
Erika Palomino fala sobre o instante em que uma linguagem ainda parece pequena e já começou a mudar a cultura.
Mudanças importantes quase nunca chegam fazendo barulho. Primeiro, ocupam uma pista de dança. Um club. Uma rua. Um grupo pequeno de pessoas. Ainda não receberam um nome. Ainda não movimentam o mercado. Ainda não fazem parte da conversa da maioria. Mesmo assim, já alteram a forma de ouvir música, construir imagem, ocupar a cidade e imaginar o futuro.
Há mais de três décadas, Erika Palomino acompanha esse momento. Como jornalista, editora e diretora criativa, desenvolveu uma forma muito particular de observar a cultura. Presta atenção em artistas, ideias, movimentos e linguagens quando eles ainda procuram o próprio lugar. Boa parte do que depois se torna familiar passou primeiro por esse olhar, numa época em que despertava dúvida, curiosidade ou resistência.
Babado Forte nasceu dessa experiência e continua sendo uma das principais leituras sobre a cultura clubber brasileira. O livro mostra que as pistas de dança nunca produziram apenas entretenimento. Produziram repertório, comportamento, imagem e novas formas de ocupar a cidade. Muitas referências que hoje parecem evidentes passaram primeiro por esse território.
A pergunta permanece aberta. Como reconhecer uma transformação antes de ela receber um nome?
Ao longo da conversa, o frio na barriga deixa de parecer uma reação e passa a funcionar como instrumento de leitura. A intuição ganha o peso de um método. Periferias, underground e tecnologias de sobrevivência aparecem como lugares onde novas linguagens continuam sendo experimentadas antes de chegarem ao restante da cultura.
A playlist “Antes do Nome” reúne músicas escolhidas por Erika Palomino. Faixas que chegaram cedo, atravessaram décadas e continuam revelando novas camadas a cada escuta.
★ No fim da entrevista, outras vozes entram na conversa. Marina Dias, Felipe Venâncio, Pil Marques, Marcelona, Renato Cohen, Johnny Luxo, Renata Bastos e Mau Mau acrescentam novas memórias a essa história. Cada um escolheu uma música e relembrou um encontro que ajuda a compreender como um olhar também transforma quem esteve por perto.
Lísias Paiva, criador e editor
Com a colaboração de Claudio Thorne, social media
Você já chegou cedo demais em muitas histórias. Como percebe que alguma coisa realmente começou?
Antes de tudo, pela mais pura intuição. O frio na barriga mesmo, a emoção. Ficar atenta aos pequenos sinais ajuda bastante. Treinar o olhar e os sentidos. O novo sempre me instigou, em qualquer área, e meu trabalho sempre foi muito sobre isso.
Tem música que muda uma pista. Tem música que muda uma geração. Como você percebe a diferença?
Há que se seguir o zeitgeist, o tal espírito do tempo. Algumas coisas são feitas com tanta verdade que transcendem o cotidiano e a repetição. Há também certa determinação em fazer algo novo. E existe uma grande diferença quando a gente ouve uma coisa que não se parece com nada do que já ouvimos antes. Esse “choque do novo” é que é revolucionário. Tem a ver com energia também. Eu sinto.
Quem continua ensinando você a olhar diferente?
As manifestações que vêm do underground, das periferias, que nascem das tecnologias de sobrevivência, de quem hackeia os sistemas de forma política mesmo.
Como você percebe que vale a pena apostar numa ideia que ainda parece estranha para quase todo mundo?
Sempre vale. Mesmo que não dê em nada lá na frente.
Você sempre escreveu sobre o que estava nascendo. O que ainda faz você parar e pensar “isso eu nunca vi”?
Fico muito impressionada com os desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro e seus atravessamentos com a música, com a cultura negra e periférica, com deslumbramentos estéticos e sonoros, com uma criatividade para além de qualquer fronteira. A cada ano, esse universo traz alguma novidade. O corpo brasileiro que se expressa por meio da cultura Ballroom também segue me comovendo, com interpretações à nossa moda dessa linguagem que hoje é universal.
O que você gostaria que as pessoas voltassem a fazer pela primeira vez?
Beijar na boca.
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Um cult do jornalismo e um ícone da pesquisa sobre a vida noturna urbana, Babado Forte, ou BBD FRT, de Erika Palomino, ganhou uma edição ampliada e atualizada na comemoração dos 25 anos de sua primeira publicação e para rever o que aconteceu com aquelas personagens e manifestações mapeadas pela autora. Enquanto a obra original reunia mais de cem relatos e entrevistas sobre a cena clubber nos anos 1990, focalizando o eixo Rio-São Paulo, a nova edição traz mais de 70% de conteúdo inédito, cobrindo também experiências de capitais como São Luís, Belém, Recife e Salvador para expandir a discussão sobre moda, música e noite no Brasil.
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O babado continua
Babado Forte nunca contou a história de uma pessoa. Contou o nascimento de um movimento. Convidamos Marina Dias, Felipe Venâncio, Pil Marques, Marcelona, Johnny Luxo, Renata Bastos e Mau Mau para acrescentar uma nova camada a essa conversa. Cada um escolheu uma música e compartilhou uma lembrança de um olhar que ajudou a reconhecer transformações quando elas ainda pareciam pequenas.
▶︎ Marina Dias: Antes da facilidade de informação que temos hoje… a gente tinha a Noite Ilustrada. Sua coluna sobre comportamento na Folha de S.Paulo. Ali, ela reverberou em uma geração e moldou outras que vieram depois, com sua compreensão da pista de dança como lugar de acolhimento e fomento de cultura. Para além disso, ela foi uma madrinha importantíssima na minha carreira! Quando fui descoberta em 1997, foi ela quem me colocou — agora no seu caderno sobre moda — como destaque inúmeras vezes, me dando muita visibilidade e credibilidade. Sendo eu uma modelo fora dos padrões da época, isso foi imprescindível na construção da minha imagem como parte relevante da moda brasileira. Para mim, Erika sempre foi e sempre será um babado forte.
Música: ‘Deeper and Deeper’, da Madonna, porque a primeira vez que a vi pessoalmente estava tocando essa música, e ela dançava belíssima na pista da Sra. Krawitz.
▶︎ Renato Cohen: A Erika foi fundamental para a cultura clubber numa época em que nem internet existia. Ela sempre apoiou muito meu trabalho desde o começo… Obrigado <3
Música: Gypsy – Funk De Fino
▶︎ Felipe Venâncio: “Vai abrir com o quê?” Erika sempre muito conectada, principalmente com música, do Philip Glass até a mais underground das tracks, vinha com essa pergunta. Era uma “inside joke” pra quebrar a tensão antes de uma gig importante, principalmente porque nunca sabia a resposta.
Música: More than a Woman (Trouble’s Own Mix) – Shèna
▶︎ Marcelona: Saudades das noites intermináveis tomando drinks e jogando Shopping Parlante no apartamento da Vilaboim!
Música: Club Lonely – Lil’ Louis
▶︎ Johnny Luxo: A gente se conhece desde o começo dos anos 90, fomos juntos muitas vezes ao Massivo. Tinha uma música que a gente amava muito, chamada “Comin’ On Strong (Spagatini Mix)”, da Desiya. Quando começava a tocar, enlouquecíamos, literalmente! Rolava uma coreografia loucurinha, tipo: um pulinho para a esquerda, um pulinho para a direita e um rodopio. E quando a música chegava em 5 minutos e 57 segundos — que era a nossa parte favorita —, a gente gritava: ‘Que luxo!’ Era uma euforia absurda <3
Música: Comin’ On Strong (Spagatini Mix) – Desiya
▶︎ Pil Marques: A lembrança foi de quando eu conheci a Erika na pista do Sra. Krawitz, o Alê (Hercovitch) tava dançando com ela e me apresentou.
Música: E estava tocando aquela música Samba do House of Gypsies (Todd Terry).
▶︎ Mau Mau: Em uma época sem internet, a coluna Noite Ilustrada, assinada por Erika Palomino na Folha de S.Paulo, fez toda a diferença para a noite underground de São Paulo e, principalmente, para a minha profissão de DJ e produtor musical. Enquanto as revistas especializadas em música no Brasil focavam apenas em artistas e clubs do mainstream, Erika dava voz ao underground, aos clubs alternativos e aos seus verdadeiros personagens. Minha carreira como DJ Mau Mau deve muito a essa trajetória, impulsionada pelas diversas manchetes, citações e prêmios que recebi nas votações de melhores do ano promovidas pela coluna. Guardo com muito carinho momentos marcantes dessa parceria, como a oportunidade inesquecível de participar da comemoração de 10 anos da Noite Ilustrada. Foi uma honra subir ao palco do Teatro Municipal para fazer uma apresentação ao vivo ao lado do lendário cantor Noite Ilustrada. Outra memória eterna foi a nossa viagem a Portugal para uma turnê internacional: enquanto eu e o DJ Felipe comandávamos as pistas em várias cidades portuguesas, Erika fazia a cobertura jornalística brilhante de cada passo nosso. Parabéns, Erika, pelo trabalho incrível e histórico na nossa cena, e meu muito obrigado por tudo!
Música: Don’t You Want Me – Felix
▶︎ Renata Bastos: Eu conheci a Erika na pista de dança, na Disco Fever do DJ Mauro Borges. E foi quando a Erika publicou a minha primeira foto na Folha de S.Paulo com o título “Renata absurda!” Aqueles nicknames que só a Erika sabe dar, né?
Música: Good Life – Inner City
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Erika Palomino na Revista Zum
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