MC Soffia e o que a gente aprende antes de perceber

MC Soffia em retrato para o deepbeep durante entrevista e playlist sobre música, memória e herança cultural.

MC Soffia mostra que algumas das lições mais importantes da vida chegam pela família, pela música e pela experiência muito antes de encontrarem um nome.

MC Soffia cresceu diante do público. Enquanto muita gente ainda acreditava que racismo, machismo e autoestima eram assuntos para adultos, ela já transformava essas experiências em música. O tempo passou, a artista amadureceu e a conversa ficou maior. Hoje ela fala sobre dinheiro, memória, lealdade, família e sobre as referências que continuam formando uma pessoa muito depois da infância.

Existe uma ideia que atravessa toda a entrevista. Grande parte do que realmente nos transforma chega antes das explicações. Pela música que toca dentro de casa. Pelos livros que a escola nunca apresentou. Pelas pessoas que ensinam sem perceber. Pelas experiências que obrigam a crescer antes da hora.

A playlist “Quando a Voz Encontra o Corpo” nasce dessa memória. Reunida por MC Soffia a partir das músicas que escutava com os avós, ela reúne artistas como Jorge Ben Jor, Djavan e Taíde para mostrar que certas canções deixam de ser repertório. Viram parte da maneira como alguém aprende a olhar para o mundo. Na entrevista ao deepbeep, MC Soffia fala sobre as vozes que continuam formando quem a gente é muito depois da primeira escuta.

Você começou a se expressar publicamente muito cedo. O que as pessoas entendem errado sobre quem tem opinião própria desde criança?
O problema é que muita gente acredita que temas como racismo, machismo e homofobia só devem ser discutidos quando a pessoa se torna adulta, como se só fosse possível entender essas questões nessa fase da vida. Mas a verdade é que, quando você é criança, já passa por tudo isso.
A criança preta passa por racismo. A criança LGBT passa por homofobia. E as meninas também vivem situações de machismo. Isso acontece na escola, na rua e, muitas vezes, dentro de casa. Por isso, precisamos aprender sobre esses assuntos desde cedo. Claro que seria bom crescer sem precisar lidar com isso, mas essa não é a realidade. Quando somos crianças, precisamos aprender a nos defender. A menina preta precisa aprender a se amar, a se valorizar, a gostar do próprio cabelo e da própria cor. Porque ela chega à escola e, muitas vezes, escuta que é feia, que não é bonita o suficiente ou que há alguma coisa errada com ela.
As meninas também precisam conhecer os próprios direitos. Precisam saber que podem brincar do que quiserem. Quantas vezes alguém diz que menina não pode jogar futebol, entrar na piscina ou fazer determinada atividade? Essas situações existem. Aconteceram comigo. Eu sei do que estou falando. O maior erro é acreditar que criança não entende essas questões. Entende. E sabe falar muito bem sobre elas. Quanto mais cedo esses temas forem ensinados, melhor o mundo pode se tornar.

Existe alguma situação da vida que parece ganhar outra dimensão quando acontece com a música certa tocando ao fundo?
Com toda certeza. A música religiosa, por exemplo, é muito poderosa. Ela alcança outra dimensão da gente. Faz chorar, emociona e provoca reflexões.
Também existem músicas que falam sobre luta, sobre a vida e sobre histórias reais.
Quando essas experiências viram canção, a gente acaba se identificando porque encontra ali sentimentos que também fazem parte da nossa trajetória. Tem uma música de que gosto muito, do Taíde, chamada Que Tempo Bom. Ela fala sobre aproveitar a vida, aproveitar a infância e valorizar os momentos enquanto eles acontecem. É uma música muito bonita porque lembra que existem fases que não voltam mais.

Qual diferença existe entre chamar atenção e realmente ser ouvida?
Na minha percepção, existe diferença. Mas uma coisa depende da outra. A gente precisa chamar atenção para conseguir ser ouvido. Nas redes sociais, existem pessoas que chamam atenção para coisas ruins e outras que chamam atenção para coisas boas. Quando conseguimos despertar interesse por algo positivo, aí sim as pessoas estão dispostas a escutar. Não adianta apenas falar. É preciso que alguém esteja realmente ouvindo. É como acontece numa sala de aula. Se o professor está falando e ninguém presta atenção, a mensagem simplesmente não chega. É assim que eu entendo essa diferença.

Tem alguma ideia que parecia muito importante aos seus 15 anos e que hoje você enxerga de outro jeito?
A ostentação. Quando eu era mais nova, queria muito ostentar. Vinha da periferia e existia esse desejo de mostrar que eu tinha conquistado alguma coisa. Hoje, aos 22 anos, penso diferente. Comecei a ler livros sobre finanças, dinheiro e comportamento financeiro. Passei a entender coisas que nunca me ensinaram na escola. Sempre dizia aos meus professores que gostaria de aprender matemática financeira. Nunca aprendi. Então fui estudar sozinha. Hoje tenho outra percepção sobre riqueza, luxo e ostentação. Percebi que riqueza também mora em coisas simples. Existem pessoas com muito dinheiro que ainda não têm aquilo que realmente importa.

Existe alguma qualidade que as pessoas costumam perceber tarde demais umas nas outras?
A confiança. A lealdade. Muitas vezes as pessoas só entendem o valor disso quando perdem. A gente vê isso acontecer em muitos relacionamentos. Alguém erra, a relação acaba e só depois percebe que tinha ao lado uma pessoa parceira, alegre e disposta a construir uma vida juntos. Acho que muita gente só entende o valor de alguém quando essa pessoa já foi embora.

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