Lorelay Fox e aquilo que a gente demora para entender

Retrato de Lorelay Fox que fala ao deepbeep sobre identidade, insegurança e a dificuldade de saber o que queremos.

Por que insistimos em buscar nos outros as respostas sobre nós mesmos? Lorelay Fox fala sobre insegurança, conselhos que não funcionam e músicas que chegam à emoção antes das palavras.

Tem música que muda quando a gente muda. Uma faixa ouvida aos vinte anos pode dizer outra coisa aos quarenta. Uma letra que parecia falar de outra pessoa acaba explicando uma escolha antiga, um medo recorrente ou algo que levamos tempo demais para admitir. Na playlist “Aquilo que a gente demora para entender”, Lorelay Fox reúne músicas que acompanham esse intervalo entre viver uma experiência e conseguir enxergar o que ela significa.

A seleção conversa com uma questão presente nas histórias que Lorelay escuta e comenta no Podcast Para Tudo. Muita gente procura conselhos para ser aceita, encontrar o relacionamento certo ou descobrir o que fazer da vida. Para ela, parte dessa busca começa com uma pergunta menos confortável: será que sabemos quem somos ou estamos ocupados demais tentando corresponder ao que esperam de nós? A resposta não chega necessariamente quando alguém dá o conselho certo. Pode vir depois de ignorá-lo, de repetir um padrão ou de ouvir uma música com outros ouvidos.

Criadora de uma persona que combina humor, cultura pop e conversas sobre comportamento, Lorelay também conhece o desencontro entre o que sentimos e o que conseguimos explicar. Na entrevista ao deepbeep, ela fala sobre o medo de se perder no automático, a dificuldade de seguir conselhos sobre a vida e a maneira como aquilo que mostramos aos outros pode denunciar o que tentamos esconder. A playlist segue por um caminho próprio, com músicas de Fleetwood Mac, Alanis Morissette, Harry Styles, Madonna, Beyoncé e outros artistas. São dezesseis faixas escolhidas para acompanhar o momento em que algo finalmente começa a fazer sentido.

Lísias Paiva, criador e editor
Com colaboração de Claudio Thorne, redes e comunidade
Arte por Mateus Nicastro

Lorelay, depois de ouvir tantas histórias de pessoas diferentes, o que quase todo mundo está tentando descobrir sobre si mesmo?
Olha, na maioria das histórias que eu leio, de pedidos de conselho, as pessoas estão tentando descobrir como fazer os outros gostarem delas. E eu acho que o que falta para elas perceberem é que precisam descobrir como gostar de si mesmas. Eu acho que existe uma grande falta. Não é uma falta de amor-próprio, num sentido tão dramático, mas no sentido de as pessoas quererem muito agradar aos outros e abrirem mão da própria autenticidade nesse caminho, entendeu? Então, acho que as pessoas precisam descobrir como serem mais autênticas e bancarem quem elas são. Mas entendo também que meu público é um pouco mais novo do que eu. Gira ali entre uns 25 e 35 anos. E talvez, com o passar da idade, isso seja mais simples de a gente alcançar.

Tem músicas que parecem entender exatamente o que estamos sentindo antes da gente conseguir explicar. O que elas percebem primeiro?
Acho que o que as músicas conseguem perceber antes da gente… Primeiro que música é arte, né? Então, a arte consegue tocar a gente em lugares antes do nosso raciocínio, eu acho. Acho que toca muito no emocional. Então, acho que é isso. Acho que elas conseguem perceber como atravessar as barreiras da nossa razão mesmo e ir direto na emoção. Isso é muito bizarro e mágico da música. Da música e de todo tipo de arte. Eu acho que, pensando até na arte drag, primeiro você se assusta olhando para uma drag, depois vai entender ela e depois vai entender o porquê do seu susto ou do seu maravilhamento. Mas sempre vem um sentimento antes do pensamento, da razão. E a coisa de conseguir explicar o que a gente sente é porque é muito difícil a gente colocar em palavras os nossos sentimentos, ainda mais no mundo em que a gente vive, que é muito simplista. As músicas conseguem, além de ter as palavras, ter a sensação de tudo.

Existe alguma insegurança que muda de roupa, muda de idade, muda de cidade, mas continua sendo sempre a mesma?
Eu acho que, pelo menos para mim, a grande insegurança, a grande pergunta que eu me faço sempre é se eu sei quem eu sou e se eu sei o que eu quero. Meu grande medo é não saber o que eu quero e não saber quem eu sou. Eu sempre me pergunto. Falo muito disso no meu podcast. Que às vezes eu paro e penso assim: “Eu sei quem eu sou agora ou eu só estou fazendo tudo sem parar e não reflito, não existo nas coisas que estou construindo?” Sabe? Tenho muito medo de não ser quem eu sou. Se é que a gente pode ser outra coisa, né? Mas, às vezes, eu acho que a gente fica muito no automático e não dá razão para quem a gente realmente é. Eu tenho muito medo de perder a vida sem ser assim. E eu penso sobre isso há muitos anos. Eu faço essas duas perguntas há muitos anos.

Qual conselho as pessoas seguem repetindo mesmo quando claramente não funciona?
Acho que tem muita coisa que a gente repete. E meio que por um padrão da sociedade pensar desse jeito. Mas, pensando aqui rápido, assim… “Ah, relaxa. Se for para ser seu, vai ser seu.” Gente, nada vai ser da gente. Eu acredito nisso, tá? Eu acho que é um dos piores conceitos. Nada vai ser da gente só porque é para ser seu. Não. As coisas vão acontecer porque a gente se movimenta em cima disso, pelo bem ou pelo mal. Se as coisas ruins acontecem, é porque existe um movimento para isso. Se as coisas boas acontecem, é porque a gente foi atrás, a gente se permitiu, porque a gente se movimentou. Eu acredito, sim, que existem coisas que são muito propícias para que a gente viva na nossa vida, mas não tem como: “Ah, se for para ser, vai ser.” Não. Se for para ser, vai ser desde que você trabalhe em cima disso. É o que eu acho, sabe?

Mas, falando em conselho… Nossa, tem uma coisa que eu aprendi, que eu percebi, e que é uma reflexão óbvia: não adianta dar conselho para ninguém, né, gente? As pessoas só vão fazer o que elas realmente querem e só vão entender que deveriam ter seguido o conselho depois de terem amadurecido pelo fato de não terem seguido conselhos. Então, é meio que tipo: vamos só falando e, no fundo, as pessoas estão fazendo o que elas querem. Elas não ouvem conselhos porque não dá. Não dá para ouvir. Sabe que eu acho que, pensando em conselhos mais filosóficos. Conselhos mais práticos, profissionais, geralmente as pessoas até seguem. Mas conselhos da vida, de como agir, de como viver, de como pensar sobre si, é muito difícil as pessoas seguirem. Eu acho, inclusive, que é difícil seguir pelo fato de que a gente não consegue. A gente precisa ter passado pela experiência de não seguir o conselho para entender que ele era válido.

O que costuma revelar mais sobre alguém: aquilo que ela mostra ou aquilo que ela tenta esconder?
Ah, é uma pergunta bonita, né? Textos bonitos nessa página. Olha, eu penso assim: o que a pessoa mostra revela o que ela tenta esconder. Então, é meio que as duas coisas estão se revelando, sabe? Eu acho que alguém que, sei lá, por exemplo, é muito expansivo, não sei o quê, fala demais, gosta de causar e de brilhar em festas, isso é um reflexo de algo que essa pessoa está escondendo, sabe? E tem uma beleza grande nisso. Pensar que o que a gente põe para fora mostra o que a gente tem dentro. E, às vezes, é o inverso. Eu acho, inclusive, que muitas vezes é o inverso para que a gente consiga ser equilibrado. Se por dentro você é essa pessoa maluca, expansiva e não sei o quê, e por fora também for, você vai ser muito insuportável. Mas eu acho que é isso. Acho que a gente mostra coisas. Ainda mais que a gente vive nessa casca social para que a gente seja aceito. A gente mostra coisas, e o que a gente mostra revela o que a gente esconde. Faz sentido? Na minha cabeça, faz sentido, gente.

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Agradecimentos à Claudia Carmo, da Mynd

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Quantas versões de nós mesmos cabem numa vida? Na playlist “Aquilo que a gente demora para entender”, Lorelay Fox reúne músicas que atravessam inseguranças, escolhas e descobertas. Uma seleção sobre as perguntas que insistem em voltar, os conselhos que chegam tarde e a difícil tarefa de descobrir quem somos quando paramos de tentar agradar todo mundo.

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