Letrux e a palavra como estado físico

Entrevista e playlist de Letrux para o deepbeep

Entre o grito e o sussurro, Letrux transforma palavra, improviso e excesso emocional em presença física.

Letrux nunca parece completamente parada dentro da própria forma. Cada disco muda de temperatura, humor, personagem e direção emocional sem que isso soe como cálculo estético muito racional. Existe nela uma sensação constante de improviso controlado, como alguém que continua reorganizando a própria linguagem enquanto atravessa o palco.

A palavra aparece no centro de tudo. Seja na música, na literatura ou na performance, é ela que organiza intensidade, humor, excesso, vulnerabilidade e presença física. Talvez porque Letrux tenha crescido convivendo simultaneamente com ciência, espiritualidade e o “invisível”, como ela mesma descreve. Em vez de separar esses mundos, sua obra parece interessada justamente no atrito entre eles.

Num momento em que grande parte da música funciona pela velocidade da repetição e da imagem rápida, Letrux continua apostando em texto longo, improviso, excesso emocional e “brisas poéticas” sem muita preocupação em suavizar a própria estranheza. O palco aparece como extensão disso tudo. Um lugar onde gesto, suor, voz e espontaneidade reorganizam completamente aquilo que antes existia apenas no papel.

Na conversa com o deepbeep, Letrux fala sobre espiritualidade, reinvenção, performance, palavra, improviso e sobre o prazer de continuar mudando sem precisar estabilizar personagem.

A playlist “Entre o Grito e o Sussurro” que ela criou acompanha a entrevista através de Kátia B, Led Zeppelin, Primal Scream e Blubell como espelho desse universo onde delicadeza, colapso emocional e catarse física continuam acontecendo ao mesmo tempo.

Lísias Paiva, criador e editor

Letrux, sua arte transita pela música, literatura e performance, mas sempre parece guiada por um mesmo fio invisível. Hoje, qual é o coração que pulsa mais forte dentro da sua criação?
O invisível sempre foi muito presente, pois sou filha de um médium da Umbanda, então cresci com a ciência, vacinas, remédios, mas também com recados do além, passes, avisos, trabalhos. E eu sou testemunha de que minha vida sempre foi melhor com essa combinação do invisível. Toda vez que deixei de lado, piorei ou afundei. Existe um elo que se dá na palavra. A palavra é primordial em qualquer especulação artística minha. Ela é o pulso, o coração.

Sua persona artística se transforma a cada álbum. A Letrux de Em Noite de Climão não é a mesma de Aos Prantos ou de Mulher Girafa. Esse processo de se reinventar é consciente, como uma decisão estética, ou acontece como um transbordamento inevitável da sua vida?
A estética é a última coisa que penso, é quase como se fosse apenas embrulhar para presente. Mas antes precisamos elaborar qual vai ser o presente. Como qualquer ser humano, temos fases, dinâmicas. Há estados mais perenes nas nossas vidas, ciclos que se alongam, e que alegria tudo isso. Mas há muitos trânsitos também, e tudo bem. Importante saber lidar. Como artista, procuro manter minha antena conectada e vou sentindo e me reinventando. Gosto de brincar.

Num mundo de dancinhas virais e consumo apressado, como uma obra tão literária e visceral como a sua encontra espaço para respirar e ecoar?
Sou muito sortuda. Claro que não fui catapultada para o Brasil inteiro como outras figuras, mas ainda assim, me sinto sortuda. Há muitas pessoas que transam meu som, minha literatura. Tenho um público interessado e interessante. Acho que eu também me mantenho fiel a algumas coisas. Fiz concessões? Algumas, mas continuo postando meus textos enormes, minhas brisas poéticas, então quem quiser ver isso, sabe que eu ofereço isso.

No palco, corpo e voz são inseparáveis. Como funciona o processo de transformar um texto íntimo, escrito quase em segredo, em gesto, grito, suor e performance diante da plateia?
Não há segredo no palco. Ainda que haja, parece que tudo ganha vida, toma luz. Adoro o processo de levar um show apenas ensaiado para o palco. Como vou me portar, como vou lidar? Há muito ensaio e elaboração, mas também sou bicho solto e amo improvisar e ver o que o espontâneo me reserva.

Se sua vida fosse um vinil, qual faixa estaria no lado A (aquela que você mostraria para o mundo) e qual ficaria escondida no lado B, guardada só para quem souber ouvir até o fim?
No lado A, acho que teríamos Djavan cantando “Muito Obrigado”, estou nessa fase intensa de agradecer todas as benesses que recebi. E no lado B, teríamos Lhasa de Sela, “I’m Going In”. Música densa de uma artista que nem está mais aqui nesse planeta, mas que eu amo imensamente.

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Fotos por Bruna Latini

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