
Fausto Fawcett transformou o delírio urbano brasileiro em linguagem muito antes de todo mundo começar a viver dentro dele.
Existe uma parte do trabalho de Fausto Fawcett que envelheceu bem demais para ser confortável. O universo que ele descrevia nos anos 80 e 90, marcado por excesso de informação, ansiedade coletiva, hiperestimulação e delírio urbano, deixou de parecer ficção futurista para virar rotina cotidiana.
Fausto nunca observou o Brasil como paisagem estável. Sempre enxergou o país como uma vertigem permanente. Um lugar onde desejo, paranoia, violência simbólica, mídia e sobrevivência emocional convivem sem produzir equilíbrio em nenhum momento.
Essa sensação continua viva em Animakina, espetáculo que Fausto apresenta no dia 28 de maio no Blue Note São Paulo. Com direção musical de Paulo Beto, participações de Edgard Scandurra e Mari Cristani, além dos visuais ao vivo de Jodele Larcher e Igor Peticov, o trabalho transforma música, projeção e performance verbal numa espécie de pane sensorial contínua.
A playlist “Sinal fora do ar” acompanha exatamente esse estado mental. Fausto organizou músicas para atravessar cidade grande tarde demais da noite, quando televisão ligada sem som, táxi vazio, rádio vazando e caminhada sem destino começam a embaralhar percepção, memória e realidade.
Ao longo da entrevista, Fausto descreve o Brasil como “um abismo que nunca chega”. A frase ajuda a entender quase toda a obra dele. Existe sempre sensação de colapso iminente, mas o país continua funcionando num estado permanente de vertigem improvisada. Nada explode completamente. Nada se resolve completamente. Tudo segue negociando sobrevivência no limite.
Na conversa com o deepbeep, Fausto Fawcett fala sobre ansiedade coletiva, juventude transformada em produto, obsessão, patologização dos afetos e sobre por que o Brasil continua produzindo uma das paisagens emocionais mais estranhas do planeta.
Lísias Paiva, criador e editor
O Brasil de hoje ainda consegue te surpreender ou você sente que o país finalmente alcançou as distopias que você já observava décadas atrás?
Nada realmente me surpreende. Fico interessado nisso como se tivesse um contador Geiger medindo a radiação dos acontecimentos, midiatizados ou não, e das pessoas tentando acontecer de qualquer maneira. Não é surpresa. Vou anotando e verificando o ponto de ebulição, a insatisfação e a vontade de aparecer das pessoas e dos acontecimentos coletivos.
Em geral, está todo mundo três doses acima da normalidade em ansiedade e expectativa. A qualquer momento, alguém pode virar um ponto de exclamação, porque o que estamos vivendo é uma espécie de existencialismo sensacionalista. Fico entretido observando as radiações e as ações das pessoas acontecendo como pontos de exclamação.
Você sempre transformou excesso urbano em linguagem. Existe algum som ou ruído cotidiano que ainda consegue atravessar você fisicamente?
Nunca gostei de usar fone ou ficar ouvindo música na rua. Basta sair de casa para já ser atropelado por sons, trechos de músicas e ruídos vazando pelas calçadas e pelos lugares.
Não existe uma música específica que me cause impacto. Vou andando e absorvendo esse muzaque urbano.
Grande parte dos seus personagens parece movida por obsessão, compulsão e desejo de ruptura. O que essas figuras ainda revelam sobre a forma como as pessoas tentam sobreviver emocionalmente hoje?
As pessoas vivem tentando satisfazer suas rações afetivas de acordo com expectativas e com aquilo que está agendado como sucesso existencial, profissional, sexual e afetivo numa sociedade extremamente comercializada, fetichizada e psiquiatrizada.
Os afetos passaram a ser tratados como demências sorrateiras que podem virar patologias medicadas. Mas existe uma inquietação permanente: uma fome de viver que não se encaixa em nada. Tem gente que consegue se adaptar melhor, mas sempre sobra alguma fricção.
Por isso me interessam personagens movidos por obsessões. Obsessões são concentrações afetivas que fazem alguém tentar se afirmar da maneira mais estranha, inesperada ou bizarra possível.
No fundo, todo mundo inventa miragens motivacionais para lidar com a civilização. As ferramentas intelectuais não dão conta do mundo atual. O máximo que conseguimos fazer é mapear afetos e tendências comportamentais. Eu resumiria tudo numa frase: “A minha fome de viver você não vai entender.”
Em que momento juventude deixou de ser potência de transformação e virou produto permanente da cultura de consumo?
Isso ficou muito claro nos anos 60. Foi quando a juventude virou definitivamente um produto no qual passaram a depositar expectativas absurdas, como se os jovens fossem os responsáveis por reinventar o mundo inteiro.
Aquilo vinha da ideia revolucionária de mudar abruptamente a sociedade. A música americana e inglesa ajudou a transformar isso numa grande fluidez poética. Só que nada mudou estruturalmente. O mercado e a mídia rapidamente capturaram esse sentimento de rebeldia e transformaram tudo em produto.
A juventude virou conceito publicitário há décadas. Hoje, ser jovem significa apenas dividir com o resto da sociedade os mesmos distúrbios, perigos, êxtases e fúrias. A rebeldia acabou reduzida à lógica de consumo.
Você já descreveu o Brasil como um organismo tomado por excesso, desejo e violência. O que o país se tornou hoje?
Costumo dizer que o Brasil é um abismo que nunca chega. É como cair e permanecer preso numa vertigem eterna.
Existem vertigens produtivas, que são os dribles contra a falta de políticas públicas e contra os conluios que vampirizam o dinheiro da população. Brasília é um esconderijo a céu aberto.
Ao mesmo tempo, o país virou território de facções políticas, econômicas e simbólicas. O Estado, as máfias e o mercado — farmacêutico, midiático ou algorítmico — funcionam como um cachorro de três cabeças brigando entre si. E o sangue deles é o nosso suor.
Ainda assim, existe uma dignidade de sobrevivência e trabalho brigando contra tudo isso diariamente. Talvez o diferencial brasileiro continue sendo o calor humano. Mas é um calor que também queima.
Que tipo de comportamento ou figura urbana ainda desperta sua curiosidade hoje?
O que me interessa continua sendo o grito de exclamação. Um terrível “sim” ou um terrível “não” para a vida vindo de alguém encurralado.
Sempre atravesso a rua para ouvir pessoas falando sozinhas, oradores improvisados, gente à deriva tentando organizar o próprio pensamento em voz alta. Vou atrás dessas falações.
O rádio, pessoas rezando com fé violenta e figuras urbanas falando compulsivamente pelas ruas continuam sendo algumas das principais fontes das minhas “falações” e “reportagens rap”. Quando encontro alguém tomado por esse fluxo verbal, acompanho discretamente.
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