
Rafael Rocha acredita que a escuta ficou mais rasa justamente quando a música virou acesso infinito.
Durante muito tempo, a internet vendeu a ideia de que acesso resolveria tudo. Mais música, mais velocidade, mais descoberta, mais recomendação. Em teoria, nunca foi tão fácil escutar qualquer coisa. Na prática, talvez tenha ficado mais difícil sustentar relação real com música.
Quase vinte anos depois do surgimento da NOIZE, Rafael Rocha percebe uma mudança curiosa acontecendo. Depois de um período em que o algoritmo parecia suficiente para organizar escuta e descoberta, muita gente voltou a procurar curadoria humana. Não necessariamente por nostalgia. Talvez por cansaço.
Ao longo da trajetória da NOIZE, Rafa atravessou revista, direção criativa, documentário, fotografia e vinil sem abandonar uma ideia central: música não funciona só como consumo rápido. Ela depende de contexto, repertório e relação humana.
Talvez por isso o Noize Record Club tenha surgido antes mesmo da retomada do vinil virar tendência consolidada. Enquanto boa parte da indústria perseguia velocidade, Rafa parecia interessado justamente no contrário: criar experiências onde a música voltasse a ocupar tempo, espaço físico e atenção prolongada.
Existe uma diferença importante entre acesso infinito e escuta real. E talvez a conversa inteira gire em torno disso. Não como defesa romântica do analógico, mas como percepção de um ambiente onde tudo circula rápido demais para realmente permanecer.
Na conversa com o deepbeep, Rafael Rocha fala sobre excesso de conteúdo, algoritmo e sobre por que descobrir música talvez tenha voltado a depender menos de recomendação automática e mais de alguém em quem confiar.
A playlist “o que vira imagem” acompanha justamente músicas que parecem provocar visualidade antes mesmo de qualquer câmera aparecer. Seu Jorge, Ana Frango Elétrico, Alice Coltrane, Kokoroko e Luiza Lian aparecem como parte desse repertório onde música e imagem parecem nascer quase ao mesmo tempo.
Rafa, a NOIZE nasce de uma pergunta simples: por que não existia uma revista de música naquele formato? Hoje, com excesso de conteúdo, o que ainda justifica criar mais uma camada sobre música?
O mercado da música e o jornalismo musical mudaram drasticamente ao longo desses quase 20 anos em que a NOIZE existe. Na época, existiam muitas revistas, de todos os formatos, gratuitas, pagas, todas falando de música. A gente buscou um encaixe dentro de um segmento que, podemos dizer, era bem organizado.
Hoje, acredito que estamos novamente num momento em que as pessoas estão buscando curadoria musical através de veículos. Passamos por uma fase em que o segmento era totalmente atualizado pelas próprias pessoas, mas sinto uma mudança acontecendo e uma nova fase chegando.
Você atravessou revista, filme, fotografia, vinil e direção. Em que momento a música deixou de ser assunto e passou a ser meio para contar outras coisas?
Acho que a música sempre foi, e sempre será, o guia. Desde os meus 10 anos de idade, praticamente tudo que faço gira em volta dela. Estava conversando esses dias com um grande amigo e ele falou uma frase que pode servir para qualquer área: “cara, não importa o que tu faça, a música vai ser sempre maior”. Pode soar piegas, mas para mim fez total sentido.
Muitas vezes a gente se vê lutando por algo, andando por caminhos que parecem não fazer sentido, e esquece qual foi o motivo que trouxe a gente até aqui em primeiro lugar.
O Noize Record Club apostou no vinil quando o mercado ainda era instável. O que te fez confiar mais na experiência do que na tendência?
Acho que desde o começo a NOIZE foi um grande laboratório em cima de experiências vividas. Por volta de 2012, eu produzia uns encontros na minha casa chamados Vinil Naites, totalmente sem pretensão. Chamava amigos, gente da música, levava bebidas e ficava tocando discos.
Naquela época ainda não tinha rolado essa chamada “volta do vinil” e, ao mesmo tempo, as reações das pessoas eram fantásticas. Isso foi despertando novas vontades, ideias, eventos e acabou crescendo naturalmente.
Hoje o algoritmo organiza grande parte da escuta e também do que se escreve sobre música. O que você sente que se perde quando a curadoria deixa de ser humana?
Sinto que se perde a essência da parada. Para mim, mesmo tendo um clube de discos, nada substitui a experiência de entrar numa loja, aprender sobre música com alguém que já ouviu muito, com quem está vendo tudo isso acontecer há décadas.
Você trabalha há anos traduzindo música em imagem. O que a imagem ainda não consegue alcançar que o som resolve sozinho?
Acredito que as duas formas de arte são complementares. Existem discos em que capa, imagem e visual parecem nascer junto da música. E existem outros em que a obra musical se descola completamente do visual e cria versões diferentes dentro do imaginário de cada pessoa.
Eu sou mais do time dos primeiros exemplos, na verdade. Mas são linguagens complementares, nunca sobrepostas. Existe um sentimento que só a música, de olhos fechados, consegue trazer. Assim como existe alguma coisa na fotografia e na imagem que o som não traduz da mesma forma.
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Fotos por Camila Cornelsen e Nicole G Fischer
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