Deadcat e a pista depois da euforia

Entrevista e playlist do Deadcat para o deepbeep

Quando a madrugada perde nitidez, Deadcat transforma estranhamento e deslocamento em atmosfera sonora.

Deadcat parece mais interessado no que sobra da pista depois que a euforia já passou. Quando a madrugada desacelera, o excesso perde nitidez e a música começa a funcionar menos como descarga física e mais como atmosfera emocional.

Misturando dance music, pós-punk, ironia, melancolia e rock, Deadcat construiu um trabalho que nunca tenta estabilizar completamente emoção, gênero ou personagem. As músicas caminham entre sedução e estranhamento, sem decidir qual dessas frequências prevalecer.

Esse deslocamento aparece também na própria trajetória do artista. Depois de viver dos 13 aos 27 anos fora do Brasil, principalmente em Londres, Deadcat transformou não pertencimento em linguagem criativa. Não como ausência de identidade, mas como liberdade para circular entre referências, atmosferas e impulsos emocionais sem precisar organizar tudo em um formato definitivo.

Enquanto se prepara para a 7ª edição do Circuito, que atravessa São Paulo, Campinas, Sorocaba e Limeira entre os dias 28 e 31 de maio, Deadcat continua expandindo esse universo entre pista, ruído e atmosfera noturna.

Na conversa com o deepbeep, Deadcat fala sobre honestidade emocional, liberdade criativa, sedução, estranhamento e sobre por que certas músicas continuam interessantes justamente quando deixam de tentar funcionar o tempo inteiro.

A playlist “depois da meia-noite” acompanha esse momento em que a pista muda de temperatura e a madrugada começa a ficar mais estranha, íntima e imprevisível. Underworld, Fat White Family, Radiohead, Pixies e David Bowie aparecem como parte desse território onde a música deixa de funcionar só como euforia e começa a virar atmosfera psicológica.

Marcelo Nassif, sócio-editor

Seu trabalho mistura melancolia, pista, ironia e uma sensação constante de deslocamento. Em que momento você percebeu que não precisava organizar tudo isso para fazer sentido?
Acho que eu não me preocupo em fazer sentido, e sim em conter e acessar emoção. E a emoção varia. Com minha primeira banda, The Stick Figures, que formei em Londres em 2011, começamos o projeto sem pretensão, trabalhando as músicas só no estúdio. Nunca tínhamos tocado elas ao vivo, presenciado a interação delas com as pessoas fora da criação. Acho que isso fez com que eu me sentisse livre para não trabalhar a sonoridade pensando em um formato definitivo. A liberdade que tive para montar tudo do jeito que eu queria me levou a misturar emoções da forma como eu estava vivendo naquele momento, com pluralidade.

Você trabalha muito com referências da dance music, mas suas músicas nunca parecem feitas só para funcionar na pista. O que uma faixa precisa ter para continuar interessante depois do impacto inicial?
Eu tento não pensar muito nisso. Como dizia Leonard Cohen, “Se eu soubesse de onde vêm as boas canções, iria lá com mais frequência”. Produzo pensando no que sinto que a música está pedindo. Não sei exatamente o que deixa uma faixa atemporal, mas espero conseguir fazer algumas assim nessa vida.

Existe uma estética muito forte no universo do Deadcat, mas ela nunca parece totalmente explicada. O que você prefere deixar em aberto?
Acho que toda arte é aberta à interpretação. Para meu segundo disco, Goth Ranch, eu e meu diretor criativo, Matheus Veloso, criamos um personagem chamado Spaghetti Pete, um arquétipo um pouco mais definido. Ele é um cowboy meio Sancho Panza que protagoniza a narrativa do disco, mas isso também continua aberto à interpretação.

Você viveu muitos anos fora e voltou para o Brasil num momento muito específico. Em que momento essa sensação de não pertencimento virou linguagem?
Fiquei fora do Brasil dos 13 aos 27 anos. Foram anos muito importantes na minha formação, mas, antes de ir para a Inglaterra, eu já era anglófilo culturalmente. Com 3 anos eu já gostava de David Bowie. Quando surgiu a oportunidade de ir para Londres, fui sem pensar duas vezes.
Mesmo considerando Londres meu lar, sempre fui brasileiro com muito orgulho. Então acho que o primeiro lugar onde percebi que não pertencia completamente foi justamente lá, mesmo já tendo vontade de sair de Curitiba muito antes disso. O não pertencimento é um núcleo do Deadcat, e não acho isso ruim. Para mim, não pertencer é um sinal de liberdade.

Seu som parece oscilar o tempo inteiro entre sedução e estranhamento. O que te interessa nessa tensão?
Acho que essas duas coisas me representam muito como pessoa. Sou muito estranho, mas consigo me soltar de uma forma sedutora em alguns momentos, principalmente no palco, onde me sinto completamente à vontade. Que bom que isso aparece no som, porque é assim que me enxergo. O que me interessa nessa tensão é a honestidade dela.
Costumo dizer que sou uma pessoa de péssima primeira impressão. Ninguém me entende de cara. Causo esse estranhamento mesmo e flerto com ele.

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Fotos por Fred Othero e Victor Moriyama

Agradecimentos à Francine Ramos pela conexão

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