
Uma conversa sobre Beatles, ansiedade e o momento em que perceber o próprio gosto muda muito mais do que uma playlist.
Ninguém começa escolhendo sozinho. Antes do primeiro disco favorito vieram os pais. Antes do primeiro filme preferido vieram os amigos. Antes de dizer “eu gosto disso”, quase todo mundo passou anos ouvindo o que valia a pena gostar. A formação do gosto raramente recebe a mesma atenção que a formação da personalidade. Talvez porque gostemos de imaginar que nossas escolhas sempre foram nossas. A música que ouvimos, as roupas que usamos, os livros que admiramos e até a maneira como enxergamos o mundo costumam chegar acompanhados de referências, expectativas e pequenas aprovações invisíveis.
A história que Sophia Abrahão conta sobre os Beatles cabe nesse lugar. Ela cresceu ouvindo que aquela banda não era para ela. Quando resolveu escutar por conta própria, descobriu muito mais do que um disco. Descobriu que boa parte das certezas que carregava nunca tinha sido colocada à prova. Essa descoberta atravessa toda a conversa.
A música aparece como companhia para a ansiedade. A confiança surge como uma qualidade que quase sempre passa despercebida. A sinceridade deixa de ser um traço de personalidade para se tornar uma forma de reconhecer quem já não precisa representar um papel. Nada disso acontece de uma vez. Construir um gosto também significa construir critérios. Aprender a separar curiosidade de influência, opinião de herança, desejo de expectativa.
A playlist continua essa investigação. As músicas escolhidas por Sophia não explicam as respostas. Elas ajudam a entender como uma escuta também amadurece. Algumas permanecem. Outras chegam quando finalmente estamos prontos para ouvi-las.
Lísias Paiva, criador e editor
Com a colaboração de Claudio Thorne, social media
Sophia, você já foi apresentada ao público de muitas maneiras. Qual versão sua mais te surpreende quando reaparece?
Quando olho para trás e vejo a quantidade de projetos em que já me envolvi, me surpreendo. Muitas vezes, nem me reconheço. Quando vejo vídeos dos shows de Rebeldes, por exemplo, parece que foi em outra vida. O que vivemos enquanto banda é algo indescritível. Viajamos por todo o Brasil, lotamos casas de show, arenas… Quando reencontro essa versão de mim, sempre abro um sorriso. Sou muito grata por essa fase.
Tem músicas que parecem aumentar uma emoção e outras que parecem organizá-la. O que a música costuma fazer por você?
A música é um dos pilares da minha vida. É o que me move, o que me emociona, o que me ajuda. Já me salvou muitas vezes. Me tirou de momentos de ansiedade, me fez parar para respirar e simplesmente sentir. Também despertou meu interesse pelo contexto histórico e social em que determinadas letras foram escritas. Não consigo levantar da cama sem música. De fato, é uma das coisas mais importantes da minha vida.
É aquele clichê de dizer que eu não saberia viver sem… E, sinceramente, não saberia mesmo.
Qual mudança de opinião te deixou mais próxima de quem você é hoje?
Nossa, muitas.
Quando a gente é mais novo, muitas das nossas crenças vêm de terceiros. Demorei um tempo para entender e separar as coisas de que eu gostava daquelas que me disseram que eu gostava.
Minha primeira emancipação foi musical. Sou beatlemaníaca, mas não conhecia os Beatles até os 15 anos. Cresci ouvindo que a banda não era rock, que era melosa demais e, por isso, acreditava que não era para mim. Nem preciso dizer o quanto minha vida mudou quando resolvi abrir essa porta.
Esse é só um exemplo de como é essencial descobrir nossos próprios gostos e nossas próprias vontades. Demora um tempo, mas, quando a gente se livra das caixas em que nos colocaram, a sensação é maravilhosa.
Existe alguma qualidade que as pessoas costumam perceber tarde demais umas nas outras?
Acho que sim. A confiabilidade, às vezes, demora para ser reconhecida. Estamos muito acostumados a uma vida barulhenta, cheia de estímulos e de pessoas disputando nossa atenção. A consistência, por outro lado, costuma ser invisível. Ela acaba se confundindo com a rotina. Acho que isso acontece muito nos relacionamentos. Muitas vezes confundimos consistência com falta de emoção. E isso é perigoso porque, quando a vida nos chacoalha, são justamente essas pessoas confiáveis que queremos por perto.
Qual comportamento faz você prestar atenção em alguém imediatamente?
A sinceridade. Com o passar do tempo, a gente aprende a perceber quando alguém está mentindo. Quando isso acontece só para chamar atenção ou parecer melhor do que realmente é, sinto uma vergonha alheia enorme. É uma atitude que me afasta. Já as pessoas sinceras me fascinam. Sou boa de conversa (hahaha), então, quando encontro alguém disposto a conversar sem querer provar um ponto o tempo todo, interessado de verdade e sem medo de ser vulnerável, fico muito feliz.
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Podcast “Avisa Chegando” com Sophia Abrahão e Mariana Molina
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Fotos por Bruno Rangel e Cassia Tabatini
Agradecimentos à Karen Grimaldi , da assessoria Destaque, pela conexão
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