Pedro Gariani na pista, sem outra função

Pedro Gariani em retrato para o deepbeep

Em clubes onde ninguém o conhecia, Pedro Gariani voltou a ouvir como quem está ali só pelo som.

Pedro Gariani estava no meio da pista sem função nenhuma, e ninguém ali sabia quem ele era. Foi uma das melhores noites do ano. Ele produz festas, toca e acompanha artistas há bastante tempo, e boa parte dos dias passa pensando no que acontece quando uma música encontra um público. Gosta de estar na pista, de ouvir e observar, e sobretudo de perceber o que acontece quando não precisa ocupar nenhuma outra função além daquela.

Num aniversário da Cardume, na Praça Ramos de Azevedo, ele fechou a noite com I Just Called to Say I Love You do Stevie Wonder. Na virada do ano, com a mesma festa, foi Never Can Say Goodbye de Gloria Gaynor. As duas músicas deixaram de ser apenas músicas depois de encontrar aquela pista.

A escuta dele nunca teve fronteira rígida entre épocas, gêneros e lugares. Gilberto Gil ao lado de Gloria Gaynor, Stevie Wonder ao lado de Celia Cruz: Sítio do Picapau Amarelo, de Gilberto Gil, foi uma das referências para Saci, segundo single que assina pela ¡Queer y Latina!, o selo que ele criou para reunir artistas de diferentes países da América Latina.

A Colômbia chamou a atenção dele recentemente, e não pelo motivo de sempre. Uma geração de produtores trabalha referências latinas dentro da música eletrônica sem transformá-las em recurso óbvio, encontrando maneiras próprias de carregar a própria história para a pista.

Na entrevista ao deepbeep, Pedro fala sobre o prazer de estar na pista sem outra função, sobre a curadoria que faz na ¡Queer y Latina! e sobre o que acontece quando uma música sai das mãos de quem a fez e começa a construir outras histórias com quem escuta.

Lísias Paiva, criador e editor

Pedro, você trabalha há anos criando espaços para outras pessoas se encontrarem. O que você ainda procura quando entra numa pista onde ninguém sabe quem você é?
É uma pergunta muito boa. Apesar de estar sempre tocando ou produzindo algum evento, eu amo sair, conhecer outras festas e estar na pista. Mas, por trabalhar há muitos anos nesse meio e conhecer muita gente, muitas vezes essas saídas acabam virando também um evento social. Você encontra pessoas, fala de trabalho, faz networking, alguém pergunta sobre a próxima festa.
Neste ano, eu fiz um break e passei um período longo viajando pela Europa. Tive a oportunidade de ir a muitos clubs e festivais onde praticamente ninguém me conhecia, e foi muito interessante poder voltar a ocupar simplesmente o lugar de alguém na pista. Estar realmente disponível para ouvir, observar e viver aquilo com 100% da minha atenção, sem nenhuma outra função acontecendo ao mesmo tempo. Foi muito libertador e me lembrou de uma coisa muito básica. Antes de trabalhar com música, eu sou alguém que ama estar na pista.

Tem alguma coisa que você descobriu sobre seu próprio gosto depois que começou a escolher música para outras pessoas ouvirem?
Eu sempre fui muito curioso musicalmente e me considero um artista bastante versátil. Gosto de descobrir coisas novas e me permito transitar por ambientes e linguagens musicais muito diferentes. Com o tempo, acho que entendi que essa amplitude não precisava ser uma contradição. Pelo contrário, ela acabou virando uma parte importante da minha identidade. O interessante para mim passou a ser justamente descobrir como músicas que, num primeiro momento, parecem vir de lugares completamente diferentes podem coexistir dentro de uma mesma história. Isso abriu muito a minha cabeça sobre o que um set pode ser e também sobre o tipo de música que eu quero produzir.

A ¡Queer y Latina! coloca artistas de diferentes países da América Latina no mesmo catálogo. Tem alguma coisa que você escutou recentemente em outro país e que fez você voltar a ouvir o Brasil de outro jeito?
Na verdade, eu nunca deixei de olhar para o Brasil ou para a música produzida aqui. Isso sempre esteve muito presente no meu trabalho, inclusive em projetos anteriores. O que mudou para mim mais recentemente foi perceber o tamanho do olhar global que existe hoje para a América Latina. Tem muito mais gente prestando atenção no que está sendo produzido aqui, não só no Brasil, mas em diferentes países da região, e isso cria um contexto novo.
Acho que comecei a enxergar o Brasil menos como um caso isolado e mais como parte de um movimento maior. Não porque eu tenha redescoberto a nossa música, mas porque ficou mais evidente que existe espaço para apresentar essas identidades para o mundo sem precisar diluí-las ou adaptá-las a uma referência europeia ou americana.
Isso me interessa muito na ¡Queer y Latina!. Colocar o Brasil dentro dessa conversa maior e, ao mesmo tempo, mostrar quantas possibilidades diferentes existem dentro da própria América Latina.

Quando uma música que você escolheu começa a circular longe de você, o que você gosta de imaginar que acontece com ela?
Eu gosto de pensar que, a partir do momento em que uma música sai, ela deixa um pouco de pertencer a quem fez ou a quem escolheu lançá-la. Cada pessoa vai encontrar aquela faixa num contexto diferente. Alguém pode ouvir num club do outro lado do mundo, alguém pode descobrir dentro de casa, um DJ pode colocar no momento mais importante de um set. E cada uma dessas situações cria uma nova memória para aquela música.
Talvez essa seja uma das coisas mais bonitas desse trabalho. Você começa com uma intenção muito particular, mas depois perde completamente o controle sobre os lugares que aquela música pode alcançar e sobre o significado que ela pode ganhar para outras pessoas. Eu gosto dessa ideia de que a música continua construindo uma história muito depois de sair das nossas mãos.

O que você mudou na sua própria vida para conseguir continuar fazendo da música um trabalho sem deixar que ela virasse só trabalho?
Na verdade, acho que isso nunca mudou muito para mim. Eu continuo tendo muito prazer em fazer o que faço e talvez seja justamente por isso que nunca enxerguei algumas renúncias como um peso. O Réveillon é um bom exemplo. É uma época muito importante para a maioria das pessoas, mas há muitos anos eu passo esse período trabalhando. E isso nunca me incomodou, porque ver milhares de pessoas felizes, juntas, dançando, celebrando uma virada que é importante para elas é uma coisa muito especial.
Claro que existe uma parte empresarial e operacional enorme por trás de tudo isso, e hoje minha relação com a música envolve muito mais coisas do que simplesmente tocar. Mas quando a festa começa e eu vejo as pessoas vivendo aquilo que a gente passou meses construindo, eu lembro imediatamente por que faço isso. Essa sensação ainda é impagável para mim.

Tem algum artista, cena ou música latino-americana que você descobriu recentemente e fez você enxergar novas possibilidades para a ¡Queer y Latina!? O que aconteceu?
A Colômbia tem me chamado muita atenção. Existe uma geração de artistas produzindo música eletrônica muito interessante por lá e, em muitos casos, usando referências latinas de uma maneira muito natural e contemporânea, sem transformar essas referências em algo óbvio ou folclórico. Isso me inspira porque reforça uma coisa em que eu acredito muito para a ¡Queer y Latina!. A América Latina é extremamente rica culturalmente e ainda existe uma fonte enorme de referências a ser explorada dentro da música eletrônica.
Um dos meus objetivos com a label é justamente incentivar os artistas a olharem para as próprias histórias, territórios e culturas e encontrarem maneiras pessoais de traduzir isso em música. Não significa que toda faixa precise ter uma percussão tradicional ou um sample reconhecível. Pode aparecer no ritmo, num vocal, numa pesquisa ou simplesmente na maneira como aquele artista entende a pista. O que me interessa é que essa identidade venha de um lugar verdadeiro.

Acompanhe o trabalho de Pedro Gariani
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¡Queer y Latina! por Pedro Gariani
Cardume Records com Pedro Gariani
House of Love por Pedro Gariani
Pedro Gariani no Soundcloud
Ouça “Saci” por Pedro Gariani

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Gilberto Gil, Stevie Wonder, Gloria Gaynor, Billy Ocean, Celia Cruz e Proyecto Uno estão entre as escolhas de Pedro Gariani. Três músicas carregam histórias específicas. Uma veio de uma memória de infância. Duas ficaram marcadas por momentos na pista.


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