
A DJ e produtora Carola presta atenção em quem dança de olhos fechados, em quem fica até o fim e na hora de mudar o rumo do set.
Uma pista pode estar cheia e ainda assim alguma coisa não ter acontecido. Os grupos continuam nos próprios círculos, o celular disputa atenção com a música e o DJ percebe que o público ainda não embarcou. Carola conhece esse momento. Quando sente que as pessoas não estão respondendo ao set, muda de direção e procura entender o que elas estão pedindo. Como ela explica, em vez de tentar fazer com que o público se conecte com ela, tenta se conectar com o público.
Essa maneira de tocar exige atenção ao que acontece longe da cabine. Carola observa quem dança de olhos fechados, quem se entrega à música e, principalmente, quem permanece na pista até a última faixa. Para ela, esses pequenos sinais dizem muito sobre a noite. Uma reação pode ser silenciosa e ainda assim revelar que a música chegou onde precisava.
Na conversa com o deepbeep, a DJ e produtora fala sobre leitura de pista, improvisação e os clássicos que continuam funcionando diante de públicos diferentes. Na playlist “Quando Tocou“, reúne referências como Groove Armada, Jayda G, Larry Heard e Todd Terry, além de Funk Drunk, faixa que também integra seu trabalho como produtora.
Marcelo Nassif, sócio editor
Claudio Thorne, redes e comunidade
Mateus Nicastro, arte
Carola, você já viu uma pista nascer centenas de vezes. Qual é o primeiro sinal de que as pessoas deixaram de dividir o mesmo espaço e começaram a viver a mesma noite?
Eu acho que um dos principais indicadores de que as pessoas estão realmente se conectando com a noite que está acontecendo é quando elas começam a interagir como um todo, e não apenas com o próprio grupinho de amigos ou com o celular. Quando as pessoas esquecem um pouco essa necessidade de ficar fazendo mídia durante a noite e a preocupação passa a ser simplesmente dançar, se jogar e viver aquele momento, você percebe que alguma coisa mudou.
Eu acredito muito nesse conceito de consciência coletiva. É quando as pessoas começam a compartilhar a mesma energia, a mesma movimentação, a mesma experiência. Deixa de ser cada um vivendo no seu próprio mundinho e passa a existir uma sensação de que todo mundo está, de alguma forma, vivendo a mesma coisa juntos. E, para mim, é aí que você sabe que uma noite realmente aconteceu.
Tem uma música que você nunca se cansa de tocar porque ela sempre muda o ambiente? O que costuma acontecer quando ela entra?
Eu acho que existem vários clássicos que fazem diferença numa pista e são coringas musicais, que funcionam para diferentes públicos. Mas tem dois que eu gosto de tocar, que eu acho que funcionam em qualquer lugar. Um é Spiller featuring Sophie Ellis, “Groovejet”, e o outro é “Good Life”, do Inner City.
Você já mudou o rumo de um set por causa de uma única pessoa na pista? O que ela fez?
Por uma única pessoa, eu nunca mudei, mas pelo todo, assim, já diversas vezes. Eu acho que é muito interessante a gente entender quando as pessoas não estão se conectando com a gente e tentar fazer com que, enfim, a energia flua, sabe?
Então, eu nunca fiz isso por uma única pessoa, porque eu acho que, quando se trata de uma única pessoa, ela acaba sendo contagiada pelo ambiente. Mas, quando eu vejo que o todo não está respondendo ao que eu estou tentando fazer, em vez de eu fazer com que eles se conectem comigo, eu tento me conectar com eles.
Numa noite perfeita, qual é a reação mais bonita que quase ninguém percebe porque está olhando para o DJ?
Acho que, quando a galera está dançando de olhos fechados, é um dos momentos mais mágicos, sabe? Porque aí você vê que a pessoa está realmente conectada com aquele momento, está realmente sentindo a música.
Para muito além das reações mais energéticas e explosivas, que eu também acho incríveis, esse tipo de expressão é muito especial. Você vê que a pessoa está ali, mas a mente dela está com aquela música, às vezes em outro lugar, seja de nostalgia, seja de meditação, seja de, enfim, conexão com ela mesma. Eu acho que essa é uma das reações mais legais.
Quando você chega em casa depois de tocar, qual é a última imagem que ainda costuma estar com você?
O final sempre é algo que marca muito, porque a gente consegue entender a dimensão do que foi a apresentação pela quantidade de pessoas que permaneceram ali junto com a gente até o fim. Então, a imagem que eu sempre carrego, quando chego em casa e, às vezes, fico refletindo, é de como estava a pista quando eu finalizei o set.
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Ouça ‘Do For Love’ LP Giobbi, Bruno Be & Carola feat. Clover County
Agradecimentos à Iasmin Guedes da The Boreal Agency pela conexão
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A seleção de Carola com músicas que mudam a energia de um lugar e que continuam fazendo sentido quando ela pensa em pista, música e conexão.
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