
A Exclusive Os Cabides prefere gravar com o corpo inteiro na sala do que encaixar cada instrumento numa grade invisível.
A Exclusive Os Cabides construiu sua identidade tocando ao vivo até a música respirar sozinha. Nada nasce pronto. O repertório passa pelo ensaio, pelo erro e pelo palco antes de virar gravação. Às vésperas de circular pelo Circuito Nova Música, de 5 a 7 de março, a banda testa esse método artesanal em um ecossistema que privilegia curadoria e risco. Entre empregos formais, gravações coletivas e mais de quarenta shows no último ano, o som deixou de ser produto e virou consequência da convivência. Para o deepbeep, eles organizaram a playlist da Rotina e o Absurdo. Um recorte direto do que sustenta a banda quando o palco esvazia e o ruído do mundo volta.
Marcelo Nassif, sócio-editor
Vocês estão no line-up do Circuito Nova Música, um ecossistema que preza pelo frescor e pela curadoria do Lúcio Ribeiro. Como o som que vocês fabricam organiza a bagunça de viver em 2026 e estrutura a filosofia de trabalho de vocês hoje?
CAROL Apesar do caos cotidiano, da vida pessoal e dos compromissos de cada um, entre emprego formal e projetos paralelos, a gente tenta ao máximo priorizar fazer o que a gente ama, que é tocar e fazer música juntos. Acho que nosso mundinho de ensaios, gravações e shows é naturalmente divertido justamente por ser um sentimento genuíno de querer estar ali, e nosso trabalho funciona por conta dessa mesma vontade coletiva. Não sei se isso é uma estrutura ou uma filosofia, mas parece que está dando certo. Eu estou curtindo, acho que todos estão curtindo, então está ótimo.
DUDS Eu entendo nosso som mais como um reflexo dessa bagunça toda. Eu percebo que o processo artístico e de criação é bem distinto do resto do trabalho que envolve produzir música de maneira sustentável a longo prazo. Acho que nossa filosofia tem sido nos mantermos honestos com nossas preferências e sons de que a gente gosta. Respeitar as fases e momentos de cada um para que possamos colocar isso da maneira mais honesta possível nos nossos shows e gravações. Talvez a filosofia seja continuar equilibrando a liberdade de fazer música à nossa maneira e muita disciplina e seriedade para encarar a parte burocrática.
JOÃO A gente preza muito os ensaios e curtimos muito o show ao vivo. Tentamos usar a internet o máximo possível para nos auxiliar, para saber onde devemos ir tocar, mas acaba que na realidade é sempre diferente. No mais, o foco é a dominação mundial.
O que no som da Exclusive Os Cabides é o pulo do gato que o algoritmo nunca vai entender? Qual é o erro artesanal que vocês transformaram em assinatura e que protege a banda da pasteurização do mercado?
CAROL É basicamente isso que o João e o Duds falaram. Inclusive eu estava agora editando os episódios da TV KBIDS, nosso vlog no YouTube, sobre os dias de gravação do nosso novo EP, que rolou agora em janeiro. Assistir à gente chegando no nosso som é uma combinação de uma porrada de fatores que vão além da gente. O ambiente em que a gente grava, o Paulo, dono do estúdio, que está contribuindo com a produção do som da banda desde o comecinho, as ferramentas de trabalho que temos à nossa disposição, amigos que brotam do além numa diária de gravação e nos arrancam umas risadas e uns comentários sinceros, atravessar a rua e ir para a praia mergulhar no mar quando nenhum take está dando certo. Obviamente, as composições e letras dos primos, o uso das vozes e o arranjo geral que todos nós criamos juntos são coisas que vêm de forma bem natural e onde tudo começa. Mas onde a gente imprime isso é lá no estúdio e fica assim, 100% Cabides.
DUDS Quando eu comecei a gravar na minha adolescência, acho que caí em um caminho bem comum e que é o mais acessível para a maioria das pessoas que está começando. Com uma interface, um computador e sozinho. Acho que uma boa parte dos músicos acaba escolhendo esse caminho com o tempo porque realmente é muito mais prático e barato. Depois você vai para o estúdio e mesmo assim não é incomum ver projetos maiores continuarem com uma lógica parecida com a de uma linha de produção. As pessoas tocam separadas em cima de uma guia com metrônomo e as coisas vão sendo colocadas uma de cada vez em cima de uma grade rígida. Eu digo isso sabendo que esse jeito de gravar tem muito valor e, dependendo do som, até faz mais sentido. Estar disposto a cultivar uma relação em grupo ao longo dos anos, conhecer e conviver com quem você cria, se reunir semanalmente para construir o som da banda juntos, testar músicas apresentando elas ao vivo antes de gravar. Tudo isso leva tempo e exige uma boa dose de esforço. Mas quando você pega esse corpo coletivo e bota numa sala e grava ao vivo, o resultado desse trabalho lento e constante é muito natural e verdadeiro. Com os tropeços, falhas, acertos e o jeitinho único de cada um envolvido. Tem um balanço que é insubstituível para mim.
JOÃO Gravar ao vivo, como eu citei acima, é um deles, mas acho que a gente é meio errado por natureza, o que ajuda bastante e atrapalha às vezes também.
Em um cenário onde o silêncio virou artigo de luxo, como vocês usam a escuta para editar o cotidiano? A música de vocês serve para encarar a cultura digital de frente ou para criar uma zona de exclusão onde o ruído de fora não entra?
CAROL Esse tópico é sensível para mim porque, quando eu tinha uns 15 anos, eu achava totalmente bizarro alguém não escutar música o dia inteiro. Hoje em dia eu ando aproveitando mais o silêncio em momentos em que a Carol de uns anos atrás passaria mal se estivesse sem fone de ouvido. Mas eu ainda escuto muita música. Fazer show e estar presencialmente vivendo uma experiência junto com um grupo de pessoas é uma parada muito forte, e a gente gosta demais. Acho que a banda nasceu nesse formato ao vivo e está no DNA da Exclusive. Estar num lugar, na maioria das vezes minúsculo e mal ventilado, se apresentando para diversas pessoas que se deslocaram até lá, compraram ingresso e estão pulando e cantando as músicas que você está tocando é muito foda, levando em consideração o contexto de isolamento digital que a gente vive. Acho incrível nossa capacidade de proporcionar isso.
DUDS Acho bem difícil silenciar o ruído de fora porque definitivamente estamos vivendo tempos bem barulhentos. E também acho difícil em algum nível não pertencer a algum movimento virtual conforme as coisas vão crescendo. Às vezes, os próprios ouvintes vão criando esses espaços virtuais baseados no que cada um gosta de ouvir e nos artistas com os quais eles se identificam. Honestamente, eu tento focar na parte da minha vida que envolve construir e conviver com uma pequena comunidade de pessoas que se encontram ao redor da música e que reconhecem que outros jeitos de viver são possíveis.
JOÃO Eu escuto muita música ao longo do dia, o que me deixa mais bem-humorado, e também gosto de ficar analisando detalhes na mixagem, escutar coisas novas e ser pego desprevenido. Agora sobre as nossas músicas, acredito que elas devem servir para o que o ouvinte quiser. Se escutar música tomando banho e cantando alto é encarar a cultura digital que seja. Se excluir neste mundo da música não faz muito sentido. Tem que tocar ao vivo para fazer o negócio rolar. Talvez estejamos cumprindo mais com o papel de enfrentar barreiras digitais, até porque fizemos uns 40 e poucos shows ao vivo só no ano passado.
Como um estímulo sonoro aleatório que entra pelo fone de vocês se transforma em uma decisão estética real no ensaio? Queremos mapear a ponte entre o que vocês ouvem e o que sai como obra.
CAROL Apesar de ouvir de tudo, acho que na hora de compor e tocar eu sempre acabo voltando para as minhas raízes do rockzinho de garota dos anos 90, pop punk, post punk, meio emo, garage rock e indie rock, essas coisas todas.
DUDS Quando ouvi o nosso EP todo logo após as gravações, fiquei com a sensação de que ele é o resumo perfeito das bandas de que a gente gosta, que vão desde a nossa adolescência até agora. Algumas músicas têm vários anos de idade. A ponte é um mistério para mim, mas definitivamente existe um caminho. De alguma maneira, o meu eu de 12 anos fissurado por Green Day, o de 17 por Jimi Hendrix, o de 21 por Strokes e por aí vai. Todos esses eus ficaram felizes quando ouviram nosso último EP.
JOÃO Nossas referências são bem variadas. No ensaio eu chego geralmente com uma música pronta e umas ideias de arranjo e a galera vai tocando em cima. Acho que o que eu escuto acaba me influenciando mais na composição da música em si, o que acaba refletindo indiretamente na hora de botar a música em prática. Tipo, se o som sugere algo mais parecido com alguma década específica ou com alguma banda de que gostamos, acabamos indo para um lado. Às vezes a banda acaba fazendo umas coisas totalmente antagônicas ao que eu estava pensando ou sugerindo justamente por causa das variações do que cada um escuta, e aí sai um resultado legal. No fim, é com o toque especial de cada fone de ouvido que o som se forma.
Qual é a frequência emocional que vocês querem instalar na cabeça de quem vai assistir à banda nessas quatro cidades do Circuito? O que vocês querem que a gente sinta quando o som parar?
ANTÔNIO Uau, nunca mais vou perder um show deles na minha cidade e quero comprar todos os produtos deles agora mesmo.
CAROL Quero que elas sintam que tudo bem se um ônibus de dois andares as atropelasse agora, que é normalmente como eu me sinto após assistir a um show foda. Obviamente, não quero que ninguém seja atropelado, é apenas um sentimento. Se for para ser menos mórbida, gostaria que saíssem do nosso show com uma vontade feroz de criar uma banda.
DUDS Que a surpresa ainda existe.
JOÃO Geralmente só quero que as pessoas fiquem felizes.
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Circuito Nova Música #06: primeira edição do ano.
Exclusive os Cabides
Máquina.
Janine
+ atrações locais
05.03 São Paulo | Cineclube Cortina
06.03 Americana | Vibes Americana
07.03 Sorocaba | Asteroid Bar
08.03 Limeira | Magic Pub
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Fotos por Shay Ng
Agradecemos a Francine Ramos pela conexão
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