
Entre música, festivais e projetos autorais, Gabriel Cevallos fala sobre o que acontece quando uma ideia encontra outras referências, artistas e públicos.
Uma ideia entra no mundo com uma intenção. Depois encontra outras pessoas, outras referências e acontecimentos que ninguém tinha planejado. O resultado pode tomar outra direção sem deixar de carregar a ideia que o colocou em movimento. Foi o que aconteceu com uma residência artística entre Porto Alegre e Liverpool. A artista cearense Trojany realizou uma performance na rua. No dia seguinte, um brasileiro encontrou as oferendas, gravou um vídeo e publicou nas redes. O vídeo viralizou, provocou discussões entre os envolvidos e acabou incorporado à própria obra, apresentada na galeria.
Gabriel Cevallos cria situações em que esse tipo de desdobramento pode acontecer. DJ, curador e produtor cultural, idealizador do Kino Beat Festival, ele já teve uma coluna no deepbeep, a Sangria Digital, e hoje também dirige e programa o Festival Avante e o projeto continuado Farol.live, no Farol Santander. Em seus projetos, uma escolha pode abrir espaço para outra, e o que acontece depois nem sempre estava previsto no começo.
Na entrevista ao deepbeep, Cevallos fala sobre aproximar referências aparentemente contraditórias, construir narrativa por meio de uma sequência de músicas, os encontros improváveis que nasceram de seus eventos e residências e a decisão de colocar uma descoberta diante do público antes de considerar que ela está pronta. Também olha para as transformações tecnológicas, políticas, econômicas e climáticas que podem alterar a criação artística e as cenas culturais.
A playlist “Uma Coisa Levou à Outra” reúne músicas de diferentes épocas, memórias recentes e antigas e curiosidades que continuam se renovando. Algumas marcam. Outras ficam para sempre.
Lísias Paiva, criador e editor
Quando duas referências passam a conversar e deixam de ser apenas coincidência?
Dependendo do tipo de conversa que se busca, talvez nem precise de duas referências. Uma a uma, mesmo díspares, podem gerar um diálogo. Me interessa muito a aproximação de coisas que sejam aparentemente contraditórias, conflitantes, opostas ou mesmo distintas. Uma conversa truncada também é uma conversa.
Com isso quero dizer que a harmonia pode surgir na diferença, nos contrastes: silêncio e barulho, introspecção e expansão e por aí vai. E também na justaposição mais suave, imperceptível, sem fricção, numa conversa fluida entre elementos que têm pontos de contato mais aparentes.
A coincidência some, no que estamos chamando de conversa, quando existe uma intenção em provocar. Tento pensar e direcionar o que faço sempre a partir do que vai causar no outro.
O que uma boa sequência de músicas entende sobre narrativa que uma playlist aleatória nunca consegue construir?
Como DJ, e tendo aprendido a tocar com vinil, existe uma lógica de sequências criada na escassez da mídia física, que é a de conhecer cada parte da música, suas camadas, viradas e efeitos nas pessoas.
Isso claramente diminui com a explosão das mídias digitais nos últimos vinte e poucos anos e se reflete na criação de playlists e de sets, o que não quer dizer que a narrativa esteja perdida. Ficou mais difícil por um paradoxo, em que tamanha abundância de músicas pode causar confusão na escolha, que se soma a uma redução geral na capacidade de atenção em todos os sentidos.
Dito isso, uma narrativa musical criada com uma intenção clara, costurando músicas em uma sequência pensada, é uma arte deliciosa.
Você trabalha criando conexões entre artistas, pessoas e ideias. Qual encontro mais improvável acabou fazendo sentido?
A possibilidade de trabalhar a partir das suas ideias é algo que sempre me fascina. Botar algo no mundo que tenha vindo da sua cachola e que reverbere nas pessoas é entusiasmante. E a direção que essas ideias tomam, se materializando em conexões, encontros, objetos, experiências etc., às vezes é imprevisível e você não está mais totalmente no controle.
Encontros improváveis, como pessoas que se conheceram nos meus eventos, casaram e tiveram filhos, o que é um efeito secundário na hora de pensar em algo, mas é absolutamente transformador para a vida e a criação de uma família, que talvez não existisse se não fosse aquela sua ideia de fazer aquele evento, naquele dia, na hora e no formato.
Uma lembrança ainda fresca do ano passado é quando desenvolvi uma residência artística para artistas digitais brasileiros e ingleses, em Porto Alegre e Liverpool, e uma das artistas era a cearense Trojany. Parte do seu trabalho foi fazer uma performance que era uma espécie de despacho de Candomblé, na rua em Liverpool.
Uma vez feito o trabalho na rua, no outro dia passou um brasileiro aleatório e viu as oferendas, gravou um vídeo dizendo que existiam “macumbeiros” na Inglaterra, em tom jocoso, mas com surpresa e um tanto orgulhoso. O vídeo viralizou, levantou diversas discussões para nós envolvidos e acabou virando parte da obra da artista, que foi exposta na galeria.
Isso, para mim, é uma cadeia de encontros e ações improváveis que pode ser canalizada em algo que faça sentido. Tentar organizar e encapsular a aleatoriedade da vida através de gestos de criação, acho que pode ser uma síntese, através desse exemplo, do que é trabalhar “criando conexões entre artistas, pessoas e ideias” que está posta na pergunta.
Existe algum detalhe que costuma indicar que uma cena cultural está prestes a mudar?
Um detalhe não saberia dizer. Penso mais em questões estruturais, como transformações tecnológicas, mudanças políticas, geracionais, econômicas e climáticas, cada vez mais. Como fazer arte em um mundo em chamas? Ou alagado? A experiência de ter vivido a enchente de 2024 em Porto Alegre, a maior da sua história, foi um fato muito marcante, e de detalhe não tem nada, mas mostra como a vida é frágil, e quem dirá as cenas culturais, que vão para o fim da fila nesses momentos, como na pandemia também foi visto.
Estou curioso para saber como, ao redor do mundo, as mudanças climáticas vão alterar a criação artística e as cenas culturais, seja por causa de deslocamentos, falta de materiais e condições, ou pela subjetividade, o que pode transformar as linguagens artísticas de forma ainda totalmente incerta.
Não quero parecer catastrófico e, até desviando do detalhe que foi perguntado, essas questões estruturais me instigam bastante e acho que podem indicar alguns caminhos de respostas por um viés mais macro.
Como perceber que uma descoberta merece mais tempo antes de ser compartilhada?
Acho que, quanto antes algo instigante for compartilhado, melhor, mesmo que não esteja ainda totalmente “pronto”. Acredito que o artista e o trabalho circulando e expostos à crítica sejam a melhor prova de qualidade, e também de possível evolução, ajustes e mudanças de direção.
Penso que é melhor ir se transformando em público, tendo troca e exposição, do que maturar para achar um suposto momento certo. Claro que isso parte de um estágio mínimo e óbvio de produção, que tanto o artista quanto quem divulga o trabalho sabem que já pode ir para o mundo.
Depois de tantos anos pesquisando música e cultura, o que continua despertando sua curiosidade imediatamente?
De imediato, são coisas que eu nunca fiz, mas que têm algum tipo de relação com minhas pesquisas, ou que eu me veja fazendo e buscando entender, e que podem ser também totalmente diferentes do que faço.
Estou aberto a dar viradas de 360° nos meus interesses e atuações, como já fiz. Espero que ainda consiga dar outras voltas.
Existe também um tipo de intuição sobre quando estou buscando o que propor para as pessoas, seja em um festival, uma exposição, uma festa, uma mostra… Que me diz que tal coisa pode interessar, cativar, gerar algum tipo de estranhamento e movimento. Pode ser pelo ineditismo, pela radicalidade, pelo inusitado, pela memória, pela necessidade, pelo frescor, por um tipo de beleza. Minha curiosidade está atrelada a algum tipo de sensação e experiência que pode ser disparada através da arte.
Acompanhe o trabalho de Gabriel Cevallos
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Kino Beat por Gabriel Cevallos
Festival Avante por Gabriel Cevallos
Farol.live por Gabriel Cevallos
Sangria Digital por Gabriel Cevallos
Fotos por Cristiano Rangel e Leo Caobelli
Ouça a playlist de Gabriel Cevallos no seu player preferido
Uma música leva a outra. Uma memória puxa outra. Uma descoberta antiga reaparece de um jeito novo. Gabriel Cevallos reuniu músicas de diferentes épocas, lembranças recentes e antigas e curiosidades que continuam se renovando. Há faixas que marcam. Outras ficam para sempre.
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