
Marcelo Tas ainda procura as perguntas capazes de desorganizar suas certezas.
Marcelo Tas já entrevistou presidentes, inventou personagens, provocou celebridades, conversou com crianças e passou por quase todas as transformações relevantes da televisão brasileira. A pergunta que continua interessando a ele é outra. O que ainda consegue desorganizar uma certeza? Não é uma pose de curiosidade. Ele fala de crianças que fazem perguntas sem filtro, de adultos distraídos, de pássaros que aprendeu a ouvir como um detetive bioacústico e do humor como uma maneira de cutucar o autoritarismo.
O silêncio também entra nessa conversa. Depois de tantos anos fazendo perguntas, Tas aprendeu que uma pausa pode carregar mais informação do que uma resposta. Encontrar o ritmo certo entre fala, silêncio e surpresa é, para ele, uma tarefa para a vida inteira.
Na playlist “O Que Ainda Provoca”, ele reúne músicas que continuam reorganizando sua atenção. Luiz Gonzaga encontra Michael Jackson. Miles Davis passa por Led Zeppelin. Rita Lee, Sabotage, Laurie Anderson, Talking Heads, Bach e Ravi Shankar aparecem pelo caminho. Na conversa com o deepbeep, Marcelo Tas fala sobre atenção, humor, silêncio, música e curiosidade. E sobre a disposição de dizer uma frase que parece simples, mas mantém uma pessoa em movimento.
“Eu não sei, vou atrás de saber…”
Lísias Paiva, criador e editor
Marcelo, em que momento você percebe que uma pessoa está realmente prestando atenção e não apenas olhando para você?
Eu percebo pelo movimento do corpo, não das palavras. Uma interação plena envolve ação e reação, um ir e vir semelhante à respiração ou às ondas na praia. Quando realmente alguém presta atenção a alguém, faz isso com o corpo inteiro.
O humor sempre foi uma ferramenta forte no seu trabalho, mas hoje parece existir menos espaço para ambiguidade e mais pressão por posicionamento imediato. O que ficou mais difícil de provocar?
O humor é uma encrenca e uma bênção fascinante. Não muda muito no tempo. O chato, essa praga universal, sempre existiu. Claro, as redes digitais contribuíram para dar mais volume aos ruídos. Por isso, é crucial não desistir de provocar os limites, cada um dentro do seu estilo e contexto.
O humor é uma ferramenta eficiente para cutucar o autoritarismo. É uma lente reveladora da hipocrisia humana. A comédia é um negócio sério, um medicamento essencial na cesta básica da saúde mental. Humano vem de húmus, material em decomposição, esterco… O humor está aí para nos lembrar que, apesar da tentativa de manter a pose de importante, somos feitos de cocô, carentes, frágeis e imperfeitos.
O que a música faz com a atenção das pessoas que nenhuma outra linguagem consegue fazer?
A música é a linguagem mais sofisticada e sutil das artes. É a linguagem que melhor expressa o envolvimento amoroso, inclusive entre os animais. Ando viciado, como um detetive bioacústico, em hackear os cantos dos pássaros na natureza.
Diferente da imagem, que viaja até no vácuo, a música não existe sem matéria. O som é uma vibração de moléculas que nos atinge pelo corpo inteiro, não apenas através dos ouvidos. A música é um banho completo para os nossos átomos e alma.
Você ainda encontra perguntas que desorganizam as suas certezas? Onde elas costumam aparecer?
Sim, geralmente quando converso com crianças. As perguntas que partem desses pequenos seres são afiadas e sem filtro. Procuro estar sempre com as crianças. Ou com adultos distraídos, despreocupados em ser alguém diferente de quem são.
Grande parte da sua trajetória foi construída fazendo perguntas desconfortáveis para pessoas muito poderosas. O que você aprendeu sobre silêncio depois de tantos anos ouvindo respostas?
O silêncio é uma das formas mais poderosas de comunicação. Sem ele, não há drama, nem música, nem emoção ou fluxo de conversa alguma. Encontrar a dosagem ideal para o ritmo da fala, as variações de ritmo e as pausas para que surja o desejado momento inédito é tarefa para a vida inteira.
Depois de tantas mudanças na mídia, na tecnologia e no comportamento, o que você sente que precisou preservar em você mesmo para continuar curioso?
Não se levar tão a sério. A curiosidade é movida pelo reconhecimento da nossa imensa e ilimitada ignorância. O ato de dizer “eu não sei, vou atrás de saber…” é simples e revolucionário.
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Agradecimentos a Dora Veloso da Equipe Supernormal pela conexão
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Músicas que continuam mexendo com a atenção de Marcelo Tas. Luiz Gonzaga encontra Michael Jackson. Miles Davis passa por Led Zeppelin. Sabotage aparece ao lado de Laurie Anderson. Bach divide espaço com Ravi Shankar. Uma seleção para sair do automático.
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