
Corpo, cinema, imaginação e democracia racial aparecem na conversa com Sabrina Fidalgo como histórias que aprendemos a chamar de naturais.
O maior sucesso de uma história é fazer esquecer que alguém a escreveu. Toda sociedade produz narrativas sobre si mesma. Elas aparecem nos filmes, na publicidade, nos livros escolares, nas fotografias de família, nas novelas, nas redes sociais e nas pequenas frases repetidas dentro de casa. Com o tempo, deixam de parecer narrativas. Viram costume. Viram tradição. Viram bom senso. Um país aprende quem representa beleza. Uma criança aprende quais sonhos combinam com ela. Um corpo aprende como deve ocupar um espaço. Uma imagem decide o que merece permanecer dentro do enquadramento e o que pode ficar de fora.
O cinema conhece esse mecanismo desde o início. Cada plano escolhe um protagonista. Cada montagem aproxima acontecimentos que nunca dividiram o mesmo tempo. Cada corte elimina possibilidades. Nenhuma imagem registra apenas o mundo. Toda imagem também organiza uma maneira de enxergá-lo.
Os filmes de Sabrina Fidalgo voltam repetidamente a esse território. Seu primeiro longa-metragem, O Projeto, codirigido com Yvan Rodic, integra a Mostra Competitiva de Documentários Brasileiros do 54º Festival de Cinema de Gramado. Antes mesmo de contar uma história, seus trabalhos perguntam quem escreveu a versão da realidade que aprendemos a reconhecer como natural.
A conversa percorre dança, imaginação, democracia racial, cinema e desejo. Os assuntos mudam. A pergunta permanece. Quem escreveu o roteiro que organiza a maneira como olhamos para o corpo, para o país e para nós mesmos? A playlist continua a investigação seguindo a mesma lógica da entrevista. Primeiro vêm as cidades. Depois as pessoas. Em seguida, as mudanças de atmosfera, os personagens e as músicas que permanecem na memória. Mais do que uma seleção de faixas, Sabrina organiza uma maneira de observar. A escuta também aprende a ler uma cena.
Lísias Paiva, criador e editor
Sabrina, toda sociedade produz personagens sobre si mesma. Como perceber quando estamos vivendo uma história e quando estamos apenas repetindo um roteiro?
Talvez quando deixamos de nos perguntar quem escreveu esse roteiro. Desde muito cedo somos treinados para desempenhar determinados papéis: homem, mulher, rico, pobre, branco, negro, vencedor, fracassado. Aprendemos o que devemos desejar, como devemos amar, quais sonhos são considerados legítimos e até quais versões de nós mesmos merecem existir.
Existe uma espécie de robotização social e afetiva que opera de forma silenciosa. Ela nos empurra para modelos heteronormativos, produtivistas e padronizados de felicidade, muitas vezes sufocando diferenças, sensibilidades e formas alternativas de estar no mundo, ainda na infância. Quantas crianças deixam para trás desejos, talentos e modos de ser para caber em uma expectativa que não foi criada por elas?
Acho que estamos apenas repetindo um roteiro quando confundimos adaptação com liberdade. Viver uma história, por outro lado, exige algum grau de desobediência. Exige a coragem de interromper narrativas herdadas e imaginar outras possibilidades para si. Afinal, toda sociedade produz personagens sobre si mesma, mas nem todos aceitam interpretar o papel que lhes foi atribuído.
Você trabalha com cinema e também como DJ. O que uma pista de dança revela sobre as pessoas mais rápido do que uma conversa?
A pista de dança revela aquilo que existe antes da linguagem. Ela nos lembra que o corpo também pensa, comunica, deseja, intui e produz conhecimento. A tradição ocidental privilegiou a razão como forma superior de inteligência, mas existem saberes que só podem ser acessados por meio do movimento, do ritmo, da presença e da experiência coletiva.
Na pista de dança, as pessoas frequentemente abandonam personagens sociais que sustentam durante o dia. O corpo passa a falar de sedução, vulnerabilidade, alegria, espiritualidade, pertencimento e liberdade de uma forma que muitas vezes escapa às palavras. É um espaço onde hierarquias podem se dissolver, ainda que momentaneamente, e onde formas ancestrais de comunicação reaparecem. Talvez por isso a dança tenha sido tão importante em tantas culturas ao longo da história. Ela não é apenas entretenimento. É encontro, ritual, celebração e, em muitos casos, uma tecnologia de conexão entre indivíduos, comunidades e dimensões do sagrado.
Como cineasta, interessa-me muito observar esse momento em que o corpo deixa de ilustrar um discurso e passa a produzir significado por si mesmo. Às vezes, uma pista de dança revela mais sobre uma pessoa do que horas de conversa, porque ali ela já não está apenas contando quem é. Ela está sendo.
O que uma imagem consegue esconder melhor do que uma palavra?
Talvez justamente aquilo que ela revela. Uma imagem possui uma capacidade extraordinária de condensação. Ela pode reunir tempos, emoções, memórias, contradições e camadas de significado que exigiriam páginas inteiras para serem descritas. Às vezes, uma única imagem é capaz de resumir sentimentos indefiníveis e laudas inteiras de uma tese.
Por isso, acredito que existe uma dimensão poética da imagem que escapa à linguagem verbal. Nem tudo pode ser explicado, mas muitas coisas podem ser sentidas. Uma fotografia, um plano de cinema ou mesmo um gesto capturado no instante certo podem nos atravessar antes que sejamos capazes de racionalizá-los.
Ao mesmo tempo, toda imagem é uma escolha. Ela sintetiza e silencia. Mostra algo enquanto oculta outras possibilidades. Seu poder não está apenas no que revela, mas também nos vazios que produz, nas perguntas que deixa em aberto e nos significados que convida o espectador a completar.
Talvez seja por isso que continuemos produzindo imagens desde as pinturas rupestres até o cinema contemporâneo. Elas nos permitem acessar territórios da experiência humana onde as palavras, muitas vezes, já não dão conta.
Existe alguma fantasia que o Brasil continua contando sobre si mesmo porque ainda não encontrou uma história melhor?
A fantasia da democracia racial.
Durante muito tempo, construímos a imagem de um país miscigenado, cordial e naturalmente harmonioso. Essa narrativa ajudou a consolidar uma identidade nacional, mas também serviu para ocultar desigualdades profundas e conflitos estruturais que permanecem vivos.
Vivemos uma espécie de apartheid social e simbólico que organiza quem circula por determinados espaços, quem ocupa posições de poder, quem tem acesso à educação, à cultura e às oportunidades. Muitas vezes, esse sistema opera de forma tão naturalizada que deixa de ser percebido como uma construção histórica. A ideia de que somos um povo sem conflitos raciais nos impede de enfrentar as marcas deixadas pelo colonialismo e pela escravidão. Enquanto insistirmos nessa fantasia, continuaremos tratando sintomas sem questionar as estruturas que os produzem.
Acredito que o Brasil ainda precisa encontrar uma narrativa capaz de reconhecer sua diversidade sem romantizá-la, encarando suas contradições como parte indispensável da construção de um futuro mais justo.
O que a imaginação percebe antes que a realidade consiga admitir?
A imaginação percebe possibilidades.
Ela antecipa futuros, experimenta caminhos e produz imagens capazes de existir antes mesmo que o mundo esteja preparado para elas. Por isso acredito profundamente no poder da fabulação. Antes de qualquer transformação concreta, existe alguém que foi capaz de imaginar uma realidade diferente.
Os Estados Unidos compreenderam muito cedo o poder dessa construção simbólica por meio do cinema. Durante a Grande Depressão, Hollywood produzia imagens de prosperidade, glamour, mobilidade social e liberdade. O star system não apenas refletia um país, mas ajudava a inventá-lo. Em muitos aspectos, essas fabulações moldaram a forma como o restante do mundo passou a enxergar os Estados Unidos. O cinema tornou-se uma das ferramentas mais poderosas de construção simbólica do século XX e, talvez, o maior instrumento de soft power já criado. É por isso que a imaginação me interessa tanto. Ela não representa uma fuga da realidade. Ao contrário, é uma força capaz de disputar a própria realidade.
A grande tarefa do nosso tempo talvez seja imaginar futuros mais amplos do que aqueles que herdamos. Toda transformação começa como uma história improvável contada por alguém que ousou imaginar um mundo diferente.
A playlist comentada por Sabrina Fidalgo
Observar Pessoas
Faça de Conta – Azymuth
Ilha dos Prazeres – Arto Lindsay
April Child – Moacir Santos
Trem Azul – Clube da Esquina
Perceber uma mudança de clima ou simplesmente para quando a superfície da realidade parece insuficiente
@minhaloucuratemtrilhasonora – NOPORN
Glitter – Dina Ögon
Unfinished Sympathy – 2012 Mix/Master – Massive Attack
Bebê – Eumir Deodato
Músicas que ajudam a ler ambientes, identificar personagens e captar aquilo que ainda não foi dito em voz alta
Kpok / Krok – COIO3
Don’t Stop the Dance – Bryan Ferry
Balls and Pins – Khruangbin
Birds of a Feather – Billie Eilish
Golden Age of Life – 4Hero
Músicas que ficaram associadas a cenas, personagens, pistas ou imagens importantes da sua trajetória
MacArthur’s Park Suite – Donna Summer
Frevo Mulher – Amelinha
Black Classical Music – Yussef Dayes
All About Me – Jalen Ngonda
Awake O Zion – Elbernita “Twinkie” Clark
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