Entre afeto, divergência, escuta e música, Ellen Oléria acredita que o nosso tempo desaprendeu uma coisa fundamental. Sentir.
Ellen Oléria passa boa parte da entrevista falando sobre algo que parece cada vez mais raro. Tempo. Tempo para escutar. Tempo para divergir. Tempo para sentir.
Ao longo da conversa, a cantora conecta música, afeto, política, relações e comportamento para defender uma ideia simples. A experiência humana não funciona sem atravessamento emocional. E boa parte dos mecanismos que organizam a vida contemporânea parece trabalhar justamente na direção contrária. A velocidade produz impaciência. As bolhas reduzem a divergência. A produtividade transforma sensações em obstáculos. E a anestesia vira hábito.
Em resposta, Ellen propõe outra coisa. Escuta. Curiosidade. Presença. Convívio. Não como nostalgia de um mundo mais simples, mas como exercício diário de humanidade.
A playlist “Gente de Verdade” acompanha essa visão. Entre Tião Carreiro & Pardinho, Djavan, Nina Simone, Whitney Houston, Elza Soares, Bia Ferreira e Letícia Fialho, Ellen reúne músicas que continuam aproximando pessoas, mobilizando memórias e lembrando que sentir não é uma fraqueza. Na conversa com o deepbeep, Ellen Oléria fala sobre música, afeto, divergência e sobre a necessidade de reativar o regozijo na vida.
Marcelo Nassif, sócio editor
Você canta de um jeito que parece encontro antes de parecer performance. O que faz uma música realmente aproximar as pessoas hoje?
Acredito que as pessoas se espelham nas canções. Mesmo que não seja algo vivido, experienciado, o que atravessa nosso desejo ou visão de mundo nos toca inevitavelmente. A fé une as pessoas através da música. Os cantos religiosos aproximam seus adeptos da catarse, da sua divindade. Percebo que, na realidade do nosso país, esquecer as agruras da vida cotidiana e se conectar com a alegria também é motivo de ajuntamento a partir da música. Mesmo através de uma letra que trate de um amor perdido, uma desilusão, se ela toca naquele ritmo que movimenta o corpo, move também a alma. E, afinal, mesmo quem nunca sofreu por amor quer um dia viver essa experiência. Vive, sofre e cura seu coração partido compartilhando com a compositora e com o compositor essa experiência na canção.
Tem algo bonito também na força do tempo. As gerações se encontram num som. Ele convoca a memória de um evento experienciado coletivamente. É lindo ver quando uma música extrapola uma geração e atravessa décadas mobilizando o desejo das ouvintes e dos ouvintes.
Uma música empurrada por alto investimento de capital também marca seu tempo, porque toca repetida e forçosamente nos meios de comunicação. A despeito do seu valor estético, uma música repetida à exaustão também passa a habitar o nosso imaginário.
São tantas variáveis… Acredito que, no fundo, o que nos une é o mistério que acompanha a deusa música.
Tem alguma música que ainda consegue desmontar você emocionalmente sem aviso?
Várias. Posso ir nas mais antigas, que me levam para lugares especiais da minha infância, como “Boi Soberano”, nas vozes de Tião Carreiro e Pardinho. “Ferrugem”, do Djavan, é potente demais. A voz do Péricles sempre me faz viajar.
Recentemente, tenho sido muito atravessada por Letícia Fialho e sua recém-lançada “Outra Ladeira”. O balanço de Anna Tréa em “Sanha”, daquele jeitinho bom falando de amor.
As canções do meu trabalho mais recente também me movimentam profundamente.
Seu trabalho sempre carregou afeto, mas nunca um afeto passivo. O que você acha que as pessoas desaprenderam sobre escuta?
A velocidade desta era tem nos deixado impacientes. E é necessário tempo para se encontrar na diferença. Tempo é moeda rara. Está faltando curiosidade para descobrir novos caminhos e se aventurar pelo mundo.
A internet fez muita gente falar o tempo inteiro, mas nem sempre se conectar de verdade. O que ficou mais difícil encontrar nas relações hoje?
Divergência. Se o casal diverge, separa. Se a amizade diverge, abandona. Estranhamente, a mesma régua não vale para o violento e para o malfeitor quando eu me espelho nele em algum marcador. Vi um vídeo assustador de um homem agredindo uma mulher. Sua companheira. E os comentários eram assombrosos. Em vez de problematizarem o descontrole emocional e a violência extrema, vi vários comentários dizendo “tem que ouvir os dois lados” ou “o que será que ela fez?”, como se houvesse algo que justificasse tal ato. A maioria, homens. Que deveriam ser os primeiros a se revoltar contra tamanha covardia. Mas eles se identificam com o agressor. Porque são homens. O político roubou o povo. Votou contra o povo. Mas ele é da mesma religião que eu, então ele é bom. Sabe? Falta divergência. Falta sair de dentro da bolha. Se abrir para ouvir o que nos distancia.
Existe uma entrega muito forte no jeito como você canta, mesmo quando a música é dura. O que ainda vale a pena sentir profundamente hoje?
Entendo que há tempo para tudo. E precisamos sentir. Seja o que for, precisamos sentir. Nos permitindo transitar entre as sensações. Permanecer num único estado é patológico. Para que haja luz, é preciso escuridão. Essa anestesia que a superprodutividade trouxe para a nossa vida precisa ser interrompida. Uma letargia. Estamos numa temporada em que se tornou insuportável sentir. Viemos de uma geração dependente de álcool e tabaco para uma geração dependente de psicotrópicos. Ou isso, ou a anestesia de uma religiosidade radical e a dopamina da tela. De algum modo, e há tempos, estamos nos anestesiando. A experiência humana tem sido extrema e dolorosa. Precisamos reativar o regozijo na vida.
Seu novo disco “Canto de Casa Vol. 1” está chegando. Nas canções lançadas antes da chegada do disco é possível observar uma volta ao início da sua carreira. Como você enxerga este trabalho?
Ouroboros. O movimento da cobra mordendo o próprio rabo. Estamos num eterno recomeço, não é mesmo? Depois de vinte e cinco anos de música, volto para casa e reencontro o motivo de me manter uma operária da arte. Falar de amor. Aproximar a partir da música. Fazer rir, dançar, cantar. Lembrar que é bom viver. Que é bom partilhar. Conectar. Temos o aqui e agora. Depois, a gente não sabe. A gente deseja e imagina, mas o que temos de fato é o agora. Olhamos para o passado para construir o futuro que sonhamos. Sem nos abandonar pelo caminho. Juntando nossos pedaços. Nos permitindo tocar e ser tocadas. Nosso canto de casa está nos chamando para o ninho. E não estou falando necessariamente da família original. Estou falando dos laços que aprendemos a construir. Dos lugares que escolhemos habitar. Vamos fazer festa porque estamos vivas.
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