
Para ler a próxima década, Jorge Grimberg percebeu que o primeiro passo é ignorar o feed.
O melhor caminho para furar a bolha costuma nascer na frente de uma caixa de som. É nesse calor, onde a paixão coletiva ainda dita as regras, que o futuro dá as caras muito antes do mercado tentar vender a cópia. Jorge Grimberg usa a tática de fechar os aplicativos para rastrear esses sinais na desordem urbana e mapear o comportamento de uma época inteira. Essa escuta guiou a montagem da playlist do Futuro Próximo, um roteiro sonoro feito para você resgatar o próprio gosto e afinar o radar quando todos parecem beber da mesma fonte. Esse é o som de quem já entendeu que o futuro não vai ser anunciado por uma notificação.
Claudio Erbano, redes e comunidade
Seu trabalho é, essencialmente, ler o presente para decifrar o futuro. Onde você treina o seu olhar? O que, no comportamento das pessoas ou na estética de um lugar, funciona para você como um sinal de que um novo movimento cultural está nascendo?
Acredito que não existe um lugar para treinar o olhar, e sim que devemos aprender a observar a vida e estar abertos para ver as diferentes realidades à nossa volta. Nós vemos tanta coisa todos os dias no celular, mas o que realmente vemos? Os movimentos normalmente nascem em ambientes onde existe paixão. Pode ser um festival de música, uma semana de moda, um show, um destino de verão. Quando as pessoas se vestem em torno de algo que as emociona, estéticas originais podem nascer.
Você transita muito pelo universo da moda e do design. Para além da roupa ou do objeto, o que o desejo e a forma como consumimos hoje nos dizem sobre nossas ansiedades e aspirações mais profundas como sociedade?
Estamos em uma era em que, ao mesmo tempo que todos querem ser autênticos, a cultura dificulta o pensamento individual e até cria uma neblina entre nós e nossos desejos. Será que esse desejo é meu ou é do coletivo? Será que eu quero isso porque o algoritmo me mostrou muito ou porque é algo que eu realmente quero?
As bolhas criadas pelos algoritmos são uma grande inquietação. No seu trabalho, você precisa justamente furar essas bolhas para ter uma visão real. Como você faz sua curadoria de referências? E você acredita que os algoritmos mais nos ajudam ou nos atrapalham a entender o verdadeiro espírito do tempo?
Para sair das bolhas hoje, eu tenho que literalmente fechar o Instagram e o TikTok na hora de pesquisar e ir atrás das minhas referências. Pode começar com um post no Substack que me desperta uma ideia, uma pesquisa no WGSN que me provoca a pensar em algo, uma entrevista que li com um artista que me fez pensar em algo diferente. Eu hoje só consigo pensar fora do Instagram.
A música sempre foi um dos sinais mais claros de transformação cultural. No seu método de observação, o que exatamente você procura quando escuta uma cena ou um artista novo? É ali que você percebe primeiro as mudanças de comportamento que depois aparecem na moda, na estética e no mercado?
A música é provavelmente o mais forte termômetro cultural que influencia comportamentos. Ela expressa as emoções mais profundas das pessoas e também os estilos mais ousados de moda e beleza na busca por pertencer a determinada comunidade de um artista.
Quando vemos uma artista como Charli XCX, por exemplo, se apresentando com lingerie, bota e óculos escuros no Coachella, sempre com um drink e um cigarro na mão, fora do palco, ela representa milhões de pessoas que bancam ser quem são e são imperfeitas, sendo quem são. Em um show da Lady Gaga, os comentários dos fãs são: “Você me permitiu ser eu mesmo”. É uma força sem comparação o impacto da música no comportamento.
Depois de analisar tantas tendências e o futuro de tantos mercados, qual é a principal mudança de comportamento ou de mentalidade que você enxerga no horizonte e acredita que irá redefinir a nossa próxima década?
Depois de tantos anos nessa “policrise” (aquecimento global, saúde mental, custo de vida, guerras, crise econômica, etc.), a próxima década poderá ser marcada pela busca por soluções para todas essas crises e suas polarizações extremas. Os extremos que dominam todas as esferas da sociedade hoje em guerras ideológicas estão gerando mais solidão e separação do que harmonia e conexão. É tempo de as pessoas decidirem mudar e tomarem o tempo para descobrir como.
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