
Iuri Rio Branco fala sobre o difícil trabalho de fazer uma música soar como ninguém além de quem a fez.
Iuri Rio Branco consegue começar uma produção com um áudio de WhatsApp. Antes de mexer no que recebeu, ele escuta. Uma pré-produção elaborada merece a mesma atenção. Para ele, o trabalho começa quando existe algo ali que vale a pena ser descoberto.
Essa escuta ajudou a construir uma carreira que já soma cinco indicações em quatro projetos ao Latin Grammy e duas vitórias na premiação. Iuri trabalhou com artistas de diferentes cenas e gêneros sem transformar essa diversidade em uma fórmula. Alguma coisa dele permanece em cada trabalho, embora ele próprio não saiba dizer exatamente o que é. A melodia oferece uma pista. Quando emociona antes de virar canção, Iuri sabe que encontrou uma direção. A partir dela podem aparecer ritmo, harmonia, letra. O processo tem menos a ver com impor uma ideia do que com perceber o que a música já está dizendo.
Essa maneira de trabalhar ganha outra dimensão quando ele olha para a música atual. Depois da corrida pelo viral, Iuri vê artistas voltando a procurar a própria personalidade. Uma questão antiga voltou a ficar difícil. Como fazer algo que tenha a sua cara quando existe referência para tudo?
Na conversa com o deepbeep, Iuri fala sobre criação, colaboração e escuta. Também escolhe para a playlist “as músicas que abriram caminho” para sua própria formação musical. A seleção passa por Sly & The Family Stone, Djavan, Prodigy, Sade, Jorge Ben e outras referências que ajudam a entender de onde vem esse ouvido.
Lísias Paiva, criador e editor
Iuri, você já ajudou a construir músicas para artistas muito diferentes entre si. O que costuma permanecer igual quando todo o resto muda?
Permanece eu hahaha, fazendo o melhor que eu posso pra cada trabalho. O que também permanece é o respeito pela realidade, sonoridade, natureza e identidade de cada artista. Enfim, sou eu fazendo, então algo meu que eu nem sei o que é permanece presente em tudo que eu faço. Respeito muito o que me é fornecido, seja uma pré-produção elaborada ou um áudio de WhatsApp. Sempre tento extrair o máximo daquilo enquanto escuto antes de começar a trabalhar. O resto vem naturalmente.
Existe alguma situação da vida que parece impossível de traduzir sem música?
A maioria das coisas legais da vida não seria tão legal assim se a gente não pudesse cantá-las.
Você já viu muitas músicas nascerem. Em que momento uma ideia deixa de ser possibilidade e vira direção?
Quando emociona ao ser expressa. Seja cantando ou tocando. Uma melodia simples, mas carismática, tem o poder de guiar a gente pra uma canção inteira. Eu costumo começar pela melodia. A melodia tem cor, a cor tem sentimento e o sentimento vira letra de música. Mas a melodia dá a pista pra tudo, seja ritmo, harmonia ou poesia.
Existe alguma qualidade que você aprendeu a reconhecer rapidamente em artistas que continuam evoluindo ao longo dos anos?
Tenho visto um movimento forte que, com a dinâmica de estímulos que a internet produz, havia se perdido. É o resgate da identidade própria, daquilo que cada um tem de especial e só consegue encontrar em si mesmo. Tenho notado isso. Já passada a era do viral, o resgate da própria personalidade é o que eu acho que vai determinar o sucesso de um artista. A nova geração tem isso muito forte.
O que uma colaboração revela sobre alguém que o trabalho individual raramente revela?
Revela muito sobre o que o artista deseja pra sua carreira. Um feat, seja por motivos mercadológicos ou apenas por afinidade mútua, revela aonde o artista quer chegar com sua música e também como ele quer ser ouvido. É uma maneira de se arriscar fora do seu gênero musical. Nem sempre sai como se deseja, mas, no geral, é um movimento positivo.
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