Dudu Bertholini acredita que a originalidade virou luxo

Dudu Bertholini em entrevista e playlist para o deepbeep sobre moda, liberdade, originalidade e a construção de uma identidade que não depende de aprovação externa.

Dudu Bertholini fala sobre o momento em que a roupa deixa de ser expressão e passa a decidir quem podemos ser.

Durante muito tempo, a moda vendeu pertencimento. Dudu Bertholini fala de outra coisa. Liberdade. Ao longo da conversa, tendências, padrões estéticos, algoritmos e comportamento aparecem como forças capazes de influenciar a forma como nos mostramos ao mundo. O problema começa quando entregamos a elas decisões que deveriam ser nossas.

“A roupa limita quando seguimos tendências sem questioná-las.”

A frase surge cedo na entrevista e ajuda a organizar o restante da conversa.

Dudu não defende um jeito específico de vestir. Não espera que as pessoas se vistam como ele. O interesse está em algo mais amplo. A possibilidade de cada pessoa construir uma relação mais livre com a própria imagem, com os próprios desejos e com aquilo que a torna singular. É nesse contexto que surge outra ideia importante. A originalidade se transformou no verdadeiro luxo. Num ambiente acelerado, onde tudo corre o risco de ser copiado, simplificado ou transformado em tendência, preservar a própria identidade exige atenção constante. Passarela, televisão, palestras, comunicação e moda aparecem como plataformas diferentes para defender a mesma mensagem. Mais importante que o meio é a mensagem.

A playlist “Corpo em Cena” acompanha essa visão. Reunida pelo próprio Dudu, ela atravessa Grace Jones, Prince, Dalida, Jessie Ware, Liniker, Linn da Quebrada, Maria Bethânia e Gilberto Gil. Artistas que fizeram da identidade uma linguagem própria. Na entrevista ao deepbeep, Dudu fala sobre moda, comportamento e liberdade. A playlist continua essa conversa através da música.

Lísias Paiva, criador e editor
Com colaboração de Claudio Thorne, social media

Dudu, você sempre tratou moda como algo que liberta, não só como estética. Em que momento a roupa deixa de ser expressão e vira limitação?
A roupa limita quando seguimos tendências sem questioná-las. Quando nos vestimos para os outros ou atribuímos à moda o poder de decisão sobre o que devemos vestir — e sobre como deveríamos ser e nos parecer para sermos admirados e desejados. Nosso estilo também deixa de ser expressão quando acreditamos demais nos padrões estéticos ainda vigentes e nos afastamos daquilo que nos faz pessoas únicas e particulares.

Seu trabalho mistura cor, excesso e presença de um jeito muito assumido. O que você faz questão de não suavizar?
Faço questão de não suavizar justamente a cor, o excesso, a presença e a exuberância, já que essas são ferramentas importantes para expressar visualmente a ideia de moda para libertar. Eu não espero que as pessoas se vistam como eu ou como os meus trabalhos propõem, mas sim que eles possam inspirá-las a serem mais livres e acreditarem nos seus diferenciais, dentro das suas próprias realidades e subjetividades. Mas há outras coisas que busco sempre tornar mais suaves: as relações humanas e a valorização das diferenças, por exemplo, em um mundo cada vez mais reativo e polarizado, onde o hate vale mais do que o like.

Existe uma pressão constante para tornar tudo mais aceitável, mais vendável, mais fácil. Em que momento você percebe que está cedendo e o que te faz voltar?
Em um mundo que gira na velocidade dos algoritmos, é preciso cuidado para não gentrificar, pasteurizar e banalizar tudo aquilo que nasce autêntico. A originalidade se transformou no verdadeiro luxo. Hoje eu ocupo espaços e plataformas muito diferentes entre si e falo com públicos muito distintos. Meu exercício constante é mudar tudo aquilo que eu posso, aceitar o que não pode ser mudado e ter sabedoria para distinguir a diferença entre os dois.

Você já esteve em espaços muito diferentes, da passarela à televisão. O que você se recusa a adaptar, mesmo quando o contexto pede?
Sou uma pessoa multidisciplinar e acredito que, mais importante do que o meio, é a mensagem. Todas as plataformas onde eu possa me comunicar verdadeiramente me interessam. A vida é um complexo e constante exercício de adaptação. Para que nossa maneira de ver o mundo prevaleça, é preciso respeitar a maneira como outres veem o mundo também. Portanto, só me recuso a adaptar aquilo que passa por cima dos meus valores ou atravessa os meus princípios.

Quando alguém olha para o que você faz e reduz a algo superficial, isso te incomoda ou faz parte do jogo?
Não tenho controle — e nem espero ter — sobre a maneira como outras pessoas enxergam o mundo. Posso até querer inspirá-las da melhor forma possível, mas não cabe a mim decidir como elas vão interpretar quem eu sou e o que o meu trabalho representa. Prefiro sempre devolver essa pergunta para mim mesmo, buscando nunca reduzir a profundidade da minha mensagem.

Acompanhe o trabalho de Dudu Bertholini
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Fotos por Allyson Alapont, Henrique Tarricone e Marcelo Krasilcic

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Ouça a playlist de Dudu Bertholini no seu player preferido

Para acompanhar sua entrevista ao deepbeep, Dudu Bertholini reuniu músicas sobre identidade, liberdade e expressão. Uma playlist para quem prefere originalidade à aprovação.


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