas e, quando elas percebem, já estão refletindo sobre algo que talvez rejeitassem se fosse apresentado como discurso. Para mim, a brincadeira se torna reveladora quando expõe o que aprendemos a tratar como normal.
O que uma boa música percebe antes da gente?
Uma boa música percebe aquilo que ainda não conseguimos nomear. Às vezes é uma mudança de comportamento, uma angústia coletiva, uma contradição social ou até o fim de uma relação que ainda não tivemos coragem de admitir. Ela capta uma sensação que já tá circulando, mas ainda não virou pensamento organizado. Depois que a música diz, parece óbvio, como se aquilo sempre tivesse estado diante da gente.
O que faz você perceber que um detalhe merece virar canção?
Geralmente é quando aquele detalhe, apesar de pequeno, contém uma história muito maior. Uma frase ouvida na rua, um gesto, uma expressão popular, uma manchete absurda ou uma contradição do cotidiano pode revelar toda uma estrutura. Gosto especialmente de coisas que provocam sentimentos ambíguos, sabe? Quando não sei se rio, se me revolto ou se faço as duas coisas ao mesmo tempo. Se um detalhe continua voltando à minha cabeça, é porque provavelmente tá pedindo uma canção.
Qual comportamento de hoje você desconfia que vai parecer muito estranho daqui a vinte anos?
Acho que vai parecer muito estranho o fato de termos entregado voluntariamente tantos dados, desejos, medos, rostos e momentos íntimos pra plataformas que lucram tentando prever e influenciar nosso comportamento. E de termos chamado isso simplesmente de “estar conectado”. Talvez as próximas gerações olhem pra nossa relação com as telas como hoje olhamos pra antigos hábitos que pareciam perfeitamente normais em outra época. Também espero que considerem estranho a gente ter transformado descanso em culpa e disponibilidade permanente em virtude.
Qual conversa você gostaria que a música brasileira estivesse provocando mais?
Gostaria que a gente falasse mais sobre o futuro que estamos construindo. E sobre quem terá o direito de habitá-lo. Isso passa pela crise climática, pelas novas tecnologias, pelo trabalho, pela desigualdade e também pelas estruturas coloniais que continuam organizando o Brasil. Mas gostaria que essa conversa acontecesse sem abrir mão da imaginação. A música brasileira sempre soube fazer crítica enquanto movimenta o corpo. Acho que dançar e pensar nunca foram coisas incompatíveis.
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Fotos por Lívia Mariah
Agradecimentos à Thais Ribeiro, da TR Assessoria, pela conexão
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Na playlist “Nunca Tinha Reparado”, Amanda Magalhães escolhe músicas que a fizeram notar algo que antes passava batido.
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