Carola sabe quando uma pista aconteceu

Carola, DJ e produtora, em entrevista ao deepbeep sobre pistas, música e conexão com o público

Para Carola, uma noite muda quando a pista para de assistir e começa a participar.

Uma pista pode estar cheia e ainda assim parecer dividida. Cada grupo no seu canto, gente olhando para o celular, o DJ tentando adivinhar o que fazer a seguir. Carola conhece esse cenário e sabe reconhecer quando ele muda. Para ela, uma noite realmente acontece quando as pessoas deixam de viver apenas a própria experiência e passam a compartilhar alguma coisa. A música vira movimento, o movimento vira resposta e a pista começa a funcionar como um corpo só.

Essa leitura acompanha uma carreira construída entre diferentes públicos, pistas e territórios. Carola passou por festivais, clubes e grandes palcos sem abandonar uma ideia simples sobre a discotecagem. O DJ precisa saber ouvir antes de decidir o que tocar. Quando o público não responde, ela não tenta obrigá-lo a entrar no seu set. Muda a direção e procura se conectar com ele. Há ainda os pequenos sinais. Gente dançando de olhos fechados, uma pista que permanece até a última música, aquela faixa que muda completamente o ambiente. São reações que podem passar despercebidas para quem está olhando apenas para a cabine, mas que dizem muito sobre o que aconteceu ali.

Na conversa com o deepbeep, Carola fala sobre esses sinais, sobre abandonar o planejamento quando a pista pede outra coisa e sobre as músicas que continuam funcionando como coringas. A playlist “Quando Tocou”, escolhida por Carola, reúne referências como Groove Armada, Jayda G, Larry Heard e Todd Terry, além de Funk Drunk, faixa assinada por Carola, Felix da Housecat e Fatboy Slim.

Marcelo Nassif, sócio editor

Carola, você já viu uma pista nascer centenas de vezes. Qual é o primeiro sinal de que as pessoas deixaram de dividir o mesmo espaço e começaram a viver a mesma noite?
Eu acho que um dos principais indicadores de que as pessoas estão realmente se conectando com a noite que está acontecendo é quando elas começam a interagir como um todo, e não apenas com o próprio grupinho de amigos ou com o celular. Quando as pessoas esquecem um pouco essa necessidade de ficar fazendo mídia durante a noite e a preocupação passa a ser simplesmente dançar, se jogar e viver aquele momento, você percebe que alguma coisa mudou.
Eu acredito muito nesse conceito de consciência coletiva. É quando as pessoas começam a compartilhar a mesma energia, a mesma movimentação, a mesma experiência. Deixa de ser cada um vivendo no seu próprio mundinho e passa a existir uma sensação de que todo mundo está, de alguma forma, vivendo a mesma coisa juntos. E, para mim, é aí que você sabe que uma noite realmente aconteceu.

Tem uma música que você nunca se cansa de tocar porque ela sempre muda o ambiente? O que costuma acontecer quando ela entra?
Eu acho que existem vários clássicos que fazem diferença numa pista e são coringas musicais, que funcionam para diferentes públicos. Mas tem dois que eu gosto de tocar, que eu acho que funcionam em qualquer lugar. Um é Spiller featuring Sophie Ellis, “Groovejet”, e o outro é “Good Life”, do Inner City.

Você já mudou o rumo de um set por causa de uma única pessoa na pista? O que ela fez?
Por uma única pessoa, eu nunca mudei, mas pelo todo, assim, já diversas vezes. Eu acho que é muito interessante a gente entender quando as pessoas não estão se conectando com a gente e tentar fazer com que, enfim, a energia flua, sabe?
Então, eu nunca fiz isso por uma única pessoa, porque eu acho que, quando se trata de uma única pessoa, ela acaba sendo contagiada pelo ambiente. Mas, quando eu vejo que o todo não está respondendo ao que eu estou tentando fazer, em vez de eu fazer com que eles se conectem comigo, eu tento me conectar com eles.

Numa noite perfeita, qual é a reação mais bonita que quase ninguém percebe porque está olhando para o DJ?
Acho que, quando a galera está dançando de olhos fechados, é um dos momentos mais mágicos, sabe? Porque aí você vê que a pessoa está realmente conectada com aquele momento, está realmente sentindo a música.
Para muito além das reações mais energéticas e explosivas, que eu também acho incríveis, esse tipo de expressão é muito especial. Você vê que a pessoa está ali, mas a mente dela está com aquela música, às vezes em outro lugar, seja de nostalgia, seja de meditação, seja de, enfim, conexão com ela mesma. Eu acho que essa é uma das reações mais legais.

Quando você chega em casa depois de tocar, qual é a última imagem que ainda costuma estar com você?
O final sempre é algo que marca muito, porque a gente consegue entender a dimensão do que foi a apresentação pela quantidade de pessoas que permaneceram ali junto com a gente até o fim. Então, a imagem que eu sempre carrego, quando chego em casa e, às vezes, fico refletindo, é de como estava a pista quando eu finalizei o set.

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Ouça ‘Do For Love’ LP Giobbi, Bruno Be & Carola feat. Clover County

Agradecimentos à Iasmin Guedes da The Boreal Agency pela conexão

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A seleção de Carola com músicas que mudam a energia de um lugar e que continuam fazendo sentido quando ela pensa em pista, música e conexão.

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