Ottopapi e as músicas que São Paulo grava primeiro no corpo

Entrevista e playlist de Ottopapi para o deepbeep

Ottopapi faz música sem limpar a distorção emocional que atravessa a cidade e o próprio corpo.

Existe um momento específico da noite em que a cidade para de parecer organizada e começa a funcionar mais por impulso, repetição e excesso de estímulo. O trabalho de Ottopapi parece nascer exatamente daí.

As músicas dele carregam sensação de madrugada prolongada. Caminhada sem muito destino, ideia gravada no celular no meio da rua, conversa atravessando a cabeça por horas e aquela aceleração mental que transforma qualquer volta para casa em processo criativo involuntário.

Ottopapi não parece interessado em limpar demais essas experiências quando elas viram música. Existe distorção, erro, impulso e um tipo muito espontâneo de intensidade emocional dentro do som dele. Nada soa excessivamente calculado. Como ele diz na entrevista, muitas dessas músicas nasceram quando o nível crítico já estava baixo demais para bloquear a intuição.

Ao mesmo tempo, o trabalho dele nunca depende de bagunça performática. Existe repertório emocional ali. Rock acelerado, indie, música eletrônica, skate, cultura de rua, Pixies, The Police e uma relação muito específica com São Paulo atravessam tudo sem precisar virar exercício de referência organizada.

A playlist “O Mapa do Desvio” ajuda a entender esse percurso. A seleção mistura músicas que aproximam estrutura e experimentação sem transformar diferença em pose estética. O resultado parece menos uma linha reta de influências e mais um trajeto emocional feito por alguém que aprendeu a confiar no próprio erro.

Na conversa com o deepbeep, Ottopapi fala sobre cidade, intuição, hiperatividade e sobre por que polir demais uma música pode acabar matando justamente aquilo que faz ela continuar viva.

Marcelo Nassif, sócio-editor

Tem música sua que parece nascer direto da cidade, sem filtro. Em que momento compor virou uma forma de organizar o que você está vivendo?
Não sei exatamente quando aconteceu, mas com certeza veio daquela fase em que eu chegava em casa tarde da noite depois de alguma aventura e ia direto para o estúdio gravar alguma coisa. Ter um estúdio em casa possibilita isso. É uma hora em que o peito fica cheio de sentimento e também mais fácil de externar.
Com algumas distorções na cabeça, transformar essas sensações em música não é muito complicado. O nível crítico baixa. Também foi um período em que eu estava meio preso em São Paulo. Aqui tem muita coisa para fazer, muito show, muita festa, muito bar, mas eu também estava sem grana para ir para outros lugares. Nunca fui uma pessoa organizada para viajar. Deixo tudo para a última hora.
Mas sempre gostei de explorar a cidade. Tenho minhas rotas, minhas caminhadas, minhas andanças. É um tempo de maturar ideias na cabeça. Muitas vezes gravo frases no celular ou escrevo coisas que aparecem do nada. Acabei começando a valorizar pequenas repetições que vejo no dia a dia.

Existe uma sujeira e uma malemolência muito próprias no seu som, que também aparecem na imagem. Em que momento você percebeu que isso já era linguagem e não só processo?
Nas bandas que eu tinha antes, não conseguia alcançar a medida solar e feliz que queria. Gosto de velocidade, de som para cima. Existe uma intensidade e uma alegria que me fascinam muito. A ideia de um som hiperativo sempre me pegou. Fui aquele moleque hiperativo da escola.
Percebi que isso era uma linguagem quando meus amigos começaram a ouvir o disco, foram aos shows e disseram que aquilo tinha muito a minha cara. Era muito eu. No fundo, queria fazer uma coisa minha e acabei percebendo que isso é justamente o que sei fazer. Para fazer outra coisa, preciso me esforçar mais.
Também gosto do fato de que tudo aconteceu de forma muito natural. Quando estava gravando essas músicas, nem pensava em disco ou carreira solo. O negócio ficou sério depois.
E a tal malemolência vem muito da admiração pelo meu pai, o Badeco. Ele é carioca, escolheu São Paulo, é surfista, mas gosta de skate, é fã de Pixies, The Police e música eletrônica. Acho que muita coisa vem dele.

Hoje o algoritmo empurra tudo para o rápido e o limpo. O que você faz para não perder o erro e a intuição no meio disso?
Já fui muito mais apegado a esse ritmo de novidade. Quando você é mais novo, dedica mais tempo a isso. Passei muitas noites procurando bandas e sons novos na internet.
Hoje sinto que já sei mais claramente o que quero. Sei a linguagem que quero construir para minha carreira, os estilos que quero explorar e como quero percorrer isso. Então não fico mais tão preocupado. Acho que um pouco de maturidade ajuda.
Mas gostei da pergunta sobre erro e intuição porque me considero uma pessoa muito errática e intuitiva. Confio muito mais nisso do que em técnica. Não tenho formação acadêmica, não sou técnico. Sou curioso. Gosto do erro e não gosto de preciosismo. Tenho preciosismo para viver, não necessariamente para a arte que faço. Talvez apenas para escolher as pessoas que participam dela.

Você vem de banda, trabalha com imagem e também está por trás de selo. Quando uma ideia vira música, o que você segura no bruto e o que decide lapidar?
Essa é uma questão muito sensível. Existe o apego às primeiras ideias e também o apego à lapidação. Sinceramente, não sei o que prefiro. Quem responde é o ouvido. O gosto. O que agrada.
A lapidação aparece mais nos aspectos técnicos da gravação. O Chuck ajudou muito nisso. Eu gravava as vozes distorcidas demais e ele me pedia para limpar um pouco para melhorar a compreensão das letras.
Essas músicas não nasceram como composições muito planejadas. Não era aquela coisa “fiz no violão”. Eram ideias surgindo na frente do computador enquanto eu tentava chegar em músicas que gosto de ouvir. Também teve muita participação de amigos. Eu chamava as pessoas para gravar e não deixava ninguém pensar demais. Queria manter tudo mais cru e intuitivo.

Depois que alguém escuta seu trabalho e tira o fone, o que você gostaria que continuasse ali incomodando ou fazendo pensar?
Vejo esse disco quase como um cardápio do que é meu show. Gostaria que as pessoas ficassem curiosas para descobrir como essas músicas funcionam ao vivo.
O disco é breve, digital, instantâneo. É uma balinha de banana, não um bananal inteiro. Existe um lado singelo e sincero ali. Eu abro meu coração do meu jeito. Às vezes acho confuso, pouco claro, sem tema central. E gosto justamente disso.
Mas também nunca dá para saber exatamente o que cada pessoa leva embora depois.

Acompanhe o trabalho de Ottopapi


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