
Antes de construir pontes entre funk, rock, hip-hop e música eletrônica, Fredi Chernobyl passou anos tentando entender de onde os sons vinham.
Fredi Chernobyl não consegue contar a própria história sem falar de curiosidade. Ela aparece quando lembra das festas que aconteciam atrás de casa, na Zona Norte de Porto Alegre. Aparece quando passa horas tentando entender de onde vinham os samples escondidos nos discos que escutava. Aparece no skate, no hip-hop, no rock, no soul, no Miami Bass e em praticamente todas as curvas da sua trajetória.
Antes de existir uma carreira, existia um ouvido atento. Um ouvido que nunca demonstrou muito interesse pelas fronteiras que organizavam as cenas musicais dos anos 1990. Enquanto muita gente escolhia um lado, Fredi passava o tempo procurando conexões. Reconhecia Parliament dentro do Public Enemy. Misturava funk com rock quando isso ainda causava estranhamento. Encontrava pontos de encontro entre linguagens que, para outras pessoas, pareciam incompatíveis. Essa postura nunca aparece na conversa como uma bandeira.
Em vários momentos da entrevista, Fredi sugere exatamente o contrário. A mistura não foi uma escolha. Era apenas a forma como ele escutava música. Uma das frases mais reveladoras da conversa também é uma das mais simples. “Não escolhi não ser purista.” Ela ajuda a entender uma trajetória que atravessa bandas, rádio, MTV, pistas, festivais, estúdios e diferentes momentos da cultura brasileira sem jamais se prender completamente a uma única cena.
A playlist “Músicas Que Não Pediram Permissão” amplia essa visão de mundo. Entre Parliament, Funkadelic, Sly & The Family Stone, Rick James, Thundercat, Fugees, Eric B. & Rakim, Salt-N-Pepa e produções próprias, Fredi reúne músicas que atravessam gêneros, épocas e referências sem pedir autorização para existir. Na conversa com o deepbeep, Fredi Chernobyl fala sobre liberdade criativa, pertencimento e sobre por que algumas das melhores ideias da música nasceram justamente onde a curiosidade encontrou espaço para circular.
Lísias Paiva, criador e editor
Você atravessou rock, MTV, rádio, banda, televisão, internet, DJ set e várias versões da cultura brasileira sem parecer interessado em caber totalmente em nenhuma delas. O que fica mais divertido quando alguém para de tentar pertencer a uma única cena?
A liberdade de criação no momento de criação é muito legal. Mas há uma linha tênue: é preciso saber transitar com respeito. Sem mentira. Meus primeiros funks foram misturados com a minha realidade da época: underground, rock e punk. Acho que isso é um dos pontos que faz com que eu seja respeitado pelos relicários e arquitetos do funk, como Marlboro, Phabyo, Sany Pitbull, Deize Tigrona (que produzo tracks e com quem toco ao vivo muitas vezes) e MC Cidinho. Não escolhi não ser purista.
Dos 10 aos 13 anos de idade, fui baixista de um coral de músicas folclóricas e aprendi, na marra, a pulsação de sonoridades do mundo todo. Ao mesmo tempo, curtia guitarra de rock e meu esporte era o skate, o que me conectou com o hip-hop e despertou muita curiosidade para pesquisar de onde vinha tudo o que era montado nos beats. Amar rock, soul e Miami Bass é natural. Não me soa exótico misturar, pois tudo tem a mesma origem. Desde pequeno, sempre tive um ouvido atento.
Morava atrás de um clube da Zona Norte de Porto Alegre que tinha festas direto, e a sonoridade da black music sempre fazia meus olhos brilharem. Eu não conseguia dormir enquanto a festa não acabasse. Ficava na cama prestando atenção no som.
No começo dos anos 1990, lembro de quase chorar ao reconhecer um sample do Parliament no Public Enemy (a música “Get Off My Back” com sample de “Give Up The Funk”), e eu usava camisa de banda de rock. Essa situação ilustra bem quem eu sou e como eram os anos 1990 nas ruas.
Você lembra da primeira vez que ouviu uma música e percebeu que ela podia bagunçar completamente o clima de um lugar?
Quando o DJ Marlboro lançou o Funk Brasil, me apaixonei. Ao mesmo tempo, tive a nítida ideia de que algumas pessoas teriam preconceito sonoro, o que me incentivou, em gesto de admiração, homenagem e rebeldia, a programar beats na linguagem Miami Bass para a minha banda, Comunidade Nin-Jitsu. Foi isso que me conectou mais tarde com o Bonde do Rolê, que produzi e que me abriu portas para conhecer o mundo tocando sets semiautorais, em que eu basicamente fazia mashups de eletrônico com tamborzão e acapellas de funk, rap e pop, há 20 anos, na cena Global Bass.
Os DJs brasileiros que tocavam baile funk cosmopolita no exterior antes da era Instagram e Spotify eram Sany Pitbull, Chernobyl, Sandrinho, João Brasil, Edu K e DJ Edgar (R.I.P.). E os selos que lançavam nossas tracks eram de Berlim: Exploited Records e Man Recordings.
Você viveu épocas em que o gosto musical funcionava quase como uma identidade fixa. O que as pessoas ganharam e perderam quando as referências começaram a se misturar sem pedir autorização?
Acho que, em geral, se ganha muito com diversidade sonora, pois nos conectamos com pessoas de diferentes realidades, o que nos faz evoluir como seres humanos. E acho muuuuuito feio quando a mistura sonora é uma estratégia de marketing para penetrar numa fatia de mercado. Tipo sertanejo colocando o “tchum-tchá” do Mr. Catra ou elementos de trap.
Grande parte da sua trajetória parece construída sobre cruzamentos improváveis. Qual mistura continua causando estranhamento em gente excessivamente preocupada com pureza cultural?
Apesar de eu misturar funk com rock desde 1995, às vezes ainda me deparo com preconceito contra funk no meio rockeiro. Mas é raro. O pessoal está mais aberto hoje. Estou muito feliz em ser bem recebido ao adequar minha live performance com sampler MPC à cena jungle/drum’n’bass, aplicando técnicas de funk montagem nessa vibe. Tudo na mão, com virtuosidade agressivamente humana, mas também com suas imperfeições e improvisos, algo que faz falta hoje nesse mundo de IA e alguns fake DJs.
Depois de tantos anos observando shows, plateias, bastidores e pistas, qual comportamento humano continua exatamente igual independentemente da época?
O front é a resistência. A turma que se joga. São os anjos dos DJs. Gente que aprecia e se entrega. Amo demais. Mudam as pessoas, mas a energia sempre é aquela, vinda de um mesmo lugar livre.
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Fotos por Jess Porto
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