
Jornalista, curador, DJ e criador do Trabalho Sujo, Alexandre Matias fala sobre escuta, gosto e por que nenhuma tecnologia substituiu a capacidade de descobrir pessoas.
Por mais de três décadas, Alexandre Matias acompanhou praticamente todas as mudanças da forma como descobrimos música. Passou pelo jornal impresso, pelos blogs, pelo MP3, pelas redes sociais, pelo streaming e pelos algoritmos. Enquanto cada nova tecnologia prometia facilitar esse caminho, uma convicção permaneceu intacta ao longo de todo esse percurso: as pessoas continuam sendo os melhores veículos de descoberta.
Essa ideia atravessa o Trabalho Sujo desde o início. O interesse pela música nunca esteve separado do interesse pelas cenas, pelas conversas, pelas cidades e pelas relações que fazem uma canção chegar até alguém. Descobrir um artista sempre significou descobrir também quem o apresentou, de onde ele veio e o que existe ao redor daquela obra.
É esse olhar que conduz a entrevista ao deepbeep. Alexandre fala sobre gosto, curadoria, internet, excesso de informação e sobre a importância de continuar cultivando repertório num momento em que quase tudo parece organizado por plataformas. Uma conversa que ajuda a entender por que descobrir continua sendo uma experiência profundamente humana. A playlist “O Que Sobra do Excesso” reúne músicas que sobreviveram à novidade porque continuaram encontrando pessoas dispostas a escutá-las.
Lísias Paiva, criador e editor
Você começou a escrever sobre música quando ainda existia escassez de informação. Hoje sobra tudo. O que ainda te faz prestar atenção de verdade?
Eu parto do pressuposto de que preciso ir atrás das coisas que me interessam. E isso não diz respeito apenas à vida profissional, mas à vida como um todo. O que me interessa normalmente está ligado a uma questão de gosto. E gosto é uma coisa que, ao mesmo tempo, é adquirida e cultivada. Muitas das coisas de que gosto hoje começaram quando eu era criança, adolescente ou jovem. E muitas coisas de que eu gostava naquela época já não me interessam mais.
Então existe, obviamente, um interesse em continuar acompanhando determinados temas, artistas e cenas. Mas, mais do que procurar apenas aquilo de que já gosto, tenho uma espécie de antena que me faz buscar coisas que nem sei o que são.
E acho que essa é a minha motivação profissional básica. Eu acordo pensando: “O que posso descobrir hoje? Qual é a novidade que me espera?”. E isso tem relação com uma outra questão: essa busca não acontece necessariamente online. Por mais que a internet seja um atalho para conhecer pessoas, situações, artistas e novidades, existe uma busca fora dela que me motiva da mesma forma. É ir a um show, visitar uma exposição, assistir a um filme, participar de um acontecimento público, conhecer um restaurante, me deslocar, circular por diferentes lugares e, principalmente, conhecer pessoas.
Porque as pessoas também são veículos de informação. Muitas pessoas que chegaram à minha vida e permaneceram nela ficaram justamente porque me trazem novidades, referências e novos pontos de vista. São pessoas movidas pela mesma curiosidade.
Então, no fim das contas, independentemente de vivermos em uma era de excesso de informação — ou de termos crescido em uma época em que ela era mais escassa —, existe uma curiosidade que continua sendo o ponto de partida. Não é apenas uma questão do que chama a minha atenção, mas do que eu quero descobrir.
O Trabalho Sujo atravessou formatos, plataformas e gerações sem parar. Em que momento continuar virou mais importante do que inovar?
Eu nunca pensei em termos de inovação, na verdade. Não tenho essa necessidade de ficar pensando: “Como é que eu posso me reinventar? Como é que eu posso fugir disso ou daquilo?”. Para mim, esses processos acontecem de forma natural.
Apareceram as redes sociais? Então eu precisava estar nas redes sociais. Surgiu a possibilidade de dar aula e falar publicamente sobre assuntos que normalmente eu escrevia? Eu podia fazer isso. Apareceu a oportunidade de tocar músicas que acompanho e gosto em um contexto de pista de dança? Resolvi experimentar.
Foram surgindo diferentes frentes, e eu fui observando quais faziam sentido para mim. Outras apareceram no caminho e eu simplesmente não embarquei. Só fui criar um canal no YouTube, de fato, durante a pandemia, porque não havia muita coisa acontecendo. Mas também não entrei na onda de ser youtuber, que surgiu lá nos anos 2010. E existem vários outros exemplos parecidos. Acho que a minha principal motivação sempre foi a continuidade.
Desde o começo. Desde quando o Trabalho Sujo era apenas uma página de jornal em um periódico do interior de São Paulo. Eu nem sou paulista — nasci em Brasília —, mas estudei na Unicamp e comecei a publicar em um jornal de Campinas que hoje nem existe mais. E eu queria saber o que viria na próxima edição. Queria saber qual seria a minha próxima lista de melhores do ano. Desde o início existia essa intenção — não diria necessidade — de ser perene.
E isso toca em outra questão: eu tenho dificuldade em encerrar ciclos.
É algo que levei para a terapia, inclusive. Cheguei a cogitar encerrar o ciclo do Trabalho Sujo, até entender que não. Porque o Trabalho Sujo, na verdade, é o meu CNPJ, é a minha persona pública.
Existe uma parte da minha vida que gosto de mostrar e outra que simplesmente não interessa ao público. Há muitas coisas que acompanho e que me interessam, mas sobre as quais não escrevo nem publico, porque não me considero especializado o suficiente para falar delas. Sou mais um curioso, um diletante, do que alguém que realmente cobre determinada área.
Alguns desses interesses eventualmente acabam aparecendo no próprio Trabalho Sujo. Mas, no fim das contas, acho que a motivação para continuar é justamente essa disposição diária, esse gás que me faz seguir fazendo o que faço.
Você nunca ficou só na crítica, sempre esteve na pista, nas festas, no contato direto com a cena. O que a pista te mostra que a internet não mostra?
É exatamente a questão que eu estava comentando antes. E nem acho que isso se limite à internet. A gente vive criando um mundo mental feito de discos, livros, filmes, peças de teatro e exposições. Quando falamos de arte, pensamos no artista, mas também existe uma dimensão cultural mais ampla: a ideia de que vivemos em sociedade e cultivamos coletivamente uma série de práticas, hábitos e referências.
Acho que acabamos construindo espaços imaginários que, sem perceber, passamos a habitar mais do que os espaços reais.
Claro que existe aí uma questão de conforto — a famosa zona de conforto. Não porque eu queira permanecer nela, mas porque é um lugar onde me sinto à vontade. Ao mesmo tempo, gosto de ir além desse lugar. Gosto do contato com o outro, de descobrir o que existe para além do que já conheço.
Tenho muitas amizades construídas justamente a partir disso. São pessoas que sei que, quando encontro, vão me apresentar informações novas, referências que eu não estava observando e pontos de vista diferentes sobre assuntos que desconheço.
Procuro cultivar esses contatos com muita dedicação. Essa é uma das minhas motivações, tanto profissionais quanto pessoais: estar em contato com outras pessoas, conversar, trocar experiências e aprender.
E não estou falando apenas do universo da música, do jornalismo, da cultura, da arte ou da internet. Esse lugar imaginário nós construímos diariamente. Mas eu gosto de confrontá-lo e, principalmente, de descobrir os lugares imaginários que outras pessoas também construíram.
Hoje muita gente fala de música sem necessariamente escutar com profundidade. O que você sente que mudou na forma como as pessoas ouvem?
Com certeza, a forma como a gente flui música mudou radicalmente. Tem uma coisa que eu lamento muito — embora eu nem saiba se isso já não seja uma causa perdida —, que é a perda da ideia do mundo da música, do ambiente da música, mais do que da música em si.
Antes, a gente se interessava pelo que estava acontecendo nesse universo. O que determinado artista estava gravando, quem estava trabalhando com quem. E eu nem estou falando de fofoca, de saber quem ficou com quem. Estou falando de coisas como: dois artistas de quem eu gosto estão cogitando uma colaboração; um diretor de quem eu gosto chamou um ator de quem eu gosto para fazer um filme; uma cantora que acompanho está sendo produzida por alguém que também acompanho há bastante tempo. Saber sobre música, acompanhar as novidades para além das próprias músicas, era tão importante quanto ouvir as músicas.
Hoje, as músicas acabaram virando trilha sonora. Muitas vezes, a gente nem presta mais atenção em quem está cantando. Parece que tudo virou uma playlist eterna. Claro que estamos falando de uma situação muito específica e, mais uma vez, isso nos leva à questão da internet. Eu, por exemplo, não acho que os artistas mais ouvidos no Spotify sejam, necessariamente, os artistas mais ouvidos do mundo. Existe muita gente ouvindo muita coisa que não está no Spotify, não está no YouTube, não está na televisão e não está no rádio. Estou falando de música, mas isso serve para praticamente tudo. Essa necessidade de medir tudo, mensurar tudo, contabilizar tudo, determinar quem é maior ou melhor do que o outro é uma coisa relativamente recente dentro da forma como o Ocidente passou a entender cultura.
Vejo que algo parecido aconteceu com o cinema. Se você olhar para a década passada, houve aquele movimento em que a Disney começou a comprar tudo. E, de repente, parecia que o cinema se resumia aos grandes lançamentos de shopping: Marvel, Pixar e Star Wars. E eu falo isso justamente sobre uma área que talvez tenha sido uma das mais afetadas pela pandemia. Quando a pandemia acabou, as pessoas voltaram com intensidade para tudo aquilo que não podiam fazer antes. Mas o cinema foi um dos lugares para os quais elas menos retornaram. Lembro que, nos primeiros meses depois da reabertura, eu sentia muita falta de assistir a filmes no cinema e cansei de encontrar sessões vazias, inclusive de filmes conhecidos. Mas acho que alguma coisa mudou. E isso se conecta justamente com o que eu estava falando sobre o mundo da música. Hoje, percebo que as pessoas não estão interessadas apenas nos filmes. Elas estão interessadas em saber quem dirigiu aquele filme, o que esse diretor está fazendo agora, qual será o próximo projeto dele, por que determinado cineasta é tão importante e por que certos filmes são tão citados por outras pessoas. Ou seja, existe um interesse pelo ecossistema que cerca a obra, e não apenas pela obra em si.
Do mesmo jeito que o cinema passou por uma fase bastante deprimente e agora parece estar entrando numa espécie de renascença — inclusive para além de Hollywood e até mesmo dentro dos próprios Estados Unidos —, eu acredito que a música também possa viver algo parecido. Lidando com artistas mais jovens e participando de festas voltadas para bandas que estão começando, tenho contato frequente com uma galera de vinte e poucos anos e percebo que existe ali um interesse maior. Claro que não dá para tomar isso como retrato da maioria. Até porque nunca foi assim, nem antes da internet. Quando a gente fala em maioria, nem sempre está falando do que é mais relevante culturalmente. Muitas vezes, a maioria das pessoas nem sabe exatamente o que quer. Mas a sensação que tenho hoje é que a música ocupa um lugar mais coadjuvante. A música virou trilha sonora. A música virou acessório. Ainda assim, consigo enxergar a possibilidade de ela voltar a ocupar a importância que já teve um dia.
Tem muita curadoria hoje que parece só reorganizar o que já está dado. O que ainda diferencia quem realmente escuta de quem só repassa?
Eu acho que existe uma questão de assinatura na curadoria. É uma provocação que faço desde que comecei a trabalhar com isso. Sempre me pergunto — e também pergunto a outras pessoas da área — o que diferencia a sua curadoria da minha. Por que a sua vai para um lado e a minha para outro?
Muita gente tem dificuldade de admitir que o gosto é um elemento crucial nessa história e que não dá para fugir dele. Mesmo quando você tenta ir além do que simplesmente gosta, é o próprio gosto que orienta esse movimento. Às vezes, você pensa: “Gostei disso, então quero procurar outra coisa”. Mas o ponto de partida continua sendo o gosto.
Por isso, é importante saber do que você gosta. Isso tem a ver com quem você é, e isso também tem a ver com você enquanto curador. Ser curador, artista ou autor — num sentido bem amplo, porque qualquer pessoa pode ser autora — parte necessariamente de um lugar de autoconhecimento. De entender quem você é e de perceber como não está apenas reproduzindo o que já está acontecendo. Qual é o elemento que você, como indivíduo, traz para essa discussão? Muitas vezes, nem precisa ser algo novo.
No meu caso, como curador, não fico necessariamente buscando pessoas completamente fora do meu radar. Trabalho muito mais com uma questão de perspectiva. Gosto de colocar um artista já conhecido, que já tem uma trajetória consolidada, em contraponto consigo mesmo. De olhar para ele e perguntar: “Para além disso, o que mais você pode fazer?”. Isso acontece especificamente no Mercuradoria e no Centro da Terra, mas, de maneira geral, sempre que trabalho com curadoria, acabo indo mais por esse caminho do que pela ideia de simplesmente descobrir gente nova. Gosto de descobrir novos autores, novas cenas e novos artistas, justamente por causa da curiosidade de que falei antes. Mas, como curador, acredito muito mais em imprimir uma assinatura, uma personalidade nas escolhas e nas abordagens do que em defender uma metodologia específica.
E isso vale para tudo. Você pode fazer arte de uma maneira completamente despersonalizada, o que, para mim, é um desperdício — a menos que essa seja justamente a proposta estética. É esse tipo de arte despersonalizada que me parece mais ameaçado pela ascensão da inteligência artificial, porque ela funciona, em grande medida, como um algoritmo de repetição de padrões já existentes.
Depois de tantos anos ouvindo, escrevendo e vivendo música quase todos os dias, o que ainda te pega desprevenido?
Não sei. Essa resposta está muito ligada ao fato de que eu não consigo entender completamente o meu gosto. Eu sei do que gosto, mas não consigo colocar isso de uma forma racional.
Às vezes, leio sobre alguma coisa e penso: “Nossa, isso deve ser maravilhoso”. Aí vou ouvir e acho uma bobagem. E acontece exatamente o contrário também. Leio algo e penso: “Isso deve ser uma bobagem”, mas, quando escuto, acho maravilhoso. Isso é muito comum.
Então não existe uma regra, um padrão ou uma fórmula que explique. Para dar uma resposta mais objetiva, eu diria que gosto de ser pego desprevenido pela música pop. Quando um determinado elemento entra numa música e muda completamente a minha percepção dela.
O disco que mais ouvi no ano passado foi o álbum The Clearing, da banda Wolf Alice. O que me pegou foi o final de uma das faixas. É uma música bonita, relativamente convencional, sem nada que pareça muito diferente à primeira vista. Mas, nos segundos finais, entram algumas vozes, acontece um corte seco e a música retorna. Descrito assim, não tem graça nenhuma. Mas, quando ouvi, pensei: “Espera aí, tem alguma coisa acontecendo aqui”. Foram dois ou três segundos que me fizeram prestar atenção ao disco inteiro de outra maneira. Mas eu não sei transformar isso numa regra. Não é como se eu pudesse dizer: “Vou pegar um disco de rock clássico e, se ele tiver uma pequena filigrana de estranheza, vou gostar”. Não funciona assim. Por isso, não consigo racionalizar essa pergunta. E acho que isso é até bom. Porque, se eu conseguisse transformar tudo numa lógica muito clara, talvez as minhas reações ficassem mais previsíveis.
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