
Natália Lebeis transforma poesia em pista, estranhamento em dança e mostra como uma mudança de contexto pode revelar sentidos que antes estavam escondidos.
Natália Lebeis gosta de tirar as coisas do lugar. A frase aparece logo no começo da entrevista, mas funciona como uma chave para entender todo o seu trabalho. A poesia encontra a pista de dança. O humor convive com o existencialismo. Guitarras dividem espaço com sintetizadores. A mesma música muda de ambiente e revela sentidos que ainda estavam escondidos. Essa forma de criar desloca a atenção da obra para a escuta. O interesse deixa de ser apenas o que uma música é e passa a incluir o que ela pode se tornar quando muda de contexto.
A playlist nasce da mesma inquietação. Reunida por Natália Lebeis, ela aproxima músicas que desafiam classificações, atravessam linguagens e mostram como pequenas mudanças de perspectiva podem produzir experiências completamente diferentes. Na entrevista ao deepbeep, Natália Lebeis fala sobre criação, experimentação e sobre o prazer de descobrir novos caminhos dentro daquilo que muita gente já considerava pronto.
Lísias Paiva, editor-fundador
Natália, o ‘Choque Eletrostático’ original era um disco muito focado na poesia e em colagens sonoras. O que te provocou a levar esse material para um lugar tão diferente, focado na pista de dança?
Eu gosto de tirar as coisas do lugar rs. Ainda é um disco de texturas e provocação sonora, mas agora a partir dessa evocação à pista, um lugar que sempre habitei e que sempre foi um espaço de descoberta, empoderamento e libertação para mim. Não vejo essa versão como sendo tão diferente da original. Ambas desejam a dança, talvez cada uma sugira isso de maneira diferente.
A nova sonoridade é muito focada no pós-punk e no industrial. Como foi o seu processo artesanal para ‘traduzir’ essas canções? De onde veio a intuição de levá-las para esse lugar?
Eu já queria explorar gêneros musicais que nasceram a partir da entrada de eletrônicos no rock, quando a galera começa a incorporar sintetizadores, drum machines e sequenciadores. É uma fase cheia de experimentação e possibilidades, o que me inspira muito. E eu já tenho uma fascinação natural por essa época, tanto que o meu selo, o Palatável Records, está olhando para isso, pro electro-rock brasileiro. Então foi bem natural. Eu apenas abri a gaveta e vasculhei um pouco lá dentro rs.
O álbum original explorava o ‘esquisito’. Ao levar essas mesmas letras para a pista, qual é a nova conversa ou a nova sensação que você quer provocar no ouvinte?
O esquisito ainda está lá! Eu sou naturalmente inclinada a assuntos existencialistas, metáforas, associações esquisitas rs. O humor também é uma grande ferramenta para mim. E esses temas podem estar inseridos em qualquer contexto, que, a depender da abordagem, vão te cutucando de maneiras diferentes. ‘Choque Eletrostático’ no disco original é uma poesia existencial permeada por uma atmosfera sonora cíclica, quase etérea. Agora, na versão alternativa, ela virou um dub rs. Como esse deslocamento pode alterar nossa percepção sobre ela? Isso me interessa muito.
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Fotos: Ivi Maiga Bugrimenko
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