
Entre o real e o inventado, Bella Piero escolhe os dois.
Bella Piero aprendeu cedo que observar podia valer tanto quanto atuar. Aos sete anos, quando começou a fazer teatro, já caminhava pela rua reparando em como as pessoas se encontravam e ocupavam a cidade. Anos depois, essa curiosidade deu origem ao BLÉH: Breve Lista de Episódios Humanos, projeto no qual Bella transforma relatos de leitores em cenas de uma série de vídeos.
Por mais que experiências possam virar ficção, também existe interesse por tudo aquilo que não precisa virar roteiro imediatamente. Para criar, a atriz precisa do contrário, observar sem a pressão de transformar tudo em conteúdo.
Para o deepbeep, Bella contou sobre o que continua chamando sua atenção quando anda pela rua, sua paixão em estudar psicanálise, a diferença entre viver uma experiência e produzir uma versão dela para as redes sociais e como a música pode mudar a leitura de uma cidade inteira, sem que ela mude de lugar. A playlist “Cenas Que Não Foram Filmadas” prolonga a conversa com faixas que transformam momentos comuns em histórias que continuam muito depois da caminhada.
Por Claudio Thorne, social media.
Com supervisão de Lísias Paiva, editor chefe.
Quando um trabalho longo acaba, para onde vai a sua atenção quando você deixa de acompanhar a vida de uma personagem?
Que pergunta interessante! Sou uma atriz muito dedicada e apaixonada pelo processo criativo das minhas personagens. Me deleito quando tenho tempo para desenvolver a personalidade e a lógica comportamental que existem por trás das palavras do roteiro.
Gosto de partir de perguntas, de improvisos e de muita pesquisa de referências. É esse caminho que vai abrindo novas possibilidades e me permite encontrar camadas que, ao mesmo tempo, convergem e divergem de mim. No fundo, esse também é um processo profundo de autoconhecimento. Quanto mais me conheço, mais ferramentas descubro em mim para construir pessoas completamente diferentes.
Quando deixo uma personagem para trás, procuro justamente me reabastecer dessa matéria-prima que considero a mais importante para qualquer artista: o humano. Porque, para mim, ele é tanto a origem quanto a consequência da experiência cênica. Não por acaso, hoje estudo psicanálise no Núcleo Remo. Descobri que, independentemente da forma como ele se apresenta — seja em um roteiro, em personagens emocionalmente complexos ou em um consultório, com outro ser humano analisando — o que realmente me fascina é o material do inconsciente e as inúmeras maneiras de acessá-lo.
Também gosto muito de escalar. Descobri um esporte de alta performance que me coloca constantemente diante do manejo de emoções intensas: medo, desconforto, risco, limite. É um espaço em que preciso encontrar diferentes soluções enquanto permaneço presente. Para mim, é uma forma lúdica de treinar justamente essa qualidade da presença.
Além disso, vivo uma fase muito apaixonada pela literatura. Minhas últimas leituras foram “Análise”, da Vera Iaconelli, “O Perigo de Estar Lúcida”, da Rosa Montero, e agora estou lendo “Cartas a um Jovem Poeta”, de Rainer Maria Rilke.
Acredito que todas essas experiências — a psicanálise, a escalada, a literatura e a própria vida — alimentam meu mundo interno e onírico. São elas que ampliam meu repertório, provocam novas associações e, aos poucos, abrem caminhos para que eu possa contar outras histórias.
Que tipo de cena no meio da rua ainda faz você diminuir o passo para observar melhor?
Como comentei anteriormente, o singelo sempre chamou minha atenção. Desde criança fui muito observadora. Comecei a fazer teatro aos sete anos e caminhar pela rua já era, para mim, um exercício constante de observação: uma oportunidade de perceber diferentes personalidades, risadas, formas de andar, maneiras de ocupar um espaço, tipos de olhar, encontros e desencontros.
Costumam dizer que um ator precisa saber “roubar bem”, e a rua é um dos lugares mais generosos para isso. Ela oferece um repertório inesgotável de humanidade. Sempre me interessou menos o acontecimento em si e mais aquilo que parece existir por trás dele. O que terá levado alguém a falar daquele jeito? O que existe naquele silêncio? Por que aquela pessoa atravessa a rua daquela forma?
Às vezes é justamente na minúcia que encontramos uma potência enorme de revelação — sobre o outro e, inevitavelmente, sobre nós mesmos. São essas pequenas cenas que costumam prender meu olhar: crianças brincando na praça, inventando histórias através de suas próprias linguagens e neologismos; uma avó reencontrando o neto; um abraço que parece durar alguns segundos a mais do que o esperado; um casal apaixonado que, por um instante, faz o tempo desacelerar ao redor; um grupo de pessoas completamente diferentes entre si dividindo uma pista de dança da forma mais democrática possível.
Também me chama atenção o livro que alguém está lendo no metrô. A lua cheia iluminando uma rua vazia. Uma performance acontecendo de forma espontânea. São imagens aparentemente comuns, mas que carregam uma enorme capacidade de despertar perguntas e imaginação.
No fim, acho que o que mais me emociona é perceber que a vida está constantemente encenando pequenas histórias diante dos nossos olhos. Basta estarmos verdadeiramente presentes para percebê-las.
Na hora de criar uma história, como você percebe que uma situação real merece virar ficção?
Acho que qualquer situação real tem potencial para virar ficção. O que determina isso, para mim, não é necessariamente o tamanho do acontecimento, mas a quantidade de conflito, contradição e humanidade que ele carrega.
Tenho muito interesse por aquilo que acontece nas entrelinhas das relações, pelos mal-entendidos, pelos desejos que não são ditos, pelas pequenas ironias da vida. Às vezes, um acontecimento aparentemente banal revela muito mais sobre uma pessoa do que um grande evento. E é justamente esse tipo de material que desperta minha curiosidade como atriz e como contadora de histórias.
Foi desse interesse que nasceu o “BLÉH — Breve Lista de Episódios Humanos”, meu novo quadro para as redes sociais. A proposta surgiu do encontro entre ficção e realidade. Criei um canal de comunicação direta com os meus seguidores, por meio de um e-mail, para que eles compartilhassem histórias que realmente viveram e que, de alguma forma, fossem um tanto “bléh”.
A partir desses relatos, eu transformo cada experiência em uma microcena, oferecendo um novo olhar sobre aquela história. Tem sido um processo muito emocionante acompanhar tantas narrativas diferentes. Muitas delas parecem elaboradas demais para terem acontecido de verdade, mas são absolutamente reais. Isso reforça uma percepção que tenho cada vez mais: a realidade costuma ser muito mais surpreendente do que a ficção.
O mais bonito, porém, foi perceber um efeito que eu não havia previsto quando idealizei o projeto. Aos poucos, o “BLÉH” acabou se tornando também um espaço seguro para que essas histórias fossem contadas pela primeira vez. Muitas pessoas me escreveram dizendo que nunca haviam falado sobre aquele acontecimento antes, que foi a primeira vez que conseguiram nomear o que sentiram e que, ao escrever, experimentaram uma sensação de alívio, como se um peso tivesse deixado de existir.
Acho muito bonito quando uma história pode ser revisitada por outro ângulo. Às vezes, não mudamos o que aconteceu, mas mudamos a forma como nos relacionamos com aquilo. E isso, inevitavelmente, tem algo de muito psicanalítico.
No fim, acredito que toda boa ficção nasce exatamente daí: da capacidade de olhar para uma experiência humana e encontrar nela um sentido que, até então, ainda não havia sido visto!
Em que momento gravar uma situação interfere na experiência de viver aquilo?
Acho que essa pergunta toca em uma questão muito delicada do nosso tempo: a diferença entre viver uma experiência e performar essa experiência.
Vivemos em uma sociedade cada vez mais atravessada pela troca digital e pelos estímulos constantes que ela produz. Como consequência, muitas vezes acabamos condicionados a compartilhar tudo o que vivemos e, pouco a pouco, a transformar a própria experiência em conteúdo.
Em alguns momentos, sinto que essa lógica pode embaralhar uma fronteira que considero muito importante: a diferença entre aquilo que é vivido e aquilo que é mostrado.
Como atriz e pessoa pública, sinto essa tensão diariamente. Ao mesmo tempo em que as redes sociais se tornaram uma ferramenta fundamental de comunicação e trabalho, elas também criaram uma expectativa de presença permanente. Existe uma sensação de que precisamos estar constantemente produzindo, registrando, opinando e alimentando esse fluxo de conteúdo para continuarmos existindo profissionalmente.
E isso me atravessa porque, para criar, eu preciso justamente do contrário em muitos momentos. Preciso de silêncio. Preciso de tempo. Preciso caminhar, observar, ler, estudar, viver experiências que talvez não apareçam em uma postagem. São nesses espaços de recolhimento que encontro grande parte da matéria-prima que depois se transforma em trabalho.
Quando sinto que esse tempo também precisa ser registrado, fotografado ou filmado, ele deixa de cumprir completamente sua função. A solitude corre o risco de virar produção. A contemplação pode se transformar em demanda. E existe uma diferença enorme entre essas duas experiências.
Não digo isso como alguém que observa esse fenômeno de fora. Também faço parte dele e convivo diariamente com esse paradoxo. Hoje, dificilmente um artista pode simplesmente desaparecer das redes por um período sem que isso tenha consequências para sua visibilidade.
Por isso, mais do que responder à pergunta, ela me faz pensar em outra: quanto daquilo que vemos nas redes corresponde, de fato, à experiência vivida? E quanto já nasce atravessado pela necessidade de ser compartilhado?
Acho que essa é uma reflexão que vale para todos nós.
O que muda na forma como você escuta uma música quando ela acompanha uma observação sua da cidade?
Acho curioso porque a música tem a capacidade de alterar completamente a narrativa de uma mesma cena. A cidade continua exatamente igual, mas quem muda sou eu!
Dependendo do que estou ouvindo, uma rua movimentada pode parecer melancólica, um fim de tarde ganha contornos cinematográficos ou um simples encontro entre desconhecidos passa a carregar uma história inteira que talvez nem exista.
Como atriz, isso me interessa muito, porque revela o quanto a nossa percepção nunca é completamente objetiva. Nós estamos sempre interpretando o mundo a partir do nosso estado interno. A música potencializa isso. Ela não acompanha apenas a observação da cidade, ela dialoga com ela e cria uma terceira coisa: uma espécie de filme íntimo que acontece entre o que vejo e o que sinto.
Às vezes me pego imaginando quem são aquelas pessoas, para onde estão indo, o que aconteceu cinco minutos antes daquela cena. É quase um exercício espontâneo de dramaturgia.
A trilha sonora não serve apenas para colorir a realidade, ela abre espaço para que o inconsciente faça associações, complete lacunas e invente histórias.
Talvez por isso eu goste tanto de caminhar ouvindo música. É um jeito muito bonito de lembrar que a realidade nunca chega pronta para nós; ela é sempre atravessada pela nossa sensibilidade.
E, para quem vive de contar histórias, esse atravessamento é uma fonte inesgotável de criação.
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Fotos por Maria Magalhães
Agradecimentos ao Elton Meneses e à Lara Vale, da PassCom, Assessoria de Comunicação
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