Curumin encontrou em Cassiano batidas que nunca tinha ouvido

Curumin em retrato, com fundo escuro, para entrevista sobre Cassiano e Cuban Soul: 18 Kilates. O conteúdo apresenta o músico, sua preparação para o show dedicado ao álbum e a playlist criada para o deepbeep.

Para tocar Cuban Soul: 18 Kilates inteiro, Curumin precisou aprender um disco que já conhecia.

Curumin já cantava “Onda”, de Cassiano, em apresentações de voz e violão. O restante de Cuban Soul: 18 Kilates, lançado em 1976, também era conhecido por ele. Faltava colocar o disco inteiro no corpo de um show.

No dia 3 de outubro, no Cine Joia, em São Paulo, o Laburê apresenta Cuban Soul: 18 Kilates com Curumin. O álbum completa 50 anos e Hyldon participa da noite como convidado especial. Um dos precursores da soul music brasileira ao lado de Tim Maia e Cassiano, Hyldon integrou Os Diagonais com Cassiano e Camarão em 1969.

Curumin tem mais de duas décadas de carreira e cinco álbuns solo, de Perro a Pedra de Selva, lançado em 2024. Baterista, cantor, compositor e produtor, construiu uma obra própria sem deixar a pesquisa rítmica em segundo plano. Os ensaios para o show trouxeram viradas que ele nunca tinha tocado. Algumas músicas trabalham com um compasso que ele nunca tinha ouvido no soul americano nem no brasileiro. “É uma coisa que realmente só ele fez, que eu saiba.”

Cantar Cassiano também coloca Curumin diante de uma questão de interpretação. Os arranjos originais permanecem como referência. A voz não pode ser reproduzida. “Só ele tem aquela impressão digital, impressão vocal. Só ele vai ter sempre.”

A conversa com o deepbeep passa por Cassiano, pela construção dos arranjos, pela gravação de 1976, pela transformação da escuta de Curumin ao longo dos anos e pela diferença entre estudar uma música e tentar reproduzir quem a criou. A playlist “O que Cassiano me fez ouvir” reúne as músicas que apareceram durante os ensaios.

Lísias Paiva, criador e editor

Você já tocava Onda antes de decidir encarar o disco inteiro. O que você descobriu sobre Cassiano quando deixou de conhecer algumas músicas e passou a conviver com o álbum inteiro?
Ah, eu já conhecia o resto do disco, mas eu realmente não tinha tocado, não tinha visto esse repertório com esse olhar. E é um superdesafio, porque a música do Cassiano tem essa linhagem do soul, da música soul brasileira, da música soul carioca também, mas ela é totalmente diferente de todas as outras. Ela tem um estilo muito único. E aí, estudando aqui pra tocar, é que a gente vai entendendo. Eu, por exemplo, vou tocar bateria também, e nas batidas eu nunca vi esse tipo de batida, os tipos de virada que ele usa ali no disco. Também tem algumas músicas, por exemplo, em que ele usa essa batida meio… A batida que ele faz não é de valsa, mas ele usa essa divisão de compasso que é de valsa, que é o ternário. Pum, tá, tá, tum, tá, tá, tum, tá. E isso também nunca ouvi no soul americano, no soul brasileiro. É uma coisa que realmente só ele fez, que eu saiba. Então, é desses artistas realmente preciosos, porque estudá-los é estudar todo um universo que não existe.

Quando você pega uma música de outra pessoa para tocar, o que precisa permanecer intacto para ela continuar sendo aquela música e no que você sente vontade de mexer?
Olha, quando eu faço homenagens, eu tenho essa pira de tentar manter os arranjos originais. Eles são a base, o nosso ponto de partida. Mas também, quando a gente tá executando, a gente estuda esses arranjos-base. Quando a gente tá executando, obviamente a expressão vai ser diferente, porque a gente tem nosso sotaque, tem o nosso jeito de tocar, o tempero. Isso vai ser diferente sempre. Então, eu, tocando Cassiano, por mais que eu tente fazer assim o mais estrito, parecido possível, ele vai soar diferente. E a intenção não é tentar fazer o mais estrito possível. É se basear no arranjo original dele, mas fazer livre, do nosso jeito. Então eu fico também à vontade para poder criar em cima, mas a fonte principal é o disco. E é isso. Como eu vou estar cantando também, não há como cantar igual ao Cassiano. Só ele tem aquela impressão digital, impressão vocal. Só ele vai ter sempre. E o que eu vou fazer vai ser eu cantar do meu jeito, sentir aquela letra do meu jeito. Eu acho que, principalmente no intérprete vocal, assim, acho que esse é o que mais se transforma.
Porque a intenção não é cantar igual a ele. Lógico que ele inspira muito e, quando a gente começa a ouvir seguidas vezes a música pra aprender, a gente vai adentrando um universo. Um tipo de choro que ele tem, um tipo de lamento. A gente vai entendendo isso. Mas, a partir do momento em que começar o show, vai ser a minha expressão.

Cassiano fez um disco em 1976 que continua chegando a músicos de outras gerações. O que você acha que envelhece bem numa música e o que denuncia a época em que ela foi feita?
O que envelhece bem na música é, quando você tá fazendo ela, colocar o seu coração, sua alma, sua expressão única também, buscar a sua individualidade dentro desse universo da música, que é difícil, é uma coisa difícil também. Eu acho que é isso que a mantém viva. É você botar realmente coração e alma pra jogo. O que denuncia a época em que ela foi feita? Olha, tem uma coisa que é muito clara pros ouvidos, assim, de cara, que é a coisa dos equipamentos. Os equipamentos da época.
A época de 1976, por exemplo, é parecida também com outras linguagens, mas o som tinha menos definição. Hoje ele tem muito mais definição. Hoje, pra gente fazer um disco, a gente precisa ser muito mais preciso em notas, em ritmo, porque, como tem muita clareza de tudo, tudo fica muito fácil de você ver: “Ah, aqui tá errado, aqui tá estranho, aqui não tá funcionando.”
Nessa época, a coisa era mais amalgamada. Tudo se misturava mais porque tinha menos definição. E criava-se também, com essa baixa definição, um terceiro elemento. É isso: você ouve o som da bateria, mas o som da bateria já tá meio misturado com o do baixo, que tá meio misturado com a guitarra. Então você não tem uma coisa, não tem um som assim… É uma coisa da época mesmo e muito difícil de reproduzir hoje em dia. Mesmo que você use os mesmos métodos antigos, é muito diferente e difícil de reproduzir.
Agora, lógico que também, pra além disso, esse período dos anos 70 tinha também uma expressão diferente, tinha uma loucura diferente. Tinha uma coisa mais visceral. Talvez seja até relacionado com isso que eu esteja falando hoje em dia: como você precisa ser muito técnico pra gravar, às vezes você acaba perdendo um pouco dessa visceralidade. E o Cassiano, excepcionalmente, é muito visceral. Não tem nada ali de matemático. É uma coisa muito do momento. Ele joga e o que acontece naquele momento. Duvido que ele mesmo conseguisse fazer igual depois.

Você é músico, produtor e também alguém que passa muito tempo ouvindo música. Existe alguma coisa que você escuta hoje com uma atenção diferente da que tinha quando começou a fazer discos?
Ah, completamente. Tudo, tudo eu ouço diferente de quando eu comecei a fazer disco. Na verdade, a cada dia, a cada momento, a gente tá com um espírito diferente pra receber, pra ouvir música. A todo momento isso tá se transformando.
E não só se transformando, é isso, tecnicamente. Outro dia até tava comentando com um amigo que às vezes eu sinto um pouco de falta de conseguir escutar uma música como eu escutava tempos atrás, em que tudo era muito… tudo tinha um frescor, tinha muita novidade. Por exemplo, quando eu tava ali por volta dos 20 anos, era isso. Mudou o sistema da música. Eu comprava CDs, eu juntava dinheiro pra comprar um CD. Então era isso, eu comprava um CD a cada três meses. E aí eu degustava aquele disco e só. Não só você ia criando sua discoteca e tal, mas você ficava três meses ouvindo um disco.
A partir dos meus 20 anos, começou a surgir o MP3 e aí, dentro de um CD, eu conseguia às vezes colocar quatro, cinco discos. Conseguia compartilhar com amigos e, dentro disso, começaram a surgir músicas que você não encontrava aqui no Brasil. O reggae, artistas mais obscuros, internacionais, da África, da Índia, trilhas sonoras, enfim, começou a expandir. E nessa época, por exemplo, escutar música era uma loucura, porque tinha uma coisa de novidade, de frescor, de descobrir coisas, que hoje é muito diferente. Hoje é muito mais difícil, eu acho. Vira e mexe, descobre coisas diferentes, mas muito mais raro. Então isso muda, mas o estado de espírito também interfere muito no jeito como a gente ouve música.

O show coloca você diante de músicas que já carregam a memória de muita gente. O que você gostaria que alguém que nunca ouviu Cassiano percebesse ao sair dali?
Olha, a gente respondeu na música; eu respondi na pergunta anterior, sobre essa coisa da audição, de escutar música e tal.
É interessante porque eu tinha escutado Cassiano. Eu já conhecia, eu já escutava, mas agora é isso: tirando as músicas, cantando repetidamente, a gente percebe muito essa alma do Cassiano. Você vê que ela tá ali realmente e não tá longe; é só realmente você ter uma escuta mais aprofundada. Seria muito legal se eu conseguisse entregar isso, assim, sabe? Essa coisa que é isso, você sente mesmo o que ele tava sentindo nessas músicas, quando ele fez essas músicas, quando ele cantou. E se eu conseguir chegar um pouquinho perto disso, já vai ser muito legal. Esse, eu acho que é o principal desafio aí desse trabalho.

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[Serviço]

LBR apresenta: Curumin canta Cassiano
50 Anos de “Cuban Soul: 18 Kilates” com Hyldon

Sábado, 3 de outubro, 20h no Cine Joia
Praça Carlos Gomes, 82
Liberdade, São Paulo, SP

Ingressos no Sympla



O LBR é o braço curatorial-autoral da Laburê, estúdio criativo que trabalha a potência de projetos musicais. A proposta é oferecer shows únicos em que artistas contemporâneos dialogam com obras fundamentais da música brasileira.

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Agradecimentos ao Davi Maia pela conexão e ao Ignacio Salvati do Laburê

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Curumin escolheu as músicas que apareceram enquanto estudava Cuban Soul: 18 Kilates para o show dedicado a Cassiano.

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