
Uma canção que virou meme, um hit dos anos 2000 e um disco sobre envelhecer. Gab Ferreira fala sobre as novas camadas que o tempo revela nas músicas, inclusive nas que ela mesma escreve.
“Only Time”, de Enya, ganhou uma segunda vida como meme na internet. “A Estrada”, do Cidade Negra, foi um dos grandes hits dos anos 2000. Gab Ferreira gosta das duas, mas conta que só passou a dar a elas a devida importância com o passar dos anos. Na primeira, encontrou uma atmosfera envolvente e meditativa, além de uma letra sobre perguntas que só o tempo pode responder e feridas que ele pode curar. Na segunda, reconhece uma composição belíssima, com um arranjo que continua chamando sua atenção. Duas músicas conhecidas, escutadas de outro lugar.
A relação entre tempo e escuta aparece também em Carrossel, álbum de Gab sobre medo, separação e recomeço. Ao falar do disco, ela conta que procurou uma leveza capaz de conviver com esses sentimentos, sem precisar encontrar todas as respostas. Agora, tocando as músicas ao vivo, percebe que consegue ouvi-las com mais distância e contemplação. Compara a experiência de reler o próprio diário sabendo como a história termina.
Cantora e compositora catarinense, Gab apresenta Carrossel na nona edição do Circuito Nova Música, projeto itinerante que passa por São Paulo, Taubaté e Americana entre 5 e 7 de novembro. A apresentação em São Paulo acontece no dia 5, no Cineclube Cortina, com Suco Digital. A programação também reúne o trio Los Pirata e a banda Elephant Run.
Para o deepbeep, Gab preparou “Músicas que Mudaram de Lugar”, uma seleção de faixas que ganharam outros sentidos com o tempo. A playlist passa por Enya, Cidade Negra, Sade, Björk, Portishead, Cocteau Twins e Madonna. Na entrevista, ela fala sobre a distância que o tempo cria em relação às próprias composições, as interpretações que o público faz de suas músicas e a curiosidade de descobrir o que vai sentir ao reencontrar Carrossel daqui a dez anos.
Lísias Paiva, editor-chefe
Mateus Nicastro, arte
Gab, quando você escuta as músicas de Carrossel hoje, tem alguma que revela algo sobre você que só ficou claro depois do disco estar pronto? O que você consegue ouvir nela agora que não percebia durante a composição?
Acho que passo por um processo contínuo de reinterpretação do meu trabalho. Principalmente agora, tocando as músicas ao vivo, sentindo-as nesse novo espaço. Talvez diria que hoje consigo ouvir as músicas de um jeito bem mais distante, mais contemplativo. Para mim, é a mesma experiência de ler o seu próprio diário, já sabendo como tudo acaba, hihihi.
Você falou sobre a vontade de fazer um disco mais leve sem apagar as angústias. Como encontrou essa leveza enquanto escrevia sobre medo, separação e recomeço?
Acho que qualquer tema pode ser leve, dependendo da forma como você o aborda. Vejo o disco como uma grande investigação sobre esses sentimentos e experiências, mas que não necessariamente chega a uma conclusão. Acho interessante poder explorar essas questões sem precisar encontrar todas as respostas.
Quando uma experiência pessoal vira música, você precisa se afastar um pouco do que viveu para conseguir escrever sobre aquilo? Como percebe que encontrou a distância certa?
Não sei se existe uma distância certa. Talvez seja sobre conseguir olhar para uma situação sem deixar o próprio viés determinar a narrativa, como descrever uma cena sem definir quem tá certo ou errado. No fim, transformo minhas experiências em música porque me interessa explorar o que existe por trás delas.
Já aconteceu de alguém interpretar uma música sua de um jeito que mudou a maneira como você mesma a escutava? O que essa pessoa percebeu que tinha passado despercebido para você?
Várias vezes, hihi. No momento em que você lança algo, aquilo já não te pertence mais. As experiências que você viveu passam a ser do mundo, e cada um vai interpretá-las à sua maneira. Acho engraçado como, às vezes, se dá tanta importância às escolhas de composição, quando muitas delas, pra ser sincera, acontecem sem muito esforço. Mas acho que as coisas que vêm naturalmente são sempre as mais honestas.
Se você pudesse voltar a uma música sua daqui a dez anos, sem precisar recuperar a pessoa que era quando a escreveu, o que gostaria de descobrir ao ouvi-la de novo?
Hmm, boa pergunta, hihi. Acho que escolheria “Carrossel”, que é com certeza minha faixa favorita do disco. É uma música sobre envelhecer, esquecer onde tudo começou, quem você era e quem queria ser, e acabar perdendo um pouco daquele prazer que você sentia na infância ao fazer as coisas. Acho que é uma reflexão que preciso revisitar constantemente e tenho curiosidade de saber como vou me relacionar com ela daqui a dez anos.
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[Serviço]
Circuito #9 com Gab Ferreira, Elephant Run e Los Pirata
ROTEIRO
5/11 – quinta-feira
São Paulo – Cine Cortina – Rua Araújo, 62
6/11 – sexta-feira
Taubaté – Lapa Public House – Rua Dr. Dino Bueno, 65
7/11 sábado
Americana – Obrigado Vida – Rua Silvino Bonassi, 840
Segundo Lucio Ribeiro, idealizador e curador do projeto, “a curadoria procura justamente esse momento anterior ao reconhecimento mais amplo — quando existe uma produção artística consistente, mas ainda é preciso criar os caminhos para que ela encontre audiência”.
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Agradecimentos à Francine Ramos pela conexão
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A passagem dos anos muda a maneira como a gente escuta. Gab Ferreira reúne músicas que ganharam novas camadas com o tempo, de Enya a Cidade Negra, passando por Sade, Björk e Madonna. A seleção acompanha uma escuta que continua se transformando.
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