Jota.pê acredita que uma canção nunca canta sozinha

Retrato do cantor e compositor Jota.pê para entrevista do deepbeep sobre referências musicais, criação e escuta.

Jota.pê fala sobre encontros, referências e as conversas que continuam acontecendo dentro de uma canção.

Nenhuma música chega sozinha. Antes da primeira nota vieram outras vozes, outros discos, outras cidades e outras escutas. Uma canção responde a outra, muda um detalhe, desloca um ritmo, encontra um instrumento diferente e segue adiante. A história da música também pode ser lida como uma longa conversa entre artistas que nunca ocuparam a mesma sala. Jota.pê gosta de escutar desse jeito.

Vencedor de três categorias no Grammy Latino por Se o Meu Peito Fosse o Mundo, ele fala de Djavan, Gilberto Gil, Lenine, Caetano Veloso e Mayra Andrade como quem apresenta pessoas que continuam participando do processo criativo. As referências não aparecem como ponto de partida nem como homenagem. Permanecem dentro da música, transformadas.

A entrevista percorre encontros, memória, composição e escuta para investigar como uma identidade artística se forma ao longo dessas conversas. A playlist “A Mesma Conversa” amplia essa ideia por outro caminho. As músicas escolhidas por Jota.pê aproximam épocas, ritmos e geografias diferentes para mostrar como uma canção continua vivendo quando encontra outra disposta a responder.

Lísias Paiva, criador e editor

Jota.pê, qual encontro improvável mais mudou o rumo da sua vida?
Se for falando de artistas, conhecer a Mayra Andrade mudou completamente o meu jeito de fazer música. Conhecer a cultura de Cabo Verde e os artistas que são referência para ela abriu muita coisa para mim. Sem contar a amizade que construímos.

Quando duas referências muito diferentes finalmente fazem sentido na mesma canção?
Na minha cabeça, sempre que isso fizer sentido para o conceito da música, para as referências ou simplesmente quando o coração pedir, vale.

Você já conheceu alguém que mudou completamente a forma como você escuta o mundo?
Djavan e Lenine fizeram isso comigo pensando em harmonia e no jeito de tocar violão. Caetano Veloso fez isso comigo por causa dos textos, das letras das músicas.

Qual conversa continua acontecendo dentro das suas músicas, mesmo quando você muda de assunto?
Nas minhas composições mais recentes sempre existe uma conversa interna. É como se eu estivesse falando comigo mesmo para chegar a alguma conclusão.

Que descoberta fez você entender que identidade não tem a ver com pureza, mas com mistura?
Quando escuto as minhas referências, Lenine, Gil, Djavan e até Mayra, percebo que o que torna todos esses artistas especiais é a capacidade de absorver tudo o que escutam e transformar isso em alguma coisa nova, com um tempero próprio. Isso demora muito para acontecer. É justamente o que eu mais busco encontrar no meu som.

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Fotos por Laercio Pioi, Rafael Strabelli e Taís Valença

Agradecimentos à Luanna Marin pela conexão

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Algumas músicas nunca terminam quando acabam.
Jota.pê reuniu canções que continuam dialogando entre si, aproximando ritmos, épocas e lugares diferentes. Uma seleção sobre encontros, escuta e a descoberta de que toda identidade também nasce das conversas que uma música é capaz de abrir.

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